A primeira pedra, de Pedro Machado
Rodrigo Pires*
O autor de A primeira pedra, Pedro Machado, é escritor e professor (SME-RJ). Mestre em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, pela UFRJ, e graduado em Línguas Vernáculas e Literaturas em Língua Portuguesa pela mesma instituição, é autor em Cadernos Negros 43, 44 e 45, além de ter outros diversos contos e romances publicados. A primeira pedra (2024) é sua primeira publicação pela editora Malê.
Composta por 13 textos, em 158 páginas repletas de revelações, a coletânea é um livro de contos em que se destacam várias camadas interlocutivas, nas quais prevalece um cenário complexo e diverso, com pontos de vistas múltiplos, que se dialogam ou se duelam, no contexto do mundo cristão evangélico brasileiro.
Preenchida pela veia criativa de Pedro Machado, trata-se de uma coletânea de histórias que entrecruzam aspectos relevantes e, ao mesmo tempo, conflitantes sobre “atirar a primeira pedra”, que se propõe, por vezes, como a única alternativa. Não composta por clichês, apresenta narrativas independentes, mas unidas por um mesmo eixo temático: a vivência da fé articulada e envolvida por contradições humanas, em que as personagens enfrentam repressões, julgamentos, culpa, exclusão, desejos silenciados e busca por pertencimento. A religião aparece, mas não de forma caricatural, e sim como território complexo, de acolhimento e, por vezes, de dor.
Impactante em sua constituição temática, o livro revela conflitos internos das personagens, tensões sociais e dilemas morais profundos. No entanto, conforme aponta Machado, na introdução da obra: “a arte literária é sempre sobre pessoas, suas vivências e convivências” (2024, [s.p.]).
Em conformidade com as ideias do autor, observa-se que a obra trata de conflitos internos e externos de evangélicos no cenário social brasileiro em sua pluralidade, sobretudo quanto à grande parte da população negra a qual integra esse contexto sociocultural religioso. A ancestralidade é elemento norteador da força que envolve cada personagem, mas que entra em conflito com uma base cultural cristã de origem europeia, muitas vezes de forma hostil, alheia às origens étnicas negras (Machado apud Nascimento, 2024, p. 85). Ouçamos Machado (2024, [s.p]):
"Assim, a literatura surge a nós não só como espelho, mas também como janela e sedução: janela que nos permite ver os horizontes escondidos pelas paredes dos nossos conceitos, quando estamos trancados em nosso quartinho dogmático, sedução da conversa e do contato íntimo com o outro, seja nas palavras à vista de todos, seja no oculto das entrelinhas e segredos que só quem os vive sabe. Sem o conhecimento pela janela aberta à diversidade infinita e sem o compreendimento pela verdade da sedução que nos desnuda o mais íntimo, pouco resta além de correntes que oprimem corpos, assim como atrofiam mentes e sociedades".
Assim, o autor trabalha a perspectiva de uma literatura negrocentrada, numa abordagem simultânea que se projeta “como espelho, janela e sedução”. Conforme Machado, a literatura é espelho da dinâmica de sociedades e poderá refletir “a lama” que projeta, além de ser consoladora quando transmite “a beleza e o afeto”, no oculto de entrelinhas e segredos, numa extensa malha de contradições identitárias. O livro não ataca a fé, mas sim questiona o uso dela como instrumento de exclusão. Convoca o leitor a um exame interior: antes de julgar, é preciso reconhecer a própria vulnerabilidade.
O escritor produz a sua escrita com linguagem sensível e direta, expondo fragilidades sem sentimentalismos excessivos. Suas personagens não são heroínas e nem vilãs especificamente, mas representações humanas sociais comuns, marcadas pela fé, pelo medo, pela esperança e por contradições. Dentre outros, são temas da obra: hipocrisia e julgamento religioso; culpa e desejo; identidade negra e pertencimento; solidão dentro da comunidade de fé; busca por dignidade e redenção.
Com títulos bastante icônicos, tais como “Pele Sagrada”, “Jerusalém Desolada”, “Todos contra Sara”, “Jesus Negro” e “Vó Benedita”, as narrativas constroem um mapa labiríntico de natureza territorial negrocentrada, no interior de representações de sujeitos negros que emergem das profundezas das ancestralidades autorais, ainda que tratem de ficções.
No título da obra, a “pedra” se apresenta como eixo simbólico, e as narrativas que compõem esse cenário de territorialidades abrem espaço para que se construam imaginários coletivos que relacionem autoria, leitores e as diversas instâncias enunciativas envolvidas na publicação da produção literária com as respectivas ancestralidades.
As personagens de Pedro Machado nos trazem os maiores conflitos humanos, o que transforma o morro carioca em seu próprio Monte Sião, fundindo e confundindo dimensões geográficas sociais, cenas de “geografias afetivas” (termo cunhado por Conceição Evaristo) e imaginação teológica.
Em destaque, há a presença de um o ethos religioso, que delineia o tempo e o espaço pelos quais transitam sujeitos negros evangélicos e/ou ex-evangélicos, cujas experiências são atravessadas por memória, fé, conflitos internos e externos.
Já a partir do início do livro, vozes entoam simultaneamente a dor e a dignidade de permanecer vivo. Josué, Salomão, Jeremias etc. surgem como homens de fé apresentados sem o filtro do exotismo ou do voyeurismo que, historicamente, insistiu em obscurecer (ou mesmo apagar) subjetividades negras, frequentemente levadas a disciplinar a própria alma sob coerção.
Exemplo disso é “Jerusalém Desolada”, em que narrador conta sobre determinada manhã na favela, em que o irmão Jeremias, já idoso, não podia deixar de lembrar de seus quatro filhos e de sua esposa, os quais foram um por um assassinados em operações policiais e guerras do tráfico. A personagem, ao fazer a cotidiana leitura matinal da Bíblia, abriu “coincidentemente” no “Livro das Lamentações”, do Profeta Jeremias, em que o Jeremias do Livro Sagrado também lamenta e chora a Cidade Santa devastada, que passou a conviver com assassinatos, estupros e escombros (Machado, 2024, p. 47). Metaforicamente, a favela do irmão Jeremias é a sua Jerusalém. No decorrer da leitura, o personagem passa por emoções múltiplas e confusas, em que se confundem consolo e tristeza insuperável, fé e descrença, memórias amorosas e de dor.
Um conto que representa tudo que foi exposto até o momento é “Pele Sagrada”, em que a narradora é uma mulher, ex-evangélica, e cria o filho sozinha. Ao narrar a história de suas cinco tatuagens, expõe as opressões que atravessou e as libertações que conquistou, o que a frustrou e o que ainda a faz vibrar de encanto. É o percurso que a moldou, o itinerário que a conduziu a tornar-se quem hoje é.
PELE SAGRADA
I — Prelúdio
[…] meu corpo como um livro sagrado. Acho que não há nada que seja tão sagrado quanto a pele.
Ela é o primeiro limite entre o mundo e o que somos.
É por ela que o mundo nos toca e por ela que tocamos o mundo.
A pele guarda memórias, cicatrizes e desejos.
É nela que a história começa e também onde termina.
Escrevo com o corpo porque não há outra maneira de dizer o que é indizível.
Porque toda palavra nasce do toque.
Porque todo gesto é uma oração silenciosa.
Sei que é preciso coragem para se despir diante do outro.
Mas há histórias que só podem ser contadas assim:
com a pele exposta, com a alma aberta.
Há histórias que são sussurros, outras são gritos.
Todas, porém, pedem abrigo no mesmo lugar:
na superfície sensível que nos reveste.
(p. 18)
Nesse conto, há um claro reconhecimento do corpo negro como território e a sua respectiva construção, não apenas em nível do simbólico, mas também como força construtiva do signficado do que é ser, na prática, um sujeito negrocentrado, em que o corpo se propõe mapa de memórias e, simultaneamente, aponta para direções do porvir. Assim, histórias, orações e expressões da subjetividade partem da mesma origem: do e com o corpo negro para a vida.
Belo Horizonte, março de 2026.
Referência
MACHADO, Pedro Paulo. A primeira pedra: contos. 1. ed. Rio de Janeiro/RJ: Editora Malê, 2024. 158p.
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* Rodrigo Pires é Doutor em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (2024), com pesquisa em Análise do Discurso de vertente francesa e Mestre em Letras pela mesma instituição, na área de Teoria da Literatura. Atua como professor de Literatura, Língua Portuguesa, Produção de Textos e Comunicação Empresarial, além de revisor de textos. É pesquisador do grupo de pesquisa Portal da Literatura Afro-brasileira (UFMG) – literafro. Desenvolve pesquisas em Análise do Discurso, Linguística Textual, Literatura Brasileira e Literatura Afro-brasileira, com foco em alteridade, memória e cultura.