Nossos passos vêm de longe: vozes que ressoam dignidade
Loiany Camile Gomes *
Nossos passos vêm de longe: e outras histórias ancestrais é uma coletânea de cinco textos, ou cinco vozes, de autoras de grande relevância no Brasil. Assinam os textos Conceição Evaristo (membro da Academia Mineira de Letras), Eliana Alves Cruz (ganhadora do Prêmio Jabuti de 2022, categoria conto), Cidinha da Silva (finalista do Prêmio Jabuti de 2019, categoria ensaio), Ana Paula Lisboa (ganhadora do 1° Prêmio Carolina de Jesus, em 2014) e Luciana Nabuco (escritora, artista visual e professora; ilustrou a coletânea em questão e a obra Macabéa: flor de mulungu, de Conceição Evaristo). Publicada em 2025, pela Nova Fronteira, a obra foi organizada pela editora e tradutora Janaína Senna.
O primeiro texto do livro é a crônica “Nossos passos vêm de longe…”, de Conceição Evaristo, o qual intitula a coletânea. A crônica surgiu como resposta a uma fala do ex-ministro Paulo Guedes, proferida em 2020, “sobre a possibilidade de empregadas domésticas irem à Disney quando o dólar estava mais baixo” (Senna, 2025, p. 1). Guedes afirmou:
O câmbio não está nervoso, [o câmbio] mudou. Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada (Sakamoto, 2020).
Evaristo, com a sensibilidade literária que lhe transpassa a existência, responde ao discurso preconceituoso por meio de sua escrevivência, fazendo aquilo que ela chama no texto de “dar o troco”: mostrar ao ex-ministro que do trabalho de cuidar de uma casa, as mulheres negras sabem; porém, sabem de muito mais, como escrever, e saberão mais ainda ao experimentarem o prazer de viajar e de fazer uma bagunça danada.
Em um tom dialogal e intimista, Conceição Evaristo traz à tona a história das mulheres de sua família e conta ao leitor a trajetória das que viveram como empregadas domésticas (quase todas). Já no início do texto, ela pontua o nascimento da mãe, d. Joana Josefina Evaristo Vitorino, em 1922, contrastando-o com a Semana de Arte Moderna, também ocorrida naquele ano. D. Joana, até os sete anos, andava sem roupa, o que se interpreta como uma oposição à modernidade pretendida pelo Brasil e seus modernistas.
Como domésticas, Evaristo, mãe, tias, primas, irmãs e sobrinhas nunca tiveram acesso a “uma festa danada”. Ao contrário, seu relato demonstra humilhações como comer restos do almoço dos patrões ou ser acordada por eles já dentro do quarto em plena madrugada. A menina Conceição, aos oito anos, já trabalhava em casa de família e seguiu trabalhando em diversas funções para se sustentar, como dar aulas particulares, buscar água para os vizinhos, vender verduras etc., sem acesso a farras, viagens ou bagunças.
Apesar de toda essa vivência, Evaristo identifica que [nós] as “serviçais” desse país “construímos as nossas viagens e seguimos, apesar do mau tempo” (p. 31). Para Conceição Evaristo, fica claro, na crônica, que a construção de suas viagens (literais ou figuradas) foi possibilitada pelo contato com as palavras. Por meio delas, elabora sua escrevivência, que se define por:
Escrevivência, em sua concepção inicial, se realiza como um ato de escrita das mulheres negras, como uma ação que pretende borrar, desfazer uma imagem do passado, em que o corpo-voz de mulheres negras escravizadas tinha sua potência de emissão também sob o controle dos escravocratas, homens, mulheres e até crianças. E se ontem nem a voz pertencia às mulheres escravizadas, hoje a letra, a escrita, nos pertencem também. (Duarte; Rosado, 2020 apud Senna, 2025, p. 15).
No poema de Conceição Evaristo “Vozes-mulheres”, presente na obra Poemas da recordação e outros movimentos (2017), essa problemática é exposta, e a ferida transgeracional trazida à tona. Nesse poema, o eu poético, imbuído do espírito narrativo, passa pela vivência da bisavó no navio negreiro; da avó em sua obediência aos brancos; da mãe no fundo de cozinhas alheias; pela sua própria na escrita de versos; e da sua filha, que ecoa todas as vozes ancestrais.
Porém, para além da ferida que atravessa gerações, o que se observa é a possibilidade de mudança, de construção de outras viagens, à revelia do que pretende a branquitude.
A escolha de nomes como dr. Rancorino ou dr. Mísero para exemplificar os patrões com os quais a família de Evaristo topou demonstra a ironia do texto com relação ao que o ex-ministro representa: um rancor e uma miséria não dos negros e negras que resistem, mas da branquitude que insiste em humilhá-los.
Já no conto “Assim se explode um coração”, de Eliana Alves Cruz, a narradora trará à cena o infarto sofrido pela mãe, que conta com menos de 50 anos, bem como a difícil convivência de sua família, negra, com a classe média carioca. Eliana, a filha de 19 anos, inicia a narrativa com o momento do enfarte da mãe, em 1986. E, em um movimento de flashback, conta da mudança para o apartamento onde a mãe faleceu.
A família de Eliana teve a oportunidade de ascender socialmente, pois o pai foi aprovado em um difícil concurso público. Com a aprovação, pai, mãe e duas filhas se mudaram, em 1976, para a Tijuca. As crianças do condomínio tratavam Eliana por “Neguinha”, embora ela insistisse em dizer seu nome. A menina percebe que, naquele ambiente, não havia uma aceitação devido à cor de sua pele. Porém, também compreendia que entre as pessoas da favela não encontrava espaço:
– Na casa de quem sua mãe trabalha?
– Ai, que garoto mais chato, já não te disse que…
Não era o menino do apartamento do lado que perguntava. Era uma das duas meninas que vinham descendo do morro do Salgueiro e me viram ali, uniformizada, na frente daquele edifício […] (p. 43-44)
Eliana entende que sua família não se encaixava em nenhum grupo social, e seu pai afirmava: “Somos estrangeiros. Não nos querem aqui” (p. 53). Além disso, mais do que a percepção sobre a condição estrangeira, a desumanização dos sujeitos negros se concretiza, no texto, de diversas formas, como por meio da violência obstétrica.
A construção narrativa entremeia-se com canções para reforçar temporalidades e sentimentos. A seção inicial do conto, “Primeiro”, por exemplo, é aberta com a citação “Não dá mais pra segurar (Explode coração)”, de música homônima de Gonzaguinha. Na canção, expõe-se a possibilidade do sentir, e o eu lírico assim diz: “eu / Chorando, gostando, sofrendo, adorando, gritando / Feito louca, alucinada e criança”.
Eliana descreve o infarto da mãe como a explosão do coração materno, que espalhou seus fragmentos por todos os lados. Um coração, se for possível assim interpretar, cheio de dor pelo lugar de estrangeira que foi atribuído àquela que o portava, pois
Não pertencer a lugar algum nos faz caminhar a esmo e, sem o mapa do território estranho e minado, é quase impossível não acender a pólvora interna. É isso, é assim que se explode um coração (p. 54).
No conto “Águas de maio”, de Cidinha da Silva, a personagem protagonista é Renata, que vivia “dividida entre a montanha e o mar”. O texto narra sua vida na infância com a família em uma região de montanha, que estava prestes a ser desapropriada para a construção de uma reserva ecológica, e o desejo de escrever um livro de aventura no mar.
A menina e sua família moravam na Vila Real Pombal do Curral Del’Rey, onde, na entrada, havia um pequizeiro comunitário. Os moradores do espaço viviam assombrados pelo medo de a prefeitura demolir todas as casas ou de as águas provocarem deslizamentos no morro. Quanto à demolição, Renata tinha um sonho recorrente com um trator e uma retroescavadeira: o trator passava por cima de tudo, a retroescavadeira ficava parada. Quanto às águas, para Renata, eram um refúgio, pois pensava no mar e nas aventuras sobre as quais poderia escrever. Ela tinha um caderno com diversas anotações e ilustrações; fazia pesquisas na biblioteca estadual para compor o livro, porém este nunca foi escrito, embora já tivesse um título: Aventura em mar aberto.
A família de Renata vivia atenta à movimentação da terra, das rachaduras das casas vizinhas e dos animais. O pai, precavido, conseguira dar entrada em um apartamento em um bairro chamado Palmital (nome que sugeria a Renata que a localidade teria muito palmito). E foi assim, observando os cachorros escavando a terra, que os pais da menina entenderam que uma chuva terrível se avizinhava e providenciaram a mudança.
A preservação da memória também ganha outros contornos no texto, pois estudantes universitários da comunidade decidem montar o Museu Comunitário da Vila Real Pombal do Curral Del’Rey, solicitando aos moradores objetos que trouxessem consigo histórias diversas. Alguns objetos, como uma cama pequena de uma senhora, ganhada da patroa, entraram para o museu como provocação da realidade vivida pelos moradores da Vila, que muitas vezes eram entendidos como depósitos de descarte.
No conto de Cidinha da Silva, está expressa a luta pelo direito ao território. De um lado, um quilombo urbano está ameaçado pelo racismo ambiental, que empurra as pessoas para localidades em pontos de risco, por exemplo, áreas que alagam com chuvas fortes. Por outro lado, a comunidade está à mercê das intervenções desordenadas estatais, que projetam desapropriações descuidadas, que não consideram o presente e o futuro da comunidade, obrigando grupos de vulnerabilidade social a morar em cidades-dormitórios, longe do trabalho e de locais com acesso à saúde, à cultura, à educação etc.
No conto “São Lázaro”, de Ana Paula Lisboa, tem-se o personagem seu Omar, que, diante de uma grave doença, recebe, em sonho, a revelação de sua morte por São Lázaro. O santo abre as portas do céu e leva seu Omar até uma mesa repleta de comidas e bebidas que estavam suspensas desde o início do tratamento. Após o banquete, seu Omar lembrou-se da doença, e São Lázaro chorou junto com ele. Ao acordar, não contou nada para ninguém, embora estivesse muito triste.
É preciso lembrar que São Lázaro é o santo dos enfermos. Amigo de Jesus, foi ressuscitado por Ele após quatro dias de sua morte. As irmãs de Lázaro, diante do adoecimento dele, mandaram uma mensagem a Jesus, e Este respondeu: “Esta enfermidade não é para morte, mas para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela” (João 11:4).
Nos dias seguintes ao sonho, seu Omar viveu como se não estivesse doente, numa despedida de todos. Ele, diferentemente de Lázaro, vive quatro dias de glória. Nesse conto, em que o leitor se vê diante da morte, o que se sobressai é a possibilidade de esse momento de despedida ser suave e reconfortante, como foi para seu Omar, muitas vezes negado à comunidade negra.
No conto “Querência”, de Luciana Nabuco, a personagem que dá título ao texto, relata a morte da mãe, descrevendo o velório e trazendo à tona memórias da infância. A frase inicial “Ajeitou com ternura amarga as mãos da velha no caixão” (p. 85) demonstra o sentimento que será trabalhado ao longo do conto, bem como a relação estabelecida entre mãe e filha. Para Querência, a mãe estava associada a um ressentimento.
Trabalhando junto com sua mãe, Querência não viu a vida passar. Somente ao presenciar a mãe morta, sentiu a vida voltar, pois, na tarde que o ar deixou de existir para a figura materna, voltou para Querência.
Luciana Nabuco, com seu texto, traz à tona o desejo que faz prosperar a existência. Mesmo com o corpo disciplinado pelo alinhavo materno, Querência guarda, em si e no nome, o querer e a vontade de viver como a vizinha que fugiu com o motorista mais novo.
Em Nossos passos vêm de longe: e outras histórias ancestrais, os textos, produzidos por mulheres negras, tratam de temas muito caros à comunidade afro: a relação com o trabalho que perpassa a subserviência imposta pela branquitude; a relação da comunidade negra que ascende socialmente com as classes mais baixas e com as mais altas; o racismo ambiental; o direito à morte humanizada; o direito de desejar, e não viver apenas na escassez de sentimentos. Tais temas se interligam porque esbarram na dignidade que, ainda, é negada ao corpo e à existência negra.
Belo Horizonte, fevereiro de 2025.
Referências
CIDINHA da Silva. Literafro. Disponível em: https://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/186-cidinha-da-silva. Acesso em: 28 fev. 2026.
EVARISTO, Conceição. Vozes-mulheres. Literafro. Disponível em: https://www.letras.ufmg.br/literafro/24-textos-das-autoras/923-conceicao-evaristo-vozes-mulheres. Acesso em: 22 fev. 2026.
INÁCIO, Bruno. Eliana Alves Cruz: ‘a minha literatura se baseia em perguntas’. Disponível em: https://diplomatique.org.br/eliana-alves-cruz-a-minha-literatura-se-baseia-em-perguntas/. Acesso em: 22 fev. 2026.
PENA FILHO, Carlos. Olinda. Nossa poesia. Disponível em: https://www.nossapoesia.com/poema/olinda-carlos-pena-filho/. Acesso em 28 fev. 2026.
QUILOMBO que impediu mineração da Tamisa ocupa terreno aos pés da serra do Curral, em BH. O Tempo. Disponível em: https://www.otempo.com.br/cidades/2024/5/24/quilombo-que-impediu-mineracao-da-tamisa-ocupa-terreno-na-serra-. Acesso em: 28 fev. 2026.
SAKAMOTO, Leonardo. Guedes reclama de viagem de doméstica à Disney e escancara visão de país. Uol. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/02/12/guedes-reclama-de-domestica-na-disney-e-prova-ser-ministro-de-bolsonaro.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em: 22 fev. 2024.
SENNA, Janaína (org.). Nossos passos vêm de longe: e outras histórias ancestrais. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2025.
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* Loiany Camile Gomes é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens do CEFET-MG, mestra em Estudos Literários e graduada em Letras pela UFMG.