“Às vezes o querer é tudo que a gente tem”
Rannyson da Silva Moura*
Você acha justo, minha filha, que eu não tenha provado quase nada da vida? Que eu durma e acorde, há anos, desejando saber como é que se vive de verdade? A vida não pode ser só isso. Não pode. Eu decidi que não pode (Santos, 2025, p. 13)

Em Ensaios de Despedida, Elisama Santos nos convida a sustentar o nosso desejo, apesar do sofrimento.
Em fevereiro de 2025, Elisama Santos lançava o seu novo livro, Ensaios de Despedida, pela Editora Record. A exemplo do que fez em Mesmo Rio (2022), a autora seguiu retratando as complexidades das relações familiares, mas, dessa vez, de forma ainda mais específica: em Ensaios de Despedida, Elisama Santos nos leva a conhecer as ramificações da trajetória de Cristina, uma mulher negra, advogada, mãe, esposa, filha, irmã - uma mulher cansada, privada de sua própria vida, que passa a questionar, por meio de cartas dirigidas à filha, Maria Izabel, onde está o seu direito à felicidade.
A primeira carta do livro é escrita por Cristina em abril de 2002; a última, em março de 2018. Acompanhamos, por mais de uma década, a protagonista sofrer enclausurada em relações que a desgastam e, acima de tudo, não a fazem se sentir feliz. A principal delas é a relação com o seu marido, um homem negro e médico, com quem se relaciona desde a adolescência, que chegou em sua vida de mansinho, com grandes planos e certezas, ocupando a vida de Cristina que, até então, não sabia bem o que queria do futuro. Quando ele chega naquele território vazio, firma suas raízes e se estabelece, sem qualquer tipo de recusa. É apenas depois dos 40 anos que Cristina, ao analisar o relacionamento no qual está envolvida, percebe que em nenhum momento seu próprio desejo foi levado em consideração, tanto por ela mesma quanto pelo marido: “Em nossa primeira conversa, sentados na praça em frente à igreja, ele me disse que seria médico, moraria em uma casa grande e teria uma filha. Não era apenas um sonho, era um plano. Eu não tinha planos, Maria Izabel. Peguei emprestadas algumas das certezas do seu pai, acho que o escolhi para ser meu peso. Sou feita de papel leve, minha filha, sempre quis voar solta por aí” (Santos, 2025, p. 20). Mas Cristina não foi ensinada a ouvir suas vontades, a sustentar o seu desejo, para utilizar os termos que aparecem na obra de Elisama Santos que, além de ser escritora, também é psicanalista. A protagonista carrega em si as expectativas de submissão, cuidado, paciência e forças inesgotáveis. A fraqueza não é algo permitido para mulheres negras, como sugere a narrativa.
Isso se mostra em um momento central da obra, quando Cristina e Maria Izabel são abandonadas pelo marido/pai. Ele decide sumir, sem dar explicações, e não aceita os telefonemas que elas tentam fazer. Em meio ao desespero, tendo que ser uma mãe forte para uma filha desesperada, Cristina inventa uma história, diz que o pai precisou viajar em uma missão humanitária e está impossibilitado de fazer contato com elas. Mais uma tentativa de manter a vida intacta, sem poder, ela mesma, desabar; nos cantos da casa, quando estava sozinha, ou reclusa na casa da irmã, Cristina chorava, xingava o marido, se desesperava. Até que, com o tempo e o silêncio, ela passou a ver na ocasião uma oportunidade para aproveitar a liberdade de que tanto precisava, mas ainda não sabia. Ocupou mais espaços, mudou regras, experimentou novas possibilidades. Flertou com um novo homem, redescobriu sua relação com o corpo do outro e com o próprio, investigou seus desejos e construiu uma nova vida para si; fez do baque um ponto de partida, até que o marido decide, novamente, voltar para casa – porque quer e porque pode.
O retorno dá a ver algo interessante do jogo patriarcal: como somos ensinados, desde muito cedo, os papéis que devemos ocupar e como devemos agir para que não sejamos punidos, como bell hooks trabalha em A vontade de mudar (2025), pensando a partir das expectativas que ela e o seu irmão recebiam enquanto cresciam. No caso de Ensaios de Despedida, o marido de Cristina, cansado da rotina e sem motivação para se levantar, decide deixar tudo para trás, incluindo a esposa e a filha, dando-se um descanso merecido, na concepção dele, para recobrar as forças; Cristina ficou em casa, acolheu a filha, manteve o lar de pé; fez o que dava com a dor e, ainda assim, se viu obrigada a receber o marido de volta, bagunçando o seu espaço e a sua vida: “Quando ele alegou um descontrole sobre o próprio querer, eu quis gargalhar, listar um a um os meus quereres adiados, abortados, frustrados, enterrados pela vida. Quis chamá-lo de fraco. Quis gargalhar dessa virilidade débil que se sustenta sugando as minhas forças” (p. 22). Mas tensionar a lógica do patriarcado envolve punições, como a própria Cristina menciona em suas cartas: dizer não ao marido faria com que sua filha a odiasse e sua mãe a reprovasse, como se isso a tornasse uma mulher ruim, errada.
Essas expectativas existem também em torno do visual, da própria construção idealizada da mulher negra, a exemplo de seus cabelos. Precisam ser longos, lisos e bem tratados para compensar, de certa forma, outros traços racializantes. Demonstrativos dessas amarras estão presentes de forma muito visual, também, em Meridiana (2025), de Eliana Alves Cruz, quando, na cena de abertura do livro, a protagonista, uma menina negra, está sofrendo ao ter os cabelos alisados por sua mãe para ser mais aceita nos espaços que ocupa. Já em Ensaios de Despedida, um momento simbólico ocorre quando Cristina, cansada de tanto adiar sua própria felicidade, resolve ir ao salão e cortar seu cabelo curtinho. Ela se acha linda e, pela primeira vez em muito tempo, livre, dona de si, ainda que reprovada por outras pessoas que questionam o absurdo da sua escolha. Acostumadas a vê-la dentro de uma bolha, fazendo o que é esperado, o momento em que ela escolhe algo para e por si causa um estranhamento nas pessoas que a cercam. É o começo de uma trajetória de mudanças que levam a personagem em direção a si mesma, alguém que ela perdeu ainda na infância, mas luta para reencontrar.
O que Elisama Santos faz, ao longo de Ensaios de Despedida, é causar um incômodo que perdura mesmo após o fim da leitura. Podemos nos perguntar, em alguns momentos: “por que essa mulher não vai embora?” e, logo em seguida, entendemos (ainda que possamos discordar) algumas de suas motivações. Ela foi ensinada a ficar, apesar das dores; aprendeu que era seu papel cuidar, aguentar, manter todos unidos, bem vestidos, alimentados e com as consultas médicas em dia. Nesse processo, a própria protagonista, seus desejos e vontades, não merecem consideração. Mas não precisa ser assim, como a autora nos mostra lindamente. É um momento para ver e contemplar a força da literatura como um espaço possível para questionar representações e possibilitar o espaço da fabulação, em que uma mulher negra pode ser plenamente feliz, sem desconsiderar os obstáculos que se engrandecem ao longo do caminho, mas que não a param.
Belo Horizonte, fevereiro de 2026.
CRUZ, Eliana Alves. Meridiana. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.
HOOKS, bell. A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor. São Paulo: Elefante, 2025.
SANTOS, Elisama. Ensaios de despedida. São Paulo: Record, 2025.
SANTOS, Elisama. Mesmo Rio. São Paulo: Record, 2022.
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* Rannyson da Silva Moura é publicitário (UERN) e mestre em Comunicação Social (UFMG). Atualmente é doutorando em Estudos de Linguagens pelo CEFET-MG com uma pesquisa que busca observar a presença e as estratégias comunicacionais dos influenciadores literários negros no Instagram frente à lógica algorítmica. Atua como Assistente Editorial do Selo PPGCOM, da UFMG, como pesquisador no literafro - Portal da Literatura Afro-Brasileira, e como tutor no Afirmação na Pós, todos na mesma instituição.