Água de maré: a contagem regressiva para o sonho preto
Loiany Camile Gomes*
Água de maré é o primeiro romance de Tatiana Nascimento. Porém, a obra não é a primeira produção literária da escritore, que já publicou contos e poemas e compõe canções. Além disso, Nascimento tem múltiplas facetas, pois canta, publica livros, é slammer e traduz, demonstrando uma densa potência performativa.
Publicado em 2025, pela Pallas Editora, Água de maré é vencedor do Prêmio Pallas de Literatura 2024. O texto aborda a vivência, na cidade de Salvador, das irmãs Antonia e Nereci, da avó dona Tonha e da mãe das meninas, Fátima, que “vai e vem” da vida das filhas, como as ondas do mar. São pessoas negras em uma comunidade simples, revelando a potência de viver.
Os capítulos de Água de maré estruturam-se como uma contagem regressiva, de onze a zero, mas isso não implica uma narrativa em ordem linear e cronológica. Com a temporalidade cíclica, que é própria das cosmogonias africanas, Nascimento costura os tecidos da história para formar uma manta uniforme, suave, poética e densa. A infância das irmãs entrelaça-se à vida adulta; o sonho, à realidade; o sentimento de uma ao da outra. No quarto capítulo, Nereci acorda e ouve um ponto de orixás, o qual ela acompanha cantando; no terceiro, Antonia, na sua casa, acorda e pensa ouvir uma voz como a de Nereci cantando um ponto de orixás.
O romance de Tatiana Nascimento é atravessado por dissidências: afetivas, religiosas, raciais, estético-corporais. Suas personagens recusam-se a cumprir um protocolo de ativistas que precisam denunciar violências e estão unidas pela dor da opressão a corpos negros, femininos e periféricos. Nessa narrativa, elas podem falar, escrever, transar, amar, brigar, ser alegres, odiar, traficar, estudar etc. O rompimento dessas personagens está, justamente, em não seguir a cartilha da dor, mas acuirlombar-se, conforme discussão apresentada adiante.
A ruptura do texto também está na esfera da construção da linguagem. A escolha da expressão oral com a utilização de letras minúsculas em inícios de frases e nomes próprios, exceto quando se refere aos Orixás, por exemplo em “13 de junho, dia de santo antônio – e dia de Exu” (p. 39); ou na carta da avó às netas, ao escrever o nome delas, propõe uma aproximação com o leitor, que vê a literatura despida de pompas e regras, bem como deixa as pessoas (nomeadas por substantivos próprios) perto das coisas (nomeadas por substantivos comuns). O romance também abarca uma confluência de gêneros, como carta, roteiro, depoimento, letras de música para a construção de uma prosa poética permeada por fluxos de consciência e alternância de narradores. Estão presentes também jogos com as palavras, em que “alegria” e “alergia” dividem espaço na vida de dona Tonha, depois que ela colocou telhas de barro em sua casa; em que a palavra “l e z ê r a” ganha espaço entre as letras para demonstrar a vagareza da palavra, ou ainda a criação do termo “marileta”, um híbrido de cachecol e biquíni.
Antonia, mais velha, e Nereci, mais nova, compartilhavam gostos, como a leitura e a escrita. Além disso, ambas têm como vivência afetiva a homossexualidade. Entretanto, as categorizações, no texto de Tatiana, não são simples de realizar, ou, antes, a autora pretende bagunçá-las. Antonia, por exemplo, embora interpretada pela comunidade onde vive como uma mulher lésbica, tem uma experiência que se assemelha a de um homem trans. Seu apelido Atuné é a marca da criança nascida menina, mas “que tinha se prometido varão a gestação toda (a barriga pontuda, a sede de tonia por carne vermelha, os chutes)” (p. 121). Em carta às meninas, a avó expressa: “A benção Nereci. A benção Atuné – sei que Otim te batizou com outro nome, meu filho, porque você sempre se lembra dessa história” (p. 170).
A vivência da homossexualidade é ponto crucial na narrativa de Tatiana. Dona Tonha, embora não concorde com a lesbianidade, aceita que suas netas vivam seus afetos, o que não ocorreu com a mãe das meninas, que, para viver com uma mulher, deixa a casa materna e as filhas aos cuidados da avó. O fio desse modo de amar vem de longe, pois dona Tonha revela que sua irmã Luzia foi para um hospício por ser igual à filha e às netas, uma irmã que ela tanto amou, mas que se perdeu. O forte dessa lógica amorosa é o amor que une mulheres, sejam elas irmãs, mães, filhas, amantes. Embora Fátima, por exemplo, tenha deixado as filhas, Nereci a ama por manter com ela uma cumplicidade no amor por Tainã, revelado ainda quando as meninas eram pequenas.
A figura do homem cis não se sobressai positivamente na narrativa, uma vez que esta é uma proposta de reflexão sobre a sociedade patriarcal na qual a autore e os leitores estão inseridos. O avô das meninas, um cozinheiro da marinha, é uma figura secundária, que aparece como aquele que sabe fazer o bolo de cenoura com calda de chocolate de que a avô gosta, mas morreu antes do nascimento de Nereci. O pai de Antonia abusa sexualmente da filha e tenta o mesmo com Nereci, que deixa implícito as diversas vezes que isso pode ter acontecido. O pai de Nereci não é conhecido. Os homens da balada agatê desrespeitam Antonia, Kindara, Nereci e Taiña, o que ocasiona em uma briga e um dos rapazes é ferido. Caio, o pai do filho de Tainã, a abandona após ser presa. As pessoas que não são homens cis entendem que a defesa de si em diversas instâncias depende delas mesmas. A exemplo disso, há a prisão de Tainã grávida. A moça, inocente, não consegue se defender perante à juíza; seu advogado não se pronuncia diante da autoridade judicial, e Tainã é presa, embora afirme que estava em casa no dia do crime julgado.
A vida de Antonia e Nereci está marcada pelo racismo estrutural, que distancia Antonia da escola, por exemplo, após dois anos de reprovação, e a aproxima do crime e da cadeia, pela morte de uma pessoa. A escola, em sua perspectiva, não ensinava nada útil para sua vida. Tal crítica, quando pensada a partir da pedagogia proposta por Paulo Freire, mostra-se pertinente, uma vez que a escola, segundo Freire deve estar atrelada à vivência do estudante e proporcionar-lhe senso crítico.
Além disso, a condição socioeconômica na qual vivem reflete o racismo que as assola: a casa construída devagar, cômodo por cômodo, com os restos das construções de patrões; o bairro em que o posto de saúde demora a chegar; a morte de um jovem negro a cada 23 minutos no Brasil – e uma delas é assumida por Nereci, para ficar perto da irmã na penitenciária, sem questionamento algum das autoridades responsáveis pela investigação. Como sintetiza o romance: “o racismo é, afinal, uma pedagogia disciplinar profundamente visual” (p. 104).
Porém, é importante frisar que Nascimento não pauta sua escrita pela dor e pela denúncia como elementos que norteiam a palavra. A partir de seu conceito de cuírlombismo (a reunião de pessoas pretes, cuír como meio de proteção e produção em um quilombo social permeado pelas dissidências), ela explicaForjo desde meu lugar afrodiaspórico sexual-dissidente o conceito de cuirlombismo literário. Reagir dor é ainda recontar histórias. Falar da dor nos permite buscar cura (...) sentir a ferida colonial, pensar: como curar esse grande machucado íntimo, coletivo, antigo, renitente? Mesmo que denunciar o racismo heterocissexista seja uma necessidade constante de afirmação de existências negras lgbtqi, temos mais que denúncias a fazer, especialmente pela nossa poesia, que se conecta a um projeto epistêmico negro-sexual-dissidente atravessado por disputas narrativas.
O aspecto religioso também é muito relevante no texto. Embora se demonstre que o número de evangélicos estivesse crescendo na comunidade das personagens Antonia e Nereci, é a cultura dos Orixás que enredará a narrativa de Tatiana, pois é a que está relacionada à ancestralidade das meninas. A avó, dona Tonha, é uma benzendeira, que receita garrafadas, chás etc. e sempre conta às meninas histórias desses Orixás: “ah, toní, sabe também o que a vó contou? que até antes do oceano ser velho ele não era pacífico não. era uma deusa-mãe que ficou brava e chamava por Eruyá” (p. 20-21). A irmã mais velha, Antonia, é nascida no dia de Exu e sua história se cruza com a de Otim, o raio, que nascera com quatro peitos. Otim encontra, depois de fugir de seu palácio, o caçador Odé, que vive com seu companheiro Katendê. A realidade religiosa também é cuírlombista.
O capítulo “dois – a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no brasil” – merece destaque, pois é constituído por 22 páginas completamente negras e uma parcialmente preta, com a frase “a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no brasil” se sobrepondo indiscriminadamente até formar um borrão. A integração entre linguagem literária e gráfica é cuidadosamente elaborada.
Dessa forma, num fluido requebrar de ondas, como o corpo das diversas personagens em seus encontros afetivos, Tatiana Nascimento dá ao leitor água pura, cristalina. Sua água-poesia é envolvente, joga a audiência de um lado para outro na vida de Antonia e Nereci, para que as acompanhe da infância à vida adulta, da adolescência à infância, da vida adulta à infância, sem ordem pré-definida; para que rompa, junto com elas, estigmas, sexualidades estanques, lutas invencíveis, e dedique-se com elas à construção de um cuírlombo, de um sonho preto.
Belo Horizonte, dezembro de 2025.
Referências
ARAÚJO, Alessandro. O movimento das águas. Rascunho. Disponível em: https://rascunho.com.br/ensaios-e-resenhas/o-movimento-das-aguas/. Acesso em: 30 nov. 2025.
GABRIEL, Alice de Barros; SANTOS, Juliely Nóbrega dos. O cuírlombo da palavra: aquilombamento queer na poesia de tatiana nascimento. Em Construção, Rio de Janeiro, n. 9, 2021. p. 37-43. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/emconstrucao/article/view/54295/39146. Acesso em: 30 nov. 2025.
NASCIMENTO, Tatiana. Água de maré. Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2025.
NASCIMENTO, Tatiana. Cuírlombismo literário: poesia negra LGBTQI desorbitando o paradigma da dor. São Paulo: N-1 Edições, 2019. Série Pandemia.
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* Loiany Camile Gomes é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens do CEFET-MG, mestra em Estudos Literários e graduada em Letras pela UFMG.