É mais fácil ir ou voltar?”: mobilidade social e a construção do lar em Meridiana, de Eliana Alves Cruz

Rannyson da Silva Moura*

 

Só cumprir as obrigações da vida não é viver [...] Eu cumpri, mas será que vivi? Se não agora, será quando?

Cruz, 2025, p. 92

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   Lançado pela Companhia das Letras em outubro de 2025, Meridiana, de Eliana Alves Cruz, narra a história de uma família negra que passa por um processo de ascensão econômica ao sair da margem e passar a habitar o centro da cidade. O livro é dividido em diferentes pontos de vista; assim, os personagens contam suas próprias histórias de vida e suas respectivas motivações, permitindo ao leitor compreender as escolhas feitas ao longo da narrativa, mesmo que discorde de algumas delas.

Após um curto prólogo, que nos ajuda a entender a dinâmica da narrativa rapidamente, a obra inicia com o olhar de Ernesto, o pai, nascido na favela Matadouro e que viu no concurso público uma oportunidade de superar os problemas sociais e financeiros já vivenciados por ele. Em seguida, conhecemos Aurora, a mãe, uma mulher que trabalha no mundo da moda ao mesmo tempo em que busca gerenciar sua casa e família, o que a deixa sobrecarregada do início ao fim da história.

Zuleica, amiga de infância do casal, também tem um capítulo para si; nele, o leitor conhece a trajetória da mulher engajada socialmente na favela em que nasceu e cresceu. Zuleica, ao contrário de Ernesto e Aurora, permaneceu e representa o lar humanizado, como referência física e emocional dos personagens. Em seguida, os três filhos do casal são apresentados: César, que desenvolve uma relação conturbada com o pai e o irmão, muito marcada por sua sexualidade, vai embora do Brasil em busca de novas possibilidades; fora do país, percebe que os atravessamentos de gênero, raça, classe e sexualidade estão cravados em seu corpo e cruzar um território não o protege de nenhuma forma; Augusto, que pode ser tomado como o traidor da família em um primeiro momento, aprendeu desde cedo que estar cercado por corpos hegemônicos – homens brancos ricos, principalmente – pode trazer grandes privilégios. Após décadas inserido nesse meio, distante da família e de si mesmo, acompanhamos, neste capítulo, um processo de auto entendimento que é potencializado pelo retorno ao lar, representado por um reencontro de Augusto com o seu pai, Ernesto, na antiga casa da família, na favela Matadouro. Por fim, conhecemos Meridiana, que também dá nome ao livro, uma menina que absorveu, desde criança, a responsabilidade de mediar conflitos e resolver os problemas de toda a sua família. Até mesmo em seu próprio capítulo, Meridiana conta a história de sua sobrinha, Nandi, a partir de um episódio de racismo que ela vivencia na escola. A partir disso, a personagem busca formas de confrontar os responsáveis por aquela violência física e simbólica: Augusto e Priscila, os pais de Nandi; a equipe de coordenação da escola, que não fez nada para proteger a menina; e os alunos que a violentaram diretamente.

Esse sentimento de cuidado e proteção, sentidos atribuídos historicamente às mulheres negras, perpassa as personagens femininas de forma crítica. Meridiana aparece, ao longo dos capítulos, cuidando do pai, ao tentar administrar os seus remédios conforme ele envelhece; cuidando da mãe, quando Aurora começa a demonstrar sinais de perda de memória; cuidando de César, quando ele sofre com um episódio de homofobia e tenta fugir de casa; cuidando de Augusto, quando ele se casa com uma mulher branca, ainda que o irmão, de forma explícita, negue qualquer ato de preocupação. Mas é importante destacar que o comportamento de Meridiana não é posto de forma naturalizada. Em alguns momentos, a personagem questiona esse sistema e reforça o seu cansaço ao ver que todo o esforço precisa partir dela, principalmente em relação ao cuidado com os pais e tarefas domésticas, enquanto os irmãos conseguem viver suas individualidades, tendo tempo para si e suas próprias famílias. Aurora, em certo momento, é induzida por Ernesto a largar o seu emprego para poder cuidar da casa e das necessidades familiares; ela recusa, aceitando ficar sobrecarregada com o acúmulo de funções pelo benefício de ter algo para si mesma e não viver em função das necessidades dos outros.

Além disso, é válido pensar o enredo do livro a partir da ideia de mobilidade, conceito enfatizado pela própria Eliana Alves Cruz nas entrevistas em suas redes sociais. Alguns autores internacionais, como Édouard Louis e Annie Ernaux, ganharam destaque no Brasil por falarem sobre esse processo no contexto francês: o sentimento de desconexão com o lugar de onde você veio a partir do momento em que se vive uma condição financeira – também social e política – diferente daqueles que ficaram. No entanto, em Meridiana, isso é pensado de forma interna, partindo de diferentes olhares que exemplificam o ponto de vista brasileiro sobre a mobilidade econômica. O próprio nome da protagonista, conforme dito no livro, é pensado como a representação do entrelugar: o meridiano divide o todo em dois polos; ou estamos de um lado ou do outro. Mas e o meridiano em si, enquanto lugar habitável, quais são as condições de estar entre e nunca em?

No romance, entendemos que ter acesso não significa estar incluído. Pelo contrário, habitar espaços que historicamente nos são negados causa um desconforto na branquitude, acionando o pacto narcísico da branquitude, conforme trabalhado por Cida Bento (2022, p. 18): é como se “o ‘diferente’ ameaçasse o ‘normal’, o ‘universal’”; a mobilidade evidencia que algo na ordem está mudando – nesse caso, sujeitos marginalizados chegam ao centro social e econômico, tornando-se alvo de violências que os rejeitam como parte daquele sistema. Ernesto, apesar de ser aprovado em um concurso para trabalhar em um banco, é violentado, mesmo com a ideia de meritocracia em vigor; Meridiana, César e Augusto que, além de estudarem em uma escola particular, ainda fazem atividades extracurriculares diversas, acessando espaços que seus pais não alcançaram, e são marcados como diferentes, como órgãos estranhos ao corpo social. A ascensão financeira é vista, principalmente por Ernesto e Aurora, como uma possibilidade de se blindar: deixar a favela para morar em um bom condomínio é apresentado como uma solução; abandonar o passado, de dor, rumo a um futuro de esperança e acessos. Nas palavras de Ernesto: “[...] decidi que era a minha hora de tentar me livrar do temor da precariedade. Como devia ser não viver o tempo todo precavido com o amanhã?” (Cruz, 2025, p. 45).

No vídeo publicado pela Companhia das Letras no Instagram, Eliana Alves Cruz reforça que, apesar das perguntas levantadas em Meridiana, o livro não busca fornecer nenhuma resposta final. É possível que o percurso trabalhado até então desperte um sentimento de desesperança, como se as possibilidades para os sujeitos negros resultassem sempre na violência, seja na margem ou no centro. No entanto, acredito que seja possível direcionar o olhar para as brechas apontadas na obra e os lampejos de esperança proporcionados pela família de Meridiana. Por meio das relações trabalhadas, a autora nos leva a refletir sobre a necessidade de termos um lar; seja no sentido físico, de uma casa que nos acolha, mas também afetivo, de pessoas que estão dispostas a ouvir, incentivar e repreender, quando necessário.

O capítulo de Augusto, por exemplo, é pautado na solidão que ele sente quando, após se divorciar de Priscila, não sabe para onde ir ou a quem recorrer. Sua vida, desde a infância, foi pautada em se relacionar estrategicamente com a família de Priscila para ter acesso a espaços que lhe seriam negados, caso estivesse sem uma validação de um grupo branco. Nesse cenário, ao se perceber sem rumo, Augusto decide voltar para sua antiga casa, na favela Matadouro, onde seu pai havia voltado a morar sozinho. Ambos fazem esse retorno com a intenção de se reconectar com uma parte perdida há muito tempo. Essa reflexão, inclusive, é retratada logo no início do livro por meio de um diálogo entre Meridiana e Ernesto (Cruz, 2025, p. 5): “Pai, é mais fácil ir ou voltar? Depende. É fácil voltar quando você precisa muito do que ficou para trás”.

O diálogo, que abre a história de Meridiana e sua família, é retomado por ela no fim do livro, no epílogo, quando a personagem volta à favela Matadouro com a intenção de reencontrar Eunice, uma amiga de infância, cuja proximidade se perdeu com o distanciamento físico, quando ela mudou de casa, mas também devido aos diferentes lugares sociais que passaram a ocupar. Meridiana retorna à sua terra natal com vergonha e arrependimento, mas reencontrar Eunice faz com que ela finalmente comece a cuidar de si mesma, deixando gradualmente de viver apenas em função dos outros.

Na esfera da representação, por meio de tensionamentos e rasuras nos imaginários de raça, gênero, sexualidade e classe, Eliana Alves Cruz constrói uma narrativa que não se esquiva de abordar os temas que permaneceram por muito tempo em silêncio, o que foi conveniente para grupos hegemônicos se manterem em seus lugares estabelecidos. Dessa forma, nomear a norma, “fazer falar o silêncio” (Bento, 2022, p. 24) e revelar segredos propositalmente ocultos ao longo do tempo – “segredos como a escravização. Segredos como o colonialismo. Segredos como o racismo” (Kilomba, 2019, p. 41) – é uma estratégia de tornar visível um inimigo que foi oportunamente ocultado das práticas sociais. A partir do momento em que ele é evidenciado e nomeado, é possível direcionar contra-ataques mais efetivos e a literatura de Eliana Alves Cruz, por meio de Meridiana e sua família, é fundamental para este enfrentamento.

 

Belo Horizonte, dezembro de 2025.

 

REFERÊNCIAS

BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

CRUZ, Eliana Alves. Meridiana. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

 

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Rannyson da Silva Moura é publicitário (UERN) e mestre em Comunicação Social (UFMG). Atualmente é doutorando em Estudos de Linguagens pelo CEFET-MG com uma pesquisa que busca observar a presença e as estratégias comunicacionais dos influenciadores literários negros no Instagram frente à lógica algorítimica. Atua como Assistente Editorial do Selo PPGCOM, da UFMG, como pesquisador no literafro - Portal da Literatura Afro-Brasileira, e como tutor no Afirmação na Pós, todos na mesma instituição.

 

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