Revista Niger (2025): memória viva e viagem no tempo

Kelvin Jorge Batista Silva*

 

Em 1960, houve um marco para a Imprensa Negra Brasileira, cujo objetivo era estar a serviço da coletividade de seu povo: a publicação da revista Niger. Em 2025, essa revista, que teve quatro edições, foi republicada integralmente em uma edição fac-similar pela Ciclo Contínuo Editorial. Além do resgate memorial realizado pela editora, a edição conta com dois textos introdutórios: um do professor Mário Augusto Medeiros da Silva e outro do escritor Oswaldo de Camargo, que se apresentam com o intuito de criar certa ambientação e contextualização da época da criação da revista e do processo que culminou em sua primeira publicação.

Antes de mais nada, é importante ressaltar a relevância dessa republicação pela editora. Essa edição representa a memória e a luta do povo negro, que sofre constantes tentativas de apagamento por parte da sociedade colonial. A republicação não seria possível se não fosse o guardião da memória, Oswaldo de Camargo, que emprestou suas edições da revista para que a editora pudesse reproduzi-las e, assim, eternizar um marco importante da história da imprensa negra brasileira.

Jorge Augusto (2024) afirma, em seu livro Modernismo Negro: Uma leitura de Lima Barreto, que a memória constitui uma forma de sociabilidade do negro na história. É dessa forma que esta reedição da Niger surge: como um ato de eternizar e trazer para outras gerações debates que ainda permanecem constantes na realidade negra brasileira. Apesar de já terem se passado cerca de 66 anos desde a publicação do primeiro número dessa revista, muitos dos discursos e debates levantados pela revista continuam atuais, o que demonstra que ainda há muito a se lutar pelos direitos da população negra.

Para apresentar um breve contexto do surgimento da Niger — que pode ser conferido com maior profundidade nos textos introdutórios da edição —, destaca-se que foi a partir da Associação Cultural do Negro (ACN), criada em 1954 por José Correia Leite (1900–1989) e outros militantes negros de São Paulo, que a revista se tornou possível. A ACN foi responsável pela criação de diversos projetos voltados à luta antirracista e à valorização da cultura negra, por meio da publicação de jornais, como O Mutirão, e da promoção de eventos literários, culturais e políticos. Em 1960, José Correia Leite, responsável e principal idealizador da revista, ao observar o apagamento e a exclusão cultural e social da população negra no período pós-República, cria a revista Niger como um ato de resistência, ao inscrever, por meio da imprensa, a diversidade e a contribuição das pessoas negras na sociedade daquele período.

José Correia Leite (Fonte: Google imagens)

José Correia Leite (Fonte: Google imagens)

 

Ler a reedição da revista de 1960, hoje, é como viajar no tempo, mergulhar nas águas de um rio ancestral, encontrar-se com a história e sentir-se parte de um momento de intensa movimentação artística, política e cultural. Diversidade é a palavra que melhor define a revista, que trazia em suas páginas seções dedicadas aos mais diversos âmbitos, como eventos, esporte, literatura, sociedade, mundo negro, cinema, cultura, teatro, recreação e política. Pode-se afirmar que a Niger possuía um modelo editorial que conferia visibilidade à contribuição e ao fortalecimento dos negros nos diversos níveis da sociedade. Entidades históricas tiveram passagem por suas edições, como Carolina Maria de Jesus, o Teatro Experimental do Negro de São Paulo (TENSP), Oswaldo de Camargo, Jayme Aguiar, entre muitas outras personalidades.

A ACN, com suas publicações, realizava o que o professor e pesquisador Luiz Henrique Silva de Oliveira (2018) define como “quilombos editoriais”, isto é:

(...) um conjunto de iniciativas no campo editorial comprometidas com a difusão de temas especificamente ligados ao universo afrodescendente, com claro propósito de alteração das configurações do imaginário social hegemônico (p. 157).

Sendo assim, a Ciclo Contínuo Editorial, ao se dedicar à “publicação de obras literárias e pesquisas na área das Humanidades, com enfoque especial na produção cultural afro-brasileira”**, reforça a ideia do quilombo editorial e sua importância na história e na produção de conhecimento oriundo da população negra no Brasil. Republicar as quatro edições da revista Niger na íntegra demonstra, reafirma e enfatiza a importância da memória e de sua preservação em contraposição ao apagamento colonial. Valorizar os saberes negros e suas produções é manter viva a história e empoderar as próximas gerações. Como Augusto (2024) discorre:

A memória para as culturas negras desponta como possibilidade enunciativa restauradora para a população negra. Ela tanto ressignifica o território, emprestando-lhe um sentido simbólico de reconexão com a territorialidade primeira, como também possibilita uma reconexão com a cultura negra na afro-diáspora, convertido em repertório de produção subjetiva e matriz de revitalização ontológica. Disponível em: https://www.letras.ufmg.br/literafro/editoras/1375-ciclo-continuo-editorial. Acesso em: 22 de fevereiro de 2026 (p. 335).

Dessa forma, a edição fac-similar da revista Niger surge com uma potência restauradora para a luta antirracista atual, na medida em que abre caminhos para que o indivíduo conheça sua própria história, além de apresentar um caráter humanizador do sujeito negro ao retratá-lo em diversos âmbitos sociais. Na revista, a luta contra o racismo não era o único foco: apresentar o negro como sujeito que pratica esportes, que produz literatura, teatro, cinema e conhecimento, exaltando sua beleza e reivindicando direitos trabalhistas, é uma forma de driblar a visão estigmatizada e racista atribuída ao negro na sociedade. Indica-se, portanto, que o leitor ou a leitora mergulhe nas águas do passado por meio da revista e que, assim como o símbolo sankofa — representado por um pássaro com a cabeça voltada para trás —, volte, recolha o passado e o ressignifique no presente, a fim de construir um futuro melhor para si e para as próximas gerações.

Santa Luzia, fevereiro de 2026.

 

Referências

AUGUSTO, Jorge. Modernismo Negro: Uma leitura de Lima Barreto. Salvador: Editora Segundo Selo, 2024.

 

OLIVEIRA, Luiz Henrique Silva de. Os quilombos editoriais como iniciativas independentes. Aletria: Revista de Estudos de Literatura, v. 28, n. 4, p. 155-170, 2018.

 

VENTURA, Marciano (org.). Niger: publicação a serviço da coletividade negra - edição fac-similar. São Paulo: Ciclo Contínuo Editorial, 2025. 102 p.

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* Kelvin Jorge Batista Silva é graduado em Biomedicina pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), graduado no bacharelado em Inglês pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Mestre em Estudos Literários, Área Literatura Brasileira pelo Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários da Faculdade de Letras (Fale) da UFMG. Atualmente é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura no Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como pesquisador no Literafro - Portal da Literatura Afro-Brasileira disponível no endereço http://www.letras.ufmg.br/literafro/.

**Disponível em: https://www.letras.ufmg.br/literafro/editoras/1375-ciclo-continuo-editorial. Acesso em: 22 de fevereiro de 2026.

 

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