Publica, preta! manual de publicação independente

Luiz Henrique Oliveira*

 

 As regras da arte, obra publicada por Pierre Bourdieu no ano 1992, na França e com tradução no Brasil em 1996, descreve o campo literário como um espaço de luta permanente entre os estabelecidos (aqueles que detêm o monopólio da legitimação e do capital simbólico) e os recém-chegados (aqueles que buscam ingressar no campo e modificar suas regras de funcionamento). O campo é justamente pautado pela tensão entre essas duas posições. Os primeiros trabalham pela conservação das regras, enquanto os segundos desejam a alteração do estado de coisas e, logo, suscitam redistribuição de capitais (e de legitimação) de autores e obras.

Por outro lado, a posição do autor e, sobretudo, da autora negra no campo literário brasileiro, de modo geral, ainda está longe do devido reconhecimento. Trabalhos como Literatura brasileira contemporânea: um território contestado, de Regina Dalcastagnè (2012), ou mesmo Trajetórias editoriais da literatura de autoria negra brasileira (2022), de Luiz Henrique Oliveira e Fabiane Cristine Rodrigues, atestam não apenas a estereotipia que pauta a representação de personagens de pele negra em nossas letras, mas sobretudo as inúmeras dificuldades de inserção e permanência de pessoas negras na literatura. Grandes editoras tendem a apostar em modelos já consagrados de produção escrita (Medeiros, 2009) e, logo, cabe às casas de publicação “menores” assumir o risco de apostar em “novas” estéticas e em “novos” autores”. Aqui, entendemos “novos” como Bourdieu entende os recém-chegados, ou seja, aqueles que inserem suas vozes numa nota muitas vezes perturbadora ao establishment. 

Atentas aos dilemas e ciladas do campo literário brasileiro, historicamente hostil a pessoas não brancas, Débora Garcia da Silva e Elizandra Batista de Souza lançaram Publica, preta! manual de publicação independente. O livro materializa (e, em certa medida, atualiza) a tensão discutida por Pierre Bourdieu ao oferecer um instrumental técnico e político para que pessoas (em especial, negras e sobretudo mulheres) historicamente posicionadas como estrangeiras no campo literário brasileiro, ocupem o espaço de produção, ainda que de forma autônoma. Mas que o façam cientes de processos de composição, materialização, distribuição e interpretação das regras de um campo já bastante demarcado. Ambas as autoras, é necessário dizer, possuem lugar de fala legitimado para encaminhar a discussão sobre o ato de publicar e distribuir obras de modo independente do amparo de editoras. Nem sempre as editoras, que prefiro chamar “quilombos editoriais” (Oliveira, 2018) conseguem abarcar a vastidão e diversidade da produção intelectual (especialmente literária) de pessoas de pele negra. Cabe à auto publicação o papel de dar vida, voz e vazão a livros de autores e autoras, em especial em suas primeiras obras. 

Débora Garcia é poeta, cantora, atriz, gestora cultural e assistente social formada pela UNESP. Trabalhou durante oito anos no CRAS – Centro de Referência de Assistência Social, em Suzano. Hoje, continua no serviço social, mas atua no sistema judiciário atendendo mulheres vítimas de violênciaEm sua atividade profissional insere a literatura para fomentar a empatia e o diálogo com as pessoas. A autora publicou de forma independente o livro de poemas Coroações (2014). Ela também participou de várias antologias, incluindo os Cadernos Negros. A escritora participa de saraus desde 2008 e é uma das idealizadoras do “Sarau das Pretas”, no qual dança, literatura e música se complementam em suas performances. 

Já Elizandra Souza criou o Mjiba, fanzine de poesia, que circulou entre 2001 e 2005. A autora começou a frequentar os Saraus da Cooperifa em 2004. Posteriormente, participou do jornal experimental Becos e Vielas com o objetivo de dar voz e visibilidade à cultura periférica. No ano de 2006, ingressou no curso de jornalismo e, a partir deste momento, recebeu convite da organização Ação Educativa para escrever a Agenda Cultural da Periferia. A poetisa é autora do livro Águas da cabaça, totalmente produzido, editado e publicado por jovens mulheres negras, lançado em outubro de 2012. É também coautora do livro de poesias Punga, com Akins Kintê(2007), e tem participação em revistas e antologias literárias, como Literatura Marginal – Ato 3, Cadernos Negros, Negrafias, entre outras. 

O manual Publica, preta! surge, pois, não apenas como um guia de instruções, mas sim uma ferramenta de emancipação política e estética. Em um mercado editorial majoritariamente branco, masculino e concentrado no eixo acadêmico-comercial, as autoras propõem uma ruptura: a apropriação dos meios de produção por mulheres negras. O diferencial desta obra reside em sua fundamentação na experiência empírica das autoras. Silva e Souza transcendem a mera abstração teórica ao converterem as trajetórias individuais e a atuação coletiva, a exemplo da presença conjunta no Sarau das Pretas, em um repertório metodológico sólido. A obra discute a autogestão editorial, articulando a publicação independente como um mecanismo de salvaguarda da autonomia discursiva da mulher negra. A qualidade estética do projeto gráfico, aliás, adianta o rigor técnico preconizado pelas autoras, estabelecendo uma coerência entre o discurso e a materialidade do livro. 

Nesse sentido, arrisco dizer que a publicação emerge como uma estratégia de resistência à hegemonia editorial das grandes editoras, evitando que a subjetividade das autoras seja submetida a processos de mediação ou silenciamento por instâncias que desconhecem (ou não querem conhecer) suas especificidades socioculturais. A obra materializa, portanto, a “escrevivência” (cf. Evaristo, 2007), ao conferir ao ato de editar uma relevância praticamente equivalente ao ato de redigir. Afinal, não existe literatura sem suporte. E pouco há legitimação no campo literário sem livro, sem produção editorial. 

Com uma linguagem direta, acolhedora e despida de academicismos desnecessários, a obra se organiza como um passo-a-passo prático para quem deseja tirar o manuscrito da gaveta. Ao longo de suas 103 páginas, as autoras desmistificam processos que, muitas vezes, parecem inacessíveis ao escritor iniciante. O livro está dividido em cinco capítulos. Os dois iniciais voltam-se a discussões mais de ordem política e exterior ao livro; os demais mergulham na produção editorial propriamente dita, sem se descuidar dos debates envolvendo o fomento. 

No capítulo 1, intitulado “Vamos falar um pouco da nossa história?”, as autoras destacam autoras basilares ao que poderíamos chamar de tradição literária negra brasileira. Não menos importante, são listados coletivos ligados direta ou indiretamente à produção editorial negra. Movimento Negro Unificado, Cadernos Negros, Saraus Periféricos, Antologias, todos estes movimentos atualizam o sentido quilombola de resistência. 

Feita a contextualização acerca do passado, o capítulo 2, “Qual a importância de mulheres pretas publicarem livros de forma independente?”, discute, a partir de um olhar centrado nos feminismos negro, as idiossincrasias do campo editorial brasileiro. Representatividade é uma palavra-chave nesta seção, porque, a rigor, ao integrar o universo do livro, a escritora negra assume compromisso com a honra das que vieram antes e com as que estão por vir. Trata-se de um capítulo que situa a responsabilidade e a urgência do que é ser escritora de pele escura num país estruturalmente racista, como o Brasil. 

O capítulo 3, nomeado “O que é o livro impresso e a sua estrutura?” traz debate amplo sobre a materialidade do objeto livro e seu processo de produção. Nestas páginas, são estudados elementos fundamentais da transformação de um texto em objeto de consumo. Autores recém-chegados e mesmo estabelecidos podem encontrar aqui informações valiosas sobre fornecedores, profissionais e etapas do processo produtivo autogerido. 

O capítulo 4, “O que é um processo editorial?” desloca o olhar do objeto para a produção, entretanto a partir do olhar de quem produz: o editor. Contudo, o texto não se limita a trazer lista de dicas, mas dialoga com experiências práticas das autoras, as quais compartilham o conhecimento vasto da cadeia do livro. 

No capítulo 5, aí, sim, encontramos as “Dicas pretas para publicar seu livro de forma independente”. Desta vez, o tom é de incentivo àquelas que pretendem acessar ou se estabelecer no campo literário brasileiro. Como a tendência do mercado para os autores “novos” é a autopublicação, o manual pode ajudar os autores a não cometerem erros típicos de quem se lança na escrita e na publicação. 

Dito tudo isso, ainda que considerando a brevidade do volume, percebe-se a riqueza de informações e a ampla sistematização de saberes práticos, os quais funcionam como indiscutível conjunto de subsídios para a democratização do fazer literário, em especial de autoria negra brasileira. Um aspecto poderia ter sido mais amplamente explorado: a viabilidade financeira de projetos editoriais e mecanismos de captação de recursos — tais o fomento público (editais) e os modelos de financiamento coletivo (crowdfunding). Porém, é preciso reconhecer que não há obra semelhante no campo intelectual brasileiro. Logo, Publica, preta! E, sem dúvidas, vanguarda em produção editorial independente. Trata-se de uma contribuição essencial para os estudos sobre a bibliodiversidade e a produção literária de autoria negra – em especial feminina. A obra reafirma o livro como um campo de disputa simbólica e um instrumento de legitimação de existências historicamente marginalizadas.

Belo Horizonte, março de 2026.

Referências 

BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. São Paulo: Companhia das Letras, [1992] 1996. 

DALCASTAGNÉ, Regina. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. Vinhedo: Horizonte, 2012. 

EVARISTO, conceição. Da grafia-desenho de minha mãe, um dos lugares de nascimento de minha escrita. In: ALEXANDRE, Marcos Antônio (Org.). Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces. Belo Horizonte: Mazza, 2007. 

GARCIA, Débora. Literafro – Portal da Literatura Afro-Brasileira. Disponível em: https://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/1344-debora-garcia. Acesso em: 22 fev. 2026. 

MEDEIROS, Nuno. “Acções prescritivas e estratégicas: a edição como espaço social”. Revista Crítica de Ciências Sociais [Online], 85, 2009. Disponível em http://journals.openedition.org/rccs/363; DOI: 10.4000/rccs.363. 

OLIVEIRA, Luiz Henrique Silva de. Os quilombos editoriais como iniciativas independentes. In: Aletria, Belo Horizonte, v. 28, n. 4, p. 155-170, 2018. Disponível em: http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/aletria/article/view/14367. Acesso em: 07 fev. 2026. 

OLIVEIRA, Luiz Henrique; RODRIGUES, Fabiane Cristiane. Trajetórias editoriais da literatura de autoria negra brasileira. Rio de Janeiro: Malê, 2022.

https://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/1344-debora-garcia, acesso em 22. fev. 2026. 

SOUZA, Elizandra. Literafro – Portal da Literatura Afro-Brasileira. Disponível em: https://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/1054-elizandra-souza. Acesso em: 22 fev. 2026.

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* Luiz Henrique Silva de Oliveira é doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela UFMG (2013), onde também realizou pós-doutorado em Estudos Literários e concluiu o mestrado (2007) na mesma área. Graduado em Letras – Língua Portuguesa pela UFMG (2004), atuou na Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, onde foi diretor da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil (2011–2012). Atualmente é professor do CEFET-MG, atuando no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens e na Graduação em Letras (Tecnologias da Edição). Coordena o Grupo Interdisciplinar de Estudos do Campo Editorial (GIECE) e integra o NEIA/UFMG e o Comitê Gestor do Portal Literafro. É autor de Poéticas negras (2010) e Negrismo (2014). Desenvolve pesquisas nas áreas de literatura (afro)brasileira, negrismo, edição, história e memória cultural.

 

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