Escravidão, resistência e gênero:

perspectivas historiográficas em Régia Agostinho

sobre Maria Firmina dos Reis

 

Melissa Rosa Teixeira Mendes

 

 Ler o novo livro de Régia Agostinho é atravessar, guiados por uma historiadora que conhece a casa por dentro, o terreno em que se erguem a obra e a vida de Maria Firmina dos Reis. Não é um “título de ocasião”: a obra resulta do amadurecimento de uma trajetória de pesquisa que vem pelo menos desde o doutorado na USP (defendido em 2013), agora retrabalhado e atualizado, e se soma a artigos que, há anos, recolocam Maria Firmina no centro dos debates sobre autoria feminina, escravidão e cultura letrada no Brasil oitocentista.

O fio condutor do livro é claro: mostrar como Maria Firmina construiu, em sua escrita, um olhar próprio para a escravidão e para a condição das mulheres, articulando literatura, experiência social e intervenção pública. Agostinho lê Úrsula (1859), “Gupeva” (1861) e o conto “A escrava” (1887) como peças de um mesmo gesto intelectual – de crítica do cativeiro e de afirmação de uma voz feminina negra – e os insere numa paisagem de debates e disputas do Maranhão e do Império. A aposta metodológica, herdada da tese, é tratar os textos literários como fontes históricas em diálogo com documentação coeva, para recuperar a “atmosfera cultural” que molda e a autora.

O livro combina biografia intelectual e análise textual. Quando acompanha a jovem professora régia de Guimarães que publica Úrsula, a autora destaca o ineditismo de firmar, num romance brasileiro do período, a humanidade dos cativos e a centralidade das personagens escravizadas – movimento que a própria Régia Agostinho já vinha sublinhando em artigos anteriores. Ao tratar de “Gupeva”, enfatiza as camadas de alteridade e de violência colonial; e, em “A escrava”, o modo como Maria Firmina tensiona a memória da escravidão às vésperas da Abolição, aproximando literatura e esfera pública.

Essa construção analítica se organiza em seis capítulos. A introdução, que já funciona como um primeiro capítulo, recompõe o Maranhão nos tempos de Maria Firmina, situando economia, população e especialmente a condição das mulheres no século XIX. O segundo capítulo, “Escravidão e resistência no Maranhão: anúncios e fugas de escravizados”, mergulha em periódicos do período para mostrar tanto os mecanismos de controle como as brechas de resistência aberta: fugas, anúncios, estratégias de autonomia. O terceiro, “Falas sobre abolição no Maranhão no tempo de Maria Firmina dos Reis”, examina os embates públicos, entre falas antiescravistas, réplicas e tréplicas, tal como aparecem nos jornais maranhenses, revelando o calor do debate sobre o abolicionismo.

No quarto capítulo, “Maria Firmina dos Reis: uma vida em construção”, o foco recai sobre a disputa memorial da imagem de Maria Firmina como memória em bronze, memória em construção e luta de memórias, mostrando como a autora foi lembrada, silenciada e reinscrita ao longo do tempo. O quinto capítulo, “Representações de mulheres em Maria Firmina dos Reis”, analisa as diferentes faces da experiência feminina em sua obra: a mulher escrava de si, as mães, a figura de Adelaide como sobrevivente e a indígena como metáfora de nação. Por fim, o sexto capítulo, “Úrsula e ‘A escrava’: textos antiescravistas e abolicionistas”, apresenta uma leitura detalhada das personagens escravizadas (Túlio, Suzana, Antero e Joana), mostrando como Maria Firmina construiu um painel literário que tensiona a escravidão a partir de dentro, dotando seus personagens de humanidade e agência.

Duas contribuições me parecem decisivas: a primeira é recolocar Maria Firmina como intelectual insurgente, não só como “a primeira romancista negra”. Agostinho demonstra que a autora maranhense foi produtora de saber sobre o Brasil, capaz de elaborar uma interpretação crítica do país desde a periferia do Império e a partir de marcadores de raça e gênero. Essa ênfase aparece já na apresentação editorial do livro, que propõe um “mergulho” na vida e no tempo de Maria Firmina e insiste na relação entre sua experiência social e sua escrita.

A segunda é afinar o ouvido para as mediações, ao articular literatura e imprensa, a autora abre um caminho de leitura que evita tanto o “presentismo” moralizante quanto o formalismo cego. O uso de jornais maranhenses oitocentistas como pano de fundo confere densidade ao recorte e ajuda a calibrar as condições de recepção das obras.

Um aspecto notável do livro é o modo como Régia Agostinho articula rigor analítico e sensibilidade interpretativa. A autora reconhece a potência intelectual de Maria Firmina sem incorrer em idealizações, sustentando uma postura que combina proximidade com distanciamento crítico. Essa voz própria se ancora em sua trajetória como pesquisadora e docente de História na Universidade Federal do Maranhão, o que confere densidade às análises e permite captar nuances da experiência social da escritora maranhense.

A obra conversa com três frentes: a historiografia da escravidão (com foco regional no Maranhão), os estudos de gênero e autoria feminina do século XIX e a crítica literária dedicada à escrita de mulheres. Textos anteriores da própria Régia já testavam chaves interpretativas que o livro consolida, mostrando uma pesquisadora que não chega de paraquedas: ela vem burilando essas perguntas há mais de uma década.

Régia Agostinho nos apresenta uma Maria Firmina intelectual e cidadã, não ícone congelado. O livro tem densidade histórica, senso de contexto e leitura atenta das obras, e ao mesmo tempo preserva um laço de proximidade com sua personagem – laço que a autora explicita sem ingenuidade, como quem sabe que toda boa história é também uma aposta ética. Para quem quer pensar o Brasil oitocentista a partir de suas bordas e contracorrentes, esta é uma leitura incontornável.

São Luís, dezembro de 2025.

 

 

Referência

AGOSTINHO, Régia. Maria Firmina dos Reis: mulheres e poder no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Malê, 2025. 276 p.

 

Melissa Rosa Teixeira Mendes possui graduação em História pela Universidade Federal do Maranhão (2010), mestrado em História pela Universidade Federal do Maranhão (2013) e doutorado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Maranhão (2023). Atualmente é pesquisadora - Laboratório de estudos sobre elites políticas e culturais. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Império, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura, gênero, história, maranhão oitocentista e ficção.

 

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