Coração sem medo:

uma história sobre identidade, dor e resistência

Túlio Romualdo Magalhães

Vitória Maria Coelho Viana

 

Marcado por um forte conflito humano, em que a busca incansável por um filho desaparecido se faz presente em todo o enredo, Coração sem Medo (2025) — romance que finaliza a Trilogia da Terra ao lado de Torto Arado (2019) e Salvar o fogo (2023) — conta a história de Rita Preta: mulher pobre, preta, moradora de vila e mãe. Algoz do seu destino violento, sinalizado pelo racismo e pelos temores que um corpo preto sofre desde o período colonial em nosso país, a protagonista caracteriza o próprio “coração sem medo”, justamente porque, no decorrer de sua trajetória desafiadora, precisa se valer de muita coragem, essa que a todas as mulheres pretas é imposta, isto é, não aparece como opção, mas sim como obrigação frente a vida que se faz tão dura. Nessa premissa, Itamar Vieira Junior atribui não somente à protagonista o significado de persistência, mas também traz à tona a segregação violenta a qual todo corpo preto está vulnerável.

Dado o exposto, ao dividir o romance em cinco partes — denominadas, respectivamente, Correnteza, Carmelita, Terra-sudário, Mazé e Os cadernos de Cainho —, o autor enfatiza um protagonismo marcadamente feminino, a persistência da memória ancestral e a analogia entre as tristezas e alegrias trazidas pela terra: verdadeiro sudário humano.

Partindo de uma voz narrativa observadora que transita entre a terceira e a segunda pessoas, na qual o narrador apresenta os sentimentos, as dificuldades e toda a trajetória de Rita Preta, é possível perceber uma exposição que contempla a ideia de inovação da linguagem, marcada por escolhas precisas de palavras que fazem menção ao lugar social que a protagonista ocupa e às referências ancestrais que perpassam todo o enredo, principalmente nas figuras de Donana, Carmelita e Mazé. Essas referências trazidas na obra mostram, novamente, a hibridez discursiva à qual os romances contemporâneos se lançam fortemente, ao vislumbrar um maior reconhecimento, identificação e construção da identidade da população preta - traço já característico desde Torto Arado (2019), em que a narração em primeira pessoa contempla não só as personagens Belonísia e Bibiana, mas também a entidade de Santa Rita pescadeira.

No livro, Rita simboliza inúmeras mulheres que já passaram pela tormenta do desaparecimento de seu rebento e pela falta de esclarecimento desses casos — marcados pela disseminação de ódio e pela violência que são, principalmente, direcionadas ao povo preto. Por isso, as mulheres, e mais fortemente as mães, tornam-se mártires de toda uma trajetória de dor e desespero. Itamar Vieira Júnior apresenta ficcionalmente um problema singular vivenciado, na verdade, por uma coletividade em todo o território nacional, o que intensifica a leitura e faz com que o leitor e a leitora permaneçam imersos no sentimento de busca e no desejo de justiça.

Na maior parte do romance, intitulado “Correnteza”, vê-se a dor de uma busca incansável por Alcides (Cid) - jovem preto, filho de Rita Preta - e a força que esse tema impõe às mulheres. Sob esse viés, o público fica submerso na intensa tristeza e angústia da procura, o que torna a leitura lenta e, por vezes, até cansativa. Vale destacar, porém, que essa lentidão na fluidez da leitura parece intencional, justamente porque performa uma busca constante para elucidar o desconhecido é demorada, penosa, adoecedora, injusta, ineficaz e infeliz — como é mostrado através da protagonista. Dessa forma, ao compreender todos esses sentimentos atrelados à escrita, percebe-se que há uma intenção linguística nas escolhas das palavras e nas ações das personagens identificadas no decorrer da trama. Assim, o que pode ser considerado maçante, pouco desenvolvido e cheio de divagações é, na verdade, um traço de estilo, um trabalho árduo de intenção da linguagem por meio da intensificação, o que torna os detalhes fascinantes.

Além da narrativa marcada por intensas adjetivações do cenário e do cotidiano das personagens, é notória a presença expressiva das mulheres que ocupam, em sua maioria, o lugar de vulnerabilidade social adquirido não somente pela cor da pele, mas também pelo machismo que insiste em inferiorizar e subjugar essa parcela popular. No romance, a memória emblemática de Rita Preta pela avó Carmelita, Bisavó Donana e a mãe Mazé intensifica o protagonismo das mulheres, ressaltando, na medida certa, a luta que ultrapassa gerações, marcada pelo abandono parental, pela falta de insumos básicos para a vida e pela deficiência de moradia comprovada pelo desejo de ter uma propriedade documentada e socialmente aceita.

Coração sem medo (2025) dialoga, pois, com sujeitos brasileiros aos quais são impostas condições de uma vida precária, árida e embrutecida. A ausência de direito à terra se manifesta tanto no meio rural, sem propriedade para cultivo, quanto no urbano, sem moradia própria. Ademais, tal precariedade se manifesta também nas relações afetivas: Evilásio abandona Rita com um filho para criar, sem a mínima preocupação, ao menos, de dar uma satisfação; Jorge, homem casado e suposto pai de família, faz da protagonista do romance sua amante, uma segunda opção para desaguar os seus desejos masculinos.

Nessa perspectiva, em meio à história da protagonista, são vistas várias outras histórias de mulheres em um Brasil desigual. Por essa análise, para destacar essa fragilidade e falta de amparo ao qual o público feminino está atrelado, o autor lança mão de temas como: trabalhos análogos à escravidão, sustento através de empregos mal remunerados e pouco solidários e combate constante para que a próxima geração familiar tenha uma ideia de futuro melhor. Essa premissa se comprova quando, por exemplo, Carmelita entrega Rita Preta aos cuidados de uma vizinha para que sua filha seja levada à cidade e, então, possa ter mais oportunidades na vida. Além disso, esse fator também é ressaltado quando Mazé deixa a sua filha e seus filhos para buscar mais renda na cidade grande, o que comprova o crescente êxodo rural que ocorre desde a República Velha. Contudo, esse trânsito entre os ambientes rural e urbano continua marcado por uma condição de vida subalternizante.

Ambientado na cidade de Salvador, Coração sem Medo (2025) aborda temas atuais, recorrentes de grandes metrópoles; nesse sentido, o subemprego, a violência policial, o racismo estrutural, a superlotação dos transportes públicos e a ganância dos grandes latifundiários são fatores de grande representatividade no corpo da narrativa. Além disso, há um diálogo da obra com um Brasil profundo, uma vez que, para o sujeito de cor, tanto a lei executada por representantes do Estado, como aquela criada pelos chefes do tráfico são ameaçadoras e ultrajantes.

Cumpre observar, ainda, que, em meio a tantos temas e assuntos relevantes, o autor não deixa de abraçar a espiritualidade e o misticismo atrelado às religiões de matriz africana, uma vez que faz memória ao primeiro livro da trilogia - Torto Arado (2019) - em que Santa Rita pescadeira é, sobretudo, senhora e protetora dos seus: os sem- terra, trabalho e comida, cumprindo, portanto, a função de mãe, símbolo de ancestralidade e memória, marcada por um enorme preconceito e descrença na fé e espiritualidade do povo preto. Ainda assim, o autor apresenta a encantada de uma forma que estimula a curiosidade do leitor e da leitora sem, no entanto, colocar a presença da entidade como algo exótico e pouco conhecido, o que mostra a ligação entre a memória ancestral e a contemporaneidade, reforçando o símbolo de fé e a certeza no sagrado que há em cada religiosidade. Nas águas serenas que compõem todo o axé - símbolo de proteção contra o mal- a protagonista compreende que é na cultura da fé do seu povo que ela ganhará forças para trilhar a dura luta travada pela vida dos seus.

Já nos capítulos finais do enredo, marcados pelo símbolo da terra/chão, são percebidos planos da narrativa que comportam o nível tanto do realismo fantástico, assinalado pela presença onírica e subjetiva - em que visões singulares do mundo são vistas através dos sonhos de Rita Preta -, quanto a realidade brutal do mundo de hoje, uma vez que a terra simboliza o ardor e tristeza do sudário, esse embebido de sangue, suor e trabalho. Nesse contexto, as marcas da terra são consequência das marcas da vida. O que outrora funcionou como símbolo de fertilidade, comida e raízes, agora é, também, certeza de dor e luto.

Por fim, o desfecho da escrita, ainda que flerte com a esperança de novos tempos promissores, é marcado por uma história continuamente em aberto, sem conclusão, sem encaminhamento... Rita, além de sofrer tantas perdas e ter seus sonhos sempre adiados, continua tendo sequestrado o seu direito à justiça.

Ouro Preto, dezembro de 2025

Referências

VIEIRA JUNIOR, Itamar. Coração sem medo. São Paulo: Todavia, 2025.

VIEIRA JUNIOR, Itamar. Salvar o fogo. São Paulo: Todavia, 2023.

VIEIRA JUNIOR, Itamar. Torto arado. São Paulo: Todavia, 2019.

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*Túlio Romualdo Magalhães é graduado em Letras (UFOP), pós-graduado em Ensino da Língua Portuguesa (IFMG-OP), mestre em Letras: Estudos Literários e doutorando em Literatura Brasileira (ambos pela UFMG). É professor da rede pública do estado de Minas Gerais e do município de Ouro Preto - MG. Também é membro e pesquisador do NEIA – Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade e do portal literafro (UFMG). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

** Vitória Maria Coelho Viana é graduada em Letras (UFOP) e pós-graduada em Ensino da Língua Portuguesa (IFMG-OP). É professora da rede privada no município de Ouro Preto - MG e colaboradora indireta do portal literafro (UFMG). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

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