O número 62 da literafro novidades reúne doze resenhas que tomam como ponto de partida obras representativas da produção literária africana e afro-brasileira contemporânea. Em diferentes gêneros (conto, romance, poesia, ensaio, literatura infantojuvenil e outras formas), os textos percorrem um campo de leitura atento às relações entre memória, arquivo, ancestralidade e alguns motivos que acompanham às publicações de autoria negra. O conjunto inclui A cor da pele: poesia reunida, de Adão Ventura; Ensaios de despedida, de Elisama Santos; O acumulador, de João Melo; Mamãe aprendeu a ler, de Luana Tolentino; Nossos passos vêm de longe, com textos de Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz, Cidinha da Silva, Ana Paula Lisboa e Luciana Nabuco; a reedição da Revista Níger, editada por José Correia Leite; A água é uma máquina do tempo, de Aline Motta; A primeira pedra, de Pedro Machado; O rio infinito, de Mia Couto; Diáspora não é lar, de Nina Rizzi; Publica, preta!, de Débora da Silva e Elizandra de Souza; e Fora di nos: nhara sikidu – textos poéticos, de Helena Neves Abrahamsson. Ao colocar essas obras em relação, a atual edição propõe aos leitores a escuta e o deslocamento do olhar, sem limitar a complexidade das tessituras que se inscrevem nos livros. Aos colaboradores fica o agradecimento pela construção deste número. Aos leitores, o convite à leitura.

 

 

Adão Ventura

Lara Carvalho Cipriano e Bruna Carla apresentam A cor da pele: poesia reunida (Círculo de Poemas, 2025), de Adão Ventura, destacando a relevância de sua presença na poesia brasileira. Organizado por Fabrício Marques, o volume reúne textos fundamentais e inéditos, permitindo aos leitores acompanhar a consciência estética e política do autor. A escrita de Ventura se propõe à experimentação formal, à crítica social e à valorização da memória negra, aspectos que reafirmam a centralidade de um dos nomes de maior destaque da literatura mineira.

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Elisama Santos

Rannyson da Silva Moura lê o romance Ensaios de despedida (Editora Record, 2025), de Elisama Santos, dando destaque ao modo como a narrativa expõe as pressões que cercam a vida de mulheres negras. Por meio de cartas, acompanha-se Cristina em um movimento de retorno ao passado, marcado por silêncios, frustrações e desejos adiados. Ao questionar os papéis que lhe foram impostos, a protagonista sugere as expectativas sociais com relação ao cuidado e à submissão imposta aos corpos negros femininos.

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João Melo

Rogério Faria Tavares apresenta O acumulador (Editora Caminho, 2024), de João Melo, um coletânea de contos que exploram a sociedade angolana pós-independência. As narrativas evidenciam práticas de oportunismo, desigualdade, relações de poder e acompanham personagens que transitam entre diferentes esferas sociais. Ao mesmo tempo, o livro investiga contextos mais subjetivos, a partir da memória e do desejo.

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Luana Tolentino

A leitura de Mamãe aprendeu a ler (Editora Mazza, 2025), de Luana Tolentino, apresentada por Elisângela Aparecida Lopes Fialho, destaca a alfabetização como experiência de transformação das personagens. A narrativa acompanha Dora na reconstrução da vivências da mãe, em grande parte marcada pela exclusão escolar. A leitura surge então, mais tarde, na vida da figura materna, que vê nesse gesto uma prática de liberdade e um direito historicamente negado.

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Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz, Cidinha da Silva, Ana Paula Lisboa, Luciana Nabuco

Loiany Camile Gomes analisa a coletânea Nossos passos vêm de longe e outras histórias ancestrais (Nova Fronteira, 2025), dando ênfase à potência das vozes negras femininas contemporâneas. Os contos versam sobre a memória, a ancestralidade, além de tecerem críticas ao contexto social, por meio da abordagem de temas como o trabalho, o território e o pertencimento. A leitura evidencia a escrevivência, formulada por Conceição Evaristo, e a oralidade como práticas de resistência.

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José Correia Leite

Kelvin Jorge Batista Silva analisa a edição fac-similar da revista Niger (Ciclo Contínuo Editorial, 2025), tendo em vista a importância histórica da revista, editada por José Correia Leite. A publicação resgata a imprensa negra como espaço de resistência e de memória, que tinha (e tem) como finalidade o combate ao apagamento colonial. Os leitores terão acesso à presença negra em diferentes campos de atuação, numa obra que reafirma o fortalecimento das identidades negras no Brasil.

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Aline Motta

Felippe Nildo de Lima propõe a leitura de A água é uma máquina do tempo (Círculo de Poemas, 2022), de Aline Motta, a partir da memória e da ancestralidade. A obra reúne imagens, documentos e fragmentos para reconstruir trajetórias familiares, sobretudo de mulheres negras. Ao problematizar o arquivo, a autora propõe outras formas de narrar o passado e evidencia experiências assinaladas pela violência e pelo silenciamento.

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Pedro Machado

Rodrigo Pires apresenta A primeira pedra (Malê, 2024), de Pedro Machado, destacando as tensões entre fé, identidade e pertencimento sociocultural. As narrativas se organizam em torno de conflitos morais, como a culpa e os desejos silenciados. O evangelismo protestante surge como campo de disputa e controle, ao apontar as contradições associadas às heranças coloniais e os limites impostos pela religiosidade.

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Mia Couto

Érica Luciana de Souza Silva escreve sobre O rio infinito (Companhia das Letrinhas, 2025), de Mia Couto, dando destaque à inserção desse escritor à literatura infantojuvenil africana. Em sua leitura, a professora evidencia a presença da oralidade, da memória e das relações comunitárias, que marcam a convivência e a diferença, a partir da ética baseada no diálogo e na partilha.

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Nina Rizzi

Mikaella Pereira da Silva lê Diáspora não é lar (Pallas Editora, 2025), de Nina Rizzi, destacando uma poesia que confronta o racismo e as desigualdade advindas deste. Os poemas abordam experiências de não pertencimento e as vivências de mulheres negras, por meio de uma linguagem que incorpora as formas da oralidade, num processo de ruptura com uma linguagem mais formal.

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Débora da Silva e Elizandra de Souza

Luiz Henrique Silva de Oliveira escreve sobre a obra Publica, preta! (Edição do autor/Sarau das Pretas, 2022), uma importante contribuição de Débora da Silva e Elizandra Souza para o campo editorial negro brasileiro. Trata-se de um guia prático e político para a autopublicação, incentivando a presença de mulheres negras no mercado editorial, por meio também de uma orientação técnica. Nele, evidenciam-se os desafios e as possibilidades de inserção editorial, numa proposta que amplia o acesso à produção literária.

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Helena Neves Abrahamsson

 

Wellington Marçal de Carvalho apresenta Fora di nos: nhara sikidu – textos poéticos (Nimba edições, 2021), de Helena Neves Abrahamsson, autora nascida em Bissau e atuante no campo dos Direitos Humanos. O livro reúne textos que partem de experiências pessoais e coletivas, trazendo à cena a ancestralidade, a identidade e os conflitos que marcam a Guiné-Bissau. A poesia dá forma à dor, mas também à permanência e à força. Entre lembrança e perda, os poemas constroem um espaço de reconhecimento contínuo.

 

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Expediente

literafro novidades, n. 62 – março, 2026.

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