Folhas de outono

(Fragmento)

Janaína Nascimento

Outono chegou e com ele o tapete formado por folhas brilhantes e coloridas, uma paleta variada começando pelo verde, passando pelo vermelho, amarelo e alaranjado. Para quem aprecia tais mudanças diretamente das varandas de seus sobrados antigos é um espetáculo. Mas, para a galera que limpa as ruas, varrer folhas de amendoeira diariamente por vezes se torna um fardo.

Jeane morava no sobrado azul, apreciava essas transformações da janela do seu quarto ou da varanda do quarto do seu avô. Morava na rua principal do bairro, quase ao lado dos Correios. A rua concentrava 80% do comércio local. Tinha duas sapatarias, bar com comida caseira, casa de construção, loja de roupa no estilo armarinho, sapateiro, fliperama, mais bares, loja de móveis, relojoaria, vidraçaria, e uma padaria lá na rua transversal da esquina. Ao lado da padaria ficava a sede da escola de Samba que ia até a outra quadra e dava na rua da igreja do padroeiro do Bairro: São Sebastião.

(In: Encruzilhadas suburbanas, 2023)

 

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A Favela ainda não venceu!

                                          Janaína Nascimento

Planta oriunda de Canudos
Solução de moradia para
Quem recebeu falsas promessas
E voltou da guerra
Sem soldo e sem teto
Barracos se ergueram pelos morros
Providência foi a primeira parada
Políticas higienistas e eugenistas
Deram o tom para o abandono
Falta de políticas públicas 44
E extermínio de gente preta e pobre
Desde os tempos da "falsa abolição”.

Lugar de gente batalhadora
Que gira a máquina capitalista
Berço de gêneros musicais
Tentaram desde sempre criminalizar
O jongo, o samba, o rap e o funk
Ainda assim esses ritmos
Seguem vivos e ganharam o mundo.

Lugar onde a bala de fuzil
De perdida não tem nada
Elas sempre acham o caminho
Para exterminar os corpos negros
Lugar onde violações
De direitos humanos e chacinas
São legitimadas pelo Estado.

A criançada segue tentando ser criança
Com sorriso no rosto, correndo,
Soltando pipa e brincando de pique
O povo da favela segue solidário,
Virando lage para o amigo,
Regada a comida gostosa
E fazendo batucada
Homens e mulheres seguem
Agarrando todas as oportunidades
Orgulhando pai e mãe.

Os jovens seguem fazendo passinho,
Dando o papo reto no Slam
Lideranças comunitárias seguem
Incansáveis, fazendo o papel do governo,
Salvando vidas com projetos sociais
Colocando comida na mesa
De quem tem fome e pressa.

Escritores, rádios comunitárias
Seguem na contramão
Contando histórias a partir das suas
Próprias e faveladas narrativas
A favela existe, a vida pulsa,
A cultura nesses territórios vibra.

Jacarezinho e Complexo da Penha.
"Pena de Morte" executada...
Pânico e suspensão de aulas
A falácia da meritocracia
Ainda esbraveja que as oportunidades
São iguais para todo mundo.

Virou moda repetir por aí
Que a "Favela Venceu"
Mas, parafraseando Carolina de Jesus
A Favela segue como
O Quarto de Despejo da sociedade
Força, luta e resistência não faltam
Queria hoje falar o contrário
Mas, infelizmente
A Favela ainda não venceu!

(In: A poética da resistência, 2022)

 

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Negras narrativas

                           Janaína Nascimento

Nossa existência
Não se resume a sofrimento
Ela está pra além da dor
E das tentativas de desumanização e
Apagamento de nossa cultura.

Somos corpos negros
Em movimento
Somos frutos da agência
E dos sonhos dos
Nossos ancestrais.

Somos corpos em luta constante,
Mas também temos
Vivências felizes,
Engraçadas, de sucesso
Onde se transborda afeto.

Temos delírios de amor
Momentos de paixão
Vivemos amores intensos que
Fazem a temperatura subir.

Somos permeados por
Sabedoria ancestral
Fé que move nosso caminhar
Somos centelhas divinas
Orixás na Terra
Nos reinventando nessa diáspora
Deixando nosso legado.

Seguimos nossa caminhada
Contando nossas
Belas conquistas e histórias
Através das nossas
Próprias e negras narrativas.

(In: Literatura negra feminina: poemas de sobre(vivência), 2021)

 

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Ainda tem gente com fome!

                         Janaína Nascimento

Os anos passam
E as notícias não se renovam
Uma realidade que nunca muda
Parte de um povo sem memória
Com suas histórias negligenciadas
Num Brasil que se repete:
A crueldade se repete!
O racismo se repete!
O genocídio se repete!

A Herança colonialista segue viva
E todo dia nos traga e nos impede
O trem segue correndo …correndo!
Serviço ruim, passagem cara
Trabalhador passando aperto
E violências diárias
O camelô tirando dali o seu sustento
A vida se repetindo a cada estação

Do sudeste ao norte
Tem tantos brasileiros que
Não nasceram com o privilégio
E a sorte de terem o mínimo
Como lá atrás já dizia Mestre Solano
"Tem gente com fome!"
Nos dias atuais:
Ainda tem gente com fome!

Centenas de Yanomamis assassinados
A cultura e a força Dos nossos povos originários
Dizimadas pela desnutrição
E pelo garimpeiro com ambição
Tem homem preto asfixiado
Pela fome, pela doença e pela vida,
Que não melhora nem com o
Avançar da idade,
Querendo apenas …
Descanso e Tranquilidade

Tem mãe solo na favela
Fazendo a partilha da escassez
Com seus irmãos e irmãs
Que ainda menos tem
O Psiuuu... Não pode mais nos calar,
Silenciamentos não podem nos parar
Ainda tem gente com fome!
De comida, de educação,
De paz e de dignidade
O autoritarismo que se cale
Se ainda tem gente com fome
Precisamos matar essa danada,
Que por aí tanto mata.

(In: 2023)

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Naquele tempo

(fragmento)

Janaína Nascimento

Dona Janete balançava em sua cadeira na porta de casa enquanto suas bisnetas Amanda e Layse, pré-adolescentes, corriam animadas pela Rua da Vila. Nem as marcas do tempo eram capazes de esconder a beleza dos traços marcantes da senhora centenária, com seus cachos platinados na altura dos ombros e que mesmo estando no quintal da charmosa Vila de subúrbio, onde morava, andava impecavelmente vestida e enfeitada com brincos grandes, colares e muitas pulseiras que com seu chacoalhar denunciavam sua presença por onde passasse. Quem não a conhecia provavelmente não daria mais que 80 anos para ela, que sorria envaidecida e dizia sempre “Santa Melanina”!

Janete, como uma boa filha de Oxum, sempre esbanjou encanto, desde a sua juventude seduzia com o olhar e seu sorriso largo, adornado pelo batom carmim era como gotas de felicidade que contagiavam a quem estivesse por perto, enquanto sorria seus olhos puxadinhos se fechavam, lhe conferindo certa doçura. Não à toa Alexandre se apaixonou a primeira vista, ficou preso aos seus olhos castanhos, cujo brilho era tão intenso que se assemelhava a um monte de constelações”.

(In: Águas que passam não voltam, 2022)

 

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