Verbetes para um dicionário afetivo,

Ana Paula Tavares, Manuel Jorge Marmelo,

Ondjaki e Paulinho Assunção

 

Maria Nazareth Soares Fonseca¹

 

 Verbetes para um dicionário afetivo, de Paula Tavares, Manuel Jorge Marmelo, Ondjaki e Paulino Assunção é proposto como um encontro entre amigos, “um louvor à amizade”, segundo Paulinho Assunção, um dos autores, no texto de abertura da edição brasileira publicada pela editora Pallas. Paula Tavares, figura representativa da poesia angolana do pós-independência, define o livro como uma retomada de “palavras penduradas “na Huíla, em Belo Horizonte, em Luanda, no Porto, Lisboa e Rio de Janeiro” (p. 2). Ondjaki, angolano como Paula Tavares, e também importante referência da literatura pós-independência de Angola, apresenta o dicionário como “uma mínima enciclopédia de olhar e sentir”, em que ficam registrados os caminhos poéticos e criativos abertos pelos textos em cada parte do livro.

Os 27 verbetes propostos por Paulino Assunção são livremente apresentados pelos 4 autores que não têm a preocupação de abrir espaço para a definição denotativa de cada tema. Os títulos dos verbetes indicam a possibilidade de os temas serem abordados com diferentes formas de lidar com as palavras, de permitir que nelas ressoem peculiaridades de gestos de escrita e diferentes formas de uso da língua portuguesa. É, portanto, muito importante acompanhar os textos que explicam os verbetes e as estratégias escolhidas para explorar os vários sentidos oferecidos por eles.

A viagem pelos verbetes se inicia pela curiosidade de perceber recursos próprios do estilo de cada autor, principalmente quando procuram tratar temas em que estão explícitos modos peculiares de percepção. Ao falar sobre “árvores”, Paula Tavares acolhe as imagens de uma laranjeira cujas flores enfeitavam a cabeça de noivas e que, contrapondo-se aos frutos duros e feios e à sombra nada acolhedora, envolvia em perfume as lembranças de um tempo de que faz parte a avó e o cuidado dela com a árvore. O texto recolhe lembranças da avó que cuida da árvore em que “estavam inscritos os sinais da linhagem, a história de um tempo” (p. 28). Um limoeiro, um marmeleiro e um pessegueiro costuram lembranças de infância, no texto de Manuel Jorge Marmelo (p. 31 -32) que, paradoxalmente, no título, refere-se ao jacarandá, árvore nativa de regiões do Brasil, da Bolívia e da Argentina, remetendo a geografias distantes do seu país natal. As lembranças evocadas por Ondjaki resgatam um velho coqueiro “todo antigo e torto” (p. 31) da ilha do mussulo, em Luanda. Do texto de Paulinho Assunção emerge um abacateiro que faz parte da vida do menino que o plantou ainda semente e o acompanhou até ele se tornar árvore adulta, com flores e frutos (p. 33).

Percebe-se nos textos construídos pelos autores uma intenção evocativa tecida de lembranças e imagens evocadas pela magia do lembrar. É com o olhar voltado ao passado, aos acontecimentos de uma infância distante que o verbete “Casas” é tratado em textos que retomam lugares delineados pela memória.

A casa é revisitada como um “lugar de memória”, no verbete construído por Paula Tavares, quando evoca uma residência simples, de “chão de terra batida”, emoldurada por imagens de “panos brancos estendidos ao sol a corar” e pelo sabor da “sopa de feijão e do arroz-doce sem ovos dos domingos” (p. 42). Uma casa simples de longo quintal, canteiros de couves e jarros, de flores emerge das lembranças de Manuel Jorge Marmelo como um lugar de afetos em que a vida da família de operários transcorria sem grandes sobressaltos. Ondjaki prefere listar as coisas da casa relembrada que gostaria de rever. São lembranças retomadas por sensações olfativas (“o cheiro do forno com qualquer coisa quase pronta”, “o cheiro do abraço da tia Rosa no meu corpo” p. 45), e, por vozes, de pessoas queridas que enchiam de sons a casa relembrada. Cheiros, muitos cheiros são evocados da casa resgatada por Paulino Assunção, no texto “Casa que era cais”, guardada em imagens que fazem dela um “cais móvel”, “uma casa que partia”, acompanhando as andanças do antigo morador que procura reencontrar “os destroços de suas primeiras moradias”. A casa como um lugar em que são guardadas memórias sempre revisitadas.

Do elenco de temas fornecidos por Paulinho Assunção, quando pensou em construir um dicionário de definições distanciando-se dos roteiros tradicionais e abrigando temas de sentido fugidios como se depreende de “Aparições”, Luas”, “Chuvas”, “Húmido”, “Geografias” e “Ziguezagues”, que aguçam a curiosidade dos leitores e outros, como os comentados nos parágrafos anteriores, mais dispostos a abrigar sentidos mais previsíveis. Tais demarcações não são obrigatoriamente seguidas pelos autores em seus textos-verbetes. Como se procurou demonstrar, os autores exploram lembranças que ficaram gravadas na memória por aspectos peculiares.

Para tratar do tema “Húmido” (p. 94-97), cada autor cuidou de descrever a sua percepção, aludindo a diferentes significados. Paula Tavares resgata a imagem de uma gota que cai sobre a mão gretada de quem vive no deserto. Água preciosa para quem já se esqueceu dos sons anunciadores da chuva caindo em paisagem inóspita. A escritora retoma imagem do deserto e de uma mulher antiga que mantém “o rio preso nas mãos”, resgatando o título dado ao livro de crônicas de sua autoria, publicado pela Editora Kapulana, em 2019. Ondaki retoma o tema, passando pela imagem de um homem e por tensões expressas por lágrimas e pelo esforço de não chorar. Paulino Assunção elabora um quadro construído de lembrança de uma mulher que postava letras em folha branca, oferecendo-a aos cristais de orvalho, a cada noite. Essa criação em ruínas era resgatada, a cada manhã, como “um rio de leito seco” (p. 97). Jorge Marmelo não fala de água nem de lágrima. Prefere, em poema pequenino, resgatar as lembranças do menino que se lembra de cena de infância e da sensação sentida quando arranca a crosta de uma ferida (qualquer) em seu corpo e sente a gota de sangue que dela brota.

De que outras lembranças ou situações se produzem os textos que intentam explicar os temas “Uanga” (Feitiço) e “Ziguezagues”? Para tratar de “Uanga” (Feitiço), Ana Paula Tavares faz referências explicitas a tradições antigas, mulheres curandeiras e cestos em que são guardadas letras e plantas que curam, ressaltando a função curativa de umas e outras. Marmelo prefere evocar a magia explorada por escritores que, como os arquitetos, são capazes de inventar belezas, de criar traços que tiram do nada suas inspirações. Ondjaki recupera o corpo da infância e toca na magia das brincadeiras e das tardes visitadas pelo cacimbo. O corpo da infância é revisitado por referências ao “ar gélido e ao pulmão enfraquecido pela asma. As doenças da infância são afagadas pelas mãos que acalmavam o corpo e suas dores, imagens de um tempo nunca esquecido. O texto de Assunção resgata a magia que brota da leitura de mãos estendidas a uma ruiva cigana e de presságios costurados pela voz da “ruivosa leitora dos amanhãs”, em cenário de que fazem parte maravilhas, encantos e vidrilhos de espelho partido. A infância é resgatada como universo de misteriosos acontecimentos.

Como explicar os ziguezagues e os labirintos pelos quais passamos? Paula Tavares, no verbete “Ziguezague” parece responder à pergunta aludindo a lugares e caminhos percorridos pela imaginação em busca de momentos em que, como ela diz, “a noção de equilíbrio não fazia parte de nenhum território conhecido” e os mapas eram marcados “por lagartixas, caracóis e pássaros” (p. 200). Marmelo remete a festas em que andar em linha reta era experiência impossível. “Cordas de corpos tentando avançar entre a multidão” (p. 201) constroem imagens de ziguezagues que configuram um tempo feliz. No texto de Ondjaki o ziguezaguear remete à lembrança de um tempo em que era possível descobrir em casa os seus encantos. Paulinho Assunção traça ziguezagues retomando trilhas e referências das muitas casas esculpidas num chão de afetos, retomadas por uma escrita que também se faz em zigue-zagues.

Os verbetes que compõem o livro traçam percursos imaginários trilhados pelos quatro autores nos textos que recriam espaços provocadoramente instigados pelo uso da língua portuguesa em diferentes sotaques, entonações e estilos. Com essa intenção os autores do livro perseguem a experiência de caminhar na contramão de dicionários que pretendem regular o uso da língua e fixar significados de termos e expressões. Nesse dicionário afetivo, os verbetes acolhem a revisitação de memórias vividas e inventadas, visões e percepções poeticamente elaboradas para atribuir significados outros a termos da língua portuguesa. No livro, esses termos atendem ao desejo dos autores de revisitarem “lugares quentes e fulgurantes”, instigados pela vontade de lembrar que cada autor explora na construção de um belo dicionário afetivo.

 

Referência

TAVARES, Ana Paula; MARMELO, Manuel Jorge; ONDJAKI; ASSUNÇÃO, Paulino. Verbetes para um dicionário afetivo. Rio de Janeiro: Pallas, 2021. 204 p.

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* 1. Maria Nazareth Soares Fonseca é Professora Emérita da FALE/UFMG. Autora dos livros: Brasil afrobrasileiro (2000); Poéticas afro-brasileiras (2003); Literaturas africanas de língua portuguesa: percursos da memória e outros trânsitos (2008); Mia Couto: espaços ficcionais (2008); Literaturas africanas de língua portuguesa: mobilidades e trânsitos diaspóricos (2015). Coorganizadora da coletânea Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Volume 4. (2011). Coordenou, de 2010 a 2021, o Grupo de Estudos Estéticas Diaspóricas (GEED) que congrega pesquisadores de vários estados do Brasil e de várias cidades de Minas Gerais. A partir de 2020, coordena a seção literÁfricas, no literafro/UFMG, que tem como objetivo transformar-se em um canal de acervo, multiplicação e socialização de artigos críticos, entrevistas e vídeos sobre as literaturas africanas de língua portuguesa. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. 

 

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