Escrever para exorcizar fantasmas:

Fora di nos: nhara sikidu – textos poéticos,

da escritora guineense Helena Neves Abrahamsson

Wellington Marçal de Carvalho*

 

 Nascida em 1962, em Bissau, capital da Guiné-Bissau, Helena Neves Abrahamsson graduou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa e exerce essa profissão, se dedicando à área de Direitos Humanos, gênero, mulher e crianças, em diferentes países da África, especialmente Guiné-Bissau e sub-região da África Ocidental, Angola e Suécia. É uma ativista social e Fora di nos: nhara sikidu – textos poéticos é seu livro inaugural, publicado em 2021, pela Editora Nimba.

A guineense posta, com relativa frequência, poemas em seus perfis nas redes sociais na internet e também integra a antologia Língua e voz, publicada pela Editora Templários, em 2021, com dois poemas e um conto. Vale dizer que ela é apaixonada pelas artes, especificamente as que se fazem com tingimento e pintura em tecido e papel. É da própria poetisa e artista a autoria da pintura utilizada como imagem da capa da obra. De acordo com uma das mais importantes pesquisadoras do sistema literário e da cultura guineenses, a professora brasileira, radicada na Alemanha, Moema Parente Augel, a capa da obra inaugural:

ostenta a reprodução de uma pintura da própria autora que, como o título grafado em vistosas letras brancas em fundo escuro, chama logo a atenção. O título e a ilustração convidam à reflexão: rostos em semicírculo, feições marcantes, de variados tons acobreados, sobressaindo os olhos e as bocas expressivas, roupagem coloridamente africana, em torno de uma enorme cabaça decorada com arabescos em variados castanhos. São mulheres, esses muitos vultos que parecem fixar os leitores. Mulheres fortes e poderosas, ali estão a serviço do Bem, com seus amuletos e objetos encantados, com seus rituais de proteção e salvação. Crenças, certezas, ainda hoje vivas, que povoam o imaginário coletivo e estão ancoradas nas tradições ancestrais. Tais símbolos estéticos evidenciam o orgulho da ancestralidade africana e expressam ao mesmo tempo uma altivez que confirma sua postura política. (Augel, [2025], no prelo).

O volume apresenta a “mais atual poesia guineense” (Eyré, 2022) e foi dedicado, conforme registra a poetisa, “a quem me ensinou a andar, a pensar e a enfrentar o mundo. Ao Tito, meu irmão, mentor e amigo” (Abrahamsson, 2021). Quando esteve no Centro Cultural de Cabo Verde, a escritora, em entrevista, abordou a motivação para enveredar pela escrita literária:

Uma das coisas que me levou à escrita mesmo e que me impulsionou foi a dor de ver a situação que o meu país tem vindo a atravessar. Como todos sabem, a Guiné-Bissau depois da independência, até esta data, há quase 50 anos, tem vivido situações muito, muito difíceis, sociais, políticas, com imensas crises político-militares e com a situação da população a degradar-se. E eu, apesar de nem sempre ter vivido na Guiné, vivi muitos anos fora da Guiné, em vários outros países, sempre tive essa ligação muito forte com meu país. Sempre segui a política e a vida social do meu país e penso que este distanciamento, essa saudade, essa dor e esse amor pelo país levou-me a pegar na caneta e começar a escrever. Mais do que eu própria, mais do que a introspecção, o pensar na minha própria existência, foi o meu país que me levou a escrever. (Abrahamsson, 2022)

A socióloga guineense Rita Fernandes Ié (2021, p. 2) prefacia a obra e ressalta a inquietude e, em alguma medida, a revolta que ressoará na lírica da escritora: “Ela a sente por dentro, latejando amores e dores. Sente-se o jorrar da esperança em torrentes quentes e rubras. Ela a faz saliente no exacto momento em que da caneta a sua alma no papel derrama. Sim, do lado esquerdo do peito, nasce a veia desta poetisa que em prosa e versos neste livro nos visita.” A nomeação dessa obra inaugural materializa um posicionamento político de respeito e valorização de sua origem e raízes, de seu amor à Guiné-Bissau. A explanação de Abrahamsson, compartilhada à época do lançamento do livro é bem elucidativa, a respeito do título do livro:

Fora di nos é crioulo, a língua crioula da Guiné-Bissau, que significa, mais ou menos, coisas do outro mundo, forças sobrenaturais muitas vezes maléficas. São forças más. [...] Eu queria que o título do livro fosse na minha língua materna. E eu sugeri este título. Ainda houve alguma discussão com a editora por causa do mercado, porque seria mais sugestivo um título que no Brasil, São Tomé [e Príncipe], Angola, Moçambique, sei lá, pudesse entender à primeira. Tentamos várias traduções, mas, por fim, a editora percebeu que não, ‘tem que ser este que tu queres’ [...]. E é Fora di nos por quê? Porque quando eu olho para a situação do meu país, quando olho para, principalmente, as questões políticas e para a forma como os políticos tem dirigido o país, a sensação que tenho é que são guiados por forças maléficas, porque não é possível que em quase 50 anos tenhamos a situação que temos. [...] E o Fora di nos também pode significar coisas que nós mesmos não entendemos. Forças. E estas forças também influenciaram, digamos assim, de um forma imaginária [...] naquilo que eu escrevo sobre mim e de mim para mim... (Abrahamsson, 2022)

Em termos estruturais, a obra é composta por 42 poemas, distribuídos em quatro segmentos, intitulados: Minha casa / Nha casa, com 13 poemas (Declaração de amor, O timbre da esperança, Retalhos, Dia internacional da criança, As meninas e os meninos da minha casa!, Pindjiguiti, Terra do meu destino, Viajando, Medo, Cruzes no caminho, Pássaro de ferro, Serenidade da terra, A fotografia); Meu eu / Ami ku mi, com 14 poemas (Rosto que interroga o tempo, Senhora de mim, Ser-sentido, Vi-voando, Pudismos, O lado oposto, Anúncio, A janela, O tempo dos-entas, Dar a volta (por cima), Caminhos revoltos, Densidade, Sereia serei, Maputo... see you soon...); Devaneios / Kabessa na pupan, com dez poemas (Silêncio, Procura, Amor menino, Eu em ti, Porto lotado, O embalo da memória, Espinhos, Espelho do tempo, A espera, Infâncias & distâncias) e, a quarta e última parte Na kriol, com cinco poemas (Djugudes, Nhara sikidu, Fora di nos, Mindjeris di nha terra, Ma i djusta / I djusta dja).

Abrahamsson, ao participar, em 1º de junho de 2023, de uma mesa de escritores, online, no VI Colóquio Internacional de Literatura e Gênero: decolonialidade e interseccionalidade, promovido pela Universidade Estadual do Piauí, no Brasil, de modo muito franco dissera que escrevia suas poesias “para exorcizar seus próprios fantasmas”, em decorrência das muitas dores, das muitas angústias por estar ao mesmo tempo muito longe, muito fora e muito dentro de seu país. O conjunto de poemas contidos no livro foi escrito em um período de pouco mais de dez anos e dão uma ideia dos vários trânsitos percorridos por Abrahamsson, fruto dos deslocamentos por ela realizados por conta das exigências da vida profissional e das escolhas pessoais condicionadas por sua trajetória. Alguns dos espaços, conforme informações ao final de vários dos poemas, podem ser enumerados: Phnom Phen (Camboja), Bissau (Guiné-Bissau), Estocolmo (Suécia), Maputo (Moçambique), Nicarágua. Os poemas originados dessa ampla e longa trajetória vazam, em profundo lirismo, reflexões sobre raízes, memórias, busca incessante pela identidade da própria poetisa e da coletividade, sonhos, desejos, angústias, frustrações, indignação com os rumos da nação, dentre outros temas. À título de ilustração dessa vastidão temática pode ser observado o poema “Pindjiguiti”:

É fim de tarde, fui ao Pindjiguiti ver o mar.

As ondas balanceavam preguiçosamente contra as velhas barcaças há

muito abandonadas à sua sorte

Levo uma flor nas mãos, lágrimas nos pés de tanto caminho percorrido e

tantos passos perdidos

Olho por entre as ondas vislumbro sombras que vagueiam entre a miséria

construída, pedra a pedra, com o requinte próprio dos

que nada sabem fazer

Um som distante vem do mar, uma voz surda,

com raiva atravessa a ponte do cais

Tudo se move sem pressa ao sabor do tempo. Tempo este que a crueldade

dos meus irmãos deixou fugir

Como um eco que retorna ao ponto de partida olho para o lugar onde o

mar parou e a vida nos abandonou. Tudo se despedaça na arte de um

eterno desencontro

Amores sem teto nem afeto ancorados num porto

sem horários de partida nem chegada

Com o olhar fixo nas ondas que me fogem revejo os passos que deixamos

de dar, vejo a imensidão das horas convertidas em vazios.

Com o olhar correndo sobre as águas do Geba recordo o canto de

Esperança que um dia, lá muito longe, vinham das paredes da nossa casa

Voltei para casa com o mar nos olhos e o coração derramando vazios.

                                                                            Bissau, Junho 2017 (Abrahamsson, 2021, p. 11).

De acordo com a própria Abrahamsson (2022), “Pindjiguiti é o nome de um lugar na capital onde os portugueses cometeram um massacre contra os trabalhadores portuários. E foi dali que surgiu a luta armada para a independência.”

Pode-se concluir que não faltam a Helena Neves Abrahamsson, como poderá constatar a leitura atenta dos poemas reunidos em Fora di nos, traços apontados por um dos principais nomes do sistema literário da Guiné-Bissau, o escritor Abdulai Sila (2025, p. 31), para o qual “[...] é importante reconhecer que muitos escritores, músicos e artistas – demonstrando coragem e criatividade notáveis ao abordar temas sensíveis [...] têm conseguido afirmar-se com independência e coerência.”

De uma escrita mobilizada pela dor, mas, ao mesmo tempo, agenciadora da esperança em ser possível alcançar um país com desigualdades mitigadas, nenhuma pessoa que se aventure a ler o volume inaugural de Helena Neves Abhahamsson, mulher guineense, voltará “igual”, como bem alertara Rita Ié (2021, p. 3).

Resta aceitar o desafio!

Viçosa e Belo Horizonte, outubro de 2025.

Referências

ABRAHAMSSON, Helena Neves. Contos e estórias com Helena Neves Abrahamsson: [entrevista no Centro Cultural de Cabo Verde]. 25 de março de 2022. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=P93y4k74o5g. Acesso em: 28 out. 2025.

ABRAHAMSSON, Helena Neves. Fora di nos: nhara sikidu – textos poéticos. Lisboa: Nimba Edições, 2021. 65 p. (Coleção Poesias, contos & prosas).

AUGEL, Moema Parente. Expressão feminina na literatura guineense: novas autoras: novos desafios. In: LEAL, Luciana Brandão; CARVALHO, Wellington Marçal de; ALVES, Roberta Maria Ferreira. (Org.). Afrodicções: poesias de Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. [2025]. No prelo. v. 2.

COLÓQUIO INTERNACIONAL DE LITERATURA E GÊNERO. Mesa 03: Conversas com as escritoras: Ana Mafalda Leite, Olinda Beja, Helena Neves Abrahamsson, Eileen Barbosa; Geni Mendes (Mediadora). Teresina – PI (online). 1º de junho de 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PHJwtzvQk9I&t=4035s. Acesso em: 28 out. 2025.

EYRÉ, Xosé M. Crítica literária [de Fora di nos]. 25 de agosto de 2022. Disponível em: https://nimbartgallery.com/2022/08/25/critica-literaria-de-xose-m-eyre-membro-da-asociacion-galega-da-critica-ao-livro-fora-di-nos/. Acesso em: 28 out. 2025.

IÉ, Rita. Prefácio. In: ABRAHAMSSON, Helena Neves. Fora di nos: nhara sikidu – textos poéticos. Lisboa: Nimba Edições, 2021. p. 2-3. (Coleção Poesias, contos & prosas).

SILA, Abdulai. “Os critérios da crítica literária eurocêntrica determinam quem é publicado, quem recebe prêmios e quem é traduzido”: diálogo com Cláudio Fortuna. Jornal Angolano de Artes e Letras. Luanda, quarta-feira, 22 de outubro de 2025, n. 313, ano IX. p. 28-31.

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* Doutor em Letras / Literaturas de Língua Portuguesa (PUC Minas). Pós-doutor em Estudos Literários (FALE/UFMG). Pesquisador filiado ao Centro de Estudos Africanos / UFMG. Bibliotecário. Vice-Diretor da Biblioteca Universitária / Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal de Minas Gerais. Integra os grupos de pesquisa GEED/UFVJM/UNILAB/CNPq e NERSI/ECI/UFMG. Integra a Comissão editorial do literÁfricas (http://www.letras.ufmg.br/literafro/literafricas). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..


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