O rio infinito, de Mia Couto:
literatura infantil moçambicana e sua contribuição para o respeito às diferenças culturais
Érica Luciana de Souza Silva*
Já no sistema cosmológico, não há refluência. A água não reflui, ela transflui e, por transfluir, chega ao lugar de onde partiu, na circularidade. Ou seja, ela vai na correnteza, encontra outras águas, fortalece-se na correnteza, mas ao mesmo tempo evapora, percorre outro espaço, em forma de nuvem, e chove. A chuva vai para outros lados, mas também volta para as nascentes. As nascentes saem do Cerrado e vão confluindo. Confluindo e transfluindo, elas também evaporam e retornam em forma de chuva. Elas vêm na circularidade. Transfluem e confluem, mas não refluem. Na transfluência não há volta, porque ela é circular. Ao mesmo tempo que algo vai, fica; ao mesmo tempo que fica, vai – sem se desconectar.
(Antônio Bispo dos Santos – Nego Bispo)
O estudo de textos da literatura infantil escrita por africanos e negros naturais do Brasil ou em diáspora envolve os mesmos conflitos e reflexões presentes nas literaturas africanas, afrodescendente e afro diaspóricas destinadas a adultos. A partir dessa consideração, o livro infantil O rio infinito (2025), do escritor Mia Couto e com ilustrações de Danuta Wojciechowska será aqui resenhado.
Mia Couto é natural da cidade de Beira, em Moçambique, e autor de romances da literatura para adultos, bem como de textos voltados para a literatura infantil. Couto é conhecido por obras como Terra sonâmbula (1992), Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2002), o livro de contos O fio das missangas (2009), entre outros. Todos voltados para o público adulto. Seu primeiro livro infantil foi O gato e o escuro foi publicado em 2001. Os livros abordam questões relacionadas ao medo, ao imaginário de seu país e à natureza.
Danuta Wojciechowska é natural de Trois-Rivières, no Quebec, Canadá. Danuta Wojciechowska é formada em Design de Comunicação pela Escola Superior de Design de Zurique. Dedica-se ao design e à ilustração de livros infantis e projetos pedagógicos. Em 2003, recebeu o Prémio Nacional de Ilustração. Em 2004, foi premiada pelo melhor livro ilustrado do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Em 2014, foi-lhe atribuída a distinção “Mulheres Criadoras de Cultura” pelo Governo de Portugal.
Destaca-se a participação da ilustradora nessa resenha, pois, em literatura infantil, a ilustração faz parte da compreensão e interpretação textual. São duas linguagens conjugadas, verbal e não verbal, para que a compreensão do leitor infantil seja plena.
O rio infinito traz a história de uma família que vivia em uma pequena aldeia, composta pela mãe, Kianda, o pai, Kalunga, e os três filhos pequenos. Na narrativa, a mãe sai para cultivar alimentos, o pai permanece em casa e, durante a noite, ele cria esculturas com o material que os filhos recolhiam na margem do rio. Eram árvores que foram arrastadas pela correnteza e que ficavam ali depositadas.
Durante a madrugada, as peças acordavam e ganhavam vida: “[...] essas esculturas de madeira ganhavam vida própria como se as mãos do pai escrevessem cartas nos veios da madeira.” (Couto, 2025, p. 9). E assim a narrativa transcorre, até o momento em que o dia não nasce mais e a terra fria é tomada pelo escuro. A família achava que era o fim do mundo. Nesse momento, a mãe, Kianda, pensa: “É preciso contar histórias às nossas crianças” (Couto, 2025, p. 11).
Surge, nesse momento, a necessidade de alimentar as crianças com contos. Mas esses estavam esgotados e, mais uma vez, Kianda sai mundo afora em busca de novas histórias para seus filhos. Sua jornada é intensa e a solução é encontrada no fundo do mar. A mãe negocia com os habitantes do fundo do oceano uma troca de histórias: Kianda deveria trazer algo de interessante de seu mundo, e os habitantes do fundo do mar contariam as histórias.
Kianda leva para o fundo do oceano as esculturas do marido e traz consigo um enorme búzio que contava inúmeras histórias, bastando apenas colocá-lo no ouvido. Era um sussurro que encantou os meninos:
Os meninos ouviam o mar, o rio de todos os rios, o primeiro de todos os ventres. Nessa escuta, eles atravessaram a fronteira que separa a água e a luz, que é a mesma que separa o sonho e a vida. Eles sabiam onde se esconde o novelo do tempo. (Couto, 2025, p. 26). Grifos meus.
A pequena história traz reflexões que, como apontada anteriormente, são comuns nos textos de literaturas africanas para adultos. Destacam-se aqui três elementos que serão apresentados brevemente: a função da mulher nas culturas africanas, a oralidade na manutenção de culturas e valores sociais e a confluência entre comunidades distintas.
Nas famílias tradicionais ocidentais, o espaço público, geralmente, é do homem. Cabe a ele trazer o sustento para toda a família. Em troca, a mulher lhe é submissa, grata pelo sustento. A ela é reservado o espaço privado do lar, o cuidado com os filhos e com a casa, o que cerceia a sua locomoção e promoção na sociedade. Este cenário vem sendo alterado, mas, ainda hoje, as mulheres encontram muitos obstáculos para ocuparem esse espaço. Dentre eles, cita-se a remuneração diferente para cargos com a mesma função, os inúmeros assédios e, por fim, o feminicídio que, infelizmente, tem alcançado índices alarmantes.
Em O rio infinito, há uma inversão nessa estrutura quando a mulher Kianda é quem sai de casa para produzir alimentos e, posteriormente, é ela quem busca a solução para o suposto fim do mundo. Enquanto isso, o marido Kalunga fica em casa com as crianças e produz esculturas em madeira. Contudo, não há subserviência. O trabalho do marido é tão importante para salvar o mundo quanto a jornada de Kianda, pois é a partir das esculturas construídas pelo marido que a esposa obtém o búzio contador de histórias. Os trabalhos de Kianda e Kalunga se completam e harmonizam o mundo da pequena tribo.
O segundo destaque se refere à oralidade, que é elemento crucial nas sociedades africanas. Antes de analisar as práticas orais presentes na história de Mia Couto, faz-se necessário ratificar que as sociedades constituídas tendo como base a oralidade assim o são por opção e não por deficiência ou incapacidade. Em muitas delas há a presença da escrita, que pode ser verificada por meio do registro de alguns documentos e tratados. A opção pela oralidade se dá pelo fato de que o contar histórias é voltado para a propagação de saberes a um grupo de pessoas.
Ao redor da fogueira, o contador de histórias repassa os valores e conhecimentos, bem como as sabedorias e culturas para os mais jovens. Nesse contexto, a figura do “mais velho” é elemento primordial, pois reúne conhecimentos de uma vivência e tem a função de não os deixar morrer. Não transmitir os conhecimentos pela via oral é uma das formas de matar cultural e socialmente uma comunidade.
Mia Couto traz todas essas referências para seu texto infantil. Kianda, como a representante do lar que sai de casa e retorna todos os dias, é a primeira a ter a percepção de que o fim do mundo, na verdade, é o fim da comunidade e dos seus valores culturais. A solução é apenas uma: contar histórias para as crianças. Inundá-las de conto. Na citação anterior, os grifos realizados destacam os vocábulos que remetem ao ato de contar e ouvir histórias: ouvir, escutar.
A contação de histórias é a transmissão dos saberes, por isso é tão simbolizando, no livro, a jornada em busca de conhecimentos. O búzio gigante que reproduz inúmeras histórias é mais um importante elemento nesse contexto. Além de reforçar o valor da oralidade tanto na terra, quanto no mar, ele também representa a união de mundos e vivências diferentes e a comunhão que pode haver entre eles. Corroborando com as ideias aqui apresentadas, Ana Mafalda Leite, em seu artigo “Vozes, mito e língua: Vozes anoitecidas, de Mia Couto” (2012), faz a seguinte afirmação sobre a importância da oralidade em comunidades africanas:
[...] a língua é um dos meios escolhidos para recuperar a mundividência mítica, as marcas culturais da oralidade da sociedade tradicional, o onirismo e a simbólica a ela ligadas, numa palavra, a relação empática entre o homem, a natureza e a comunidade. (Leite, 2012, p. 41)
Enquanto a escultura de Kalunga revela aos habitantes do fundo do oceano uma realidade que eles desconheciam, o búzio gigante conta outras novas histórias. Um mundo alimenta a realidade e a vivência do outro mundo, respectivamente. Em comunhão, concordância e respeito, as duas realidades se tocam, se modificam e modificam aqueles que estão em contato com elas. Sem sobreposições e dominações, mas em comunhão, diálogo e respeito.
Ainda buscando compreender o processo de interação entre o mundo da pequena aldeia e o fundo do oceano, tem-se a “Poética da Relação”, de Édouard Glissant. Em Introdução a uma poética da diversidade (2005), Glissant traz as metáforas de raiz única e raiz que se espalha em todas as direções.
A raiz única é aquela que cresce em uma única posição vertical. Ela ignora tudo ao seu redor e se sobrepõe às demais raízes. A raiz que cresce em todas as direções se espalha pela horizontalidade, entra em contato com outras raízes, que também estão em horizontalidade. Elas entram em comunhão, sem sobreposições. Uma respeitando as diferenças da outra e gerando uma terceira raiz com elementos da primeira, da segunda e de quantas raízes estiverem na relação. Todas elas conhecedoras que a nova raiz não é a primeira, nem a segunda, nem nenhuma das que entraram na relação, mas, ao mesmo tempo, tem um pouco de todas.
É o que Nego Bispo em A terra dá, a terra quer (2023) denomina de confluência:
Quando ouço a palavra confluência ou a palavra compartilhamento pelo mundo, fico muito festivo. Quando ouço troca, entretanto, sempre digo: “Cuidado, não é troca, é compartilhamento”. Porque a troca significa um relógio por um relógio, um objeto por outro objeto, enquanto no compartilhamento temos uma ação por outra ação, um gesto por outro gesto, um afeto por outro afeto. E afetos não se trocam, se compartilham. Quando me relaciono com alguém, recebo uma recíproca desse afeto. O afeto vai e vem. O compartilhamento é uma coisa que rende. (Bispo dos Santos, 2023, p. 36)
Quanto à ilustração, ela é elemento crucial na interpretação e compreensão da história narrada para os pequenos. Sobre esse assunto, Heloísa Pires Lima (2008) faz a seguinte afirmação: “a literatura infanto-juvenil é um espaço de significações, aberto às emoções, ao sonho e à imaginação” (Lima, 2008, p. 97). O texto infantil desperta a emoção, o sonho e estimula a imaginação motivada pelo texto verbal, pelo contador da história e pelas ilustrações. A ilustração, no texto voltado para o público infantil, não possui apenas a característica de entretenimento. Acima de tudo, ela ajuda a contar a história por meio dos estímulos visuais.
Em O rio infinito, Wocjicechowska contribui para a remontagem do contexto da história ao optar por cores terrosas (amarelo, alaranjado, vermelho tijolo e marrom) para expressar o mundo da aldeia. Quando Kianda inicia sua jornada, as cores terrosas são conjugadas, paulatinamente, com os tons azulados que se acentuam à medida que se aproxima do fundo do oceano. No fundo do mar, há uma retomada das cores terrosas, apontando a interação entre os dois mundos. No início da narrativa, as esculturas, bem como o material de que são feitas, possuem a tonalidade azul que, ao final da narrativa, o leitor percebe que aquele material é o vínculo entre os dois mundos, assim como a cor do búzio gigante.
Há uma leve corrente de ar azulada que liga as esculturas e o búzio gigante, apontando a confluência e a relação de horizontalidade entre os dois mundos, suas histórias, culturas e valores. A última ilustração é uma abundância de cores quentes, especialmente o amarelo e o alaranjado. Nesse fundo quente há a silhueta de animais e pessoas com tons azulados e tons terrosos. Mais uma vez, a ilustradora soube traduzir por meio da linguagem não-verbal, o que Mia Couto concebe como interação entre mundos que, aparentemente, são opostos (terra e água).
O rio infinito desperta o olhar do leitor para um mundo sem fronteiras preconceituosas, sem que haja a necessidade de submissão de um povo ao outro. Uma excelente obra para trabalhar o respeito às diferenças e aos diversos valores junto aos pequenos.
Juiz de Fora, fevereiro de 2026.
Referências
BISPO DOS SANTOS, Antonio. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/PISEAGRAMA, 2023.
COUTO, Mia. O rio infinito. Ilustrações Danuta Wojciechowska. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2025.
Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB). República Portuguesa. Biografia de Danuta Wojciechowska. Disponível em http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=6676, em 18/02/2026.
GLISSANT, Édouard. Introdução a uma poética da diversidade. Trad. Enilce do Carmo Albergaria Rocha. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.
LEITE, Ana Mafalda. Oralidades & escritas pós-coloniais: estudos sobre literaturas africanas. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2012.
LIMA, Heloísa Pires. Personagens negros: um breve perfil na literatura infanto-juvenil. In: MUNANGA, Kabengele (Org.). Superando o racismo na escola. 2. Ed. Brasília: MEC, Secretaria de Educação Continuada, 2008.
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* Doutora em Letras: Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Docente no Instituto Federal Fluminense (IFF). Membro dos grupos de pesquisa Grupo de Estudos e Estéticas Diaspóricas (GEED/ literÁfricas) e Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade (NEIA/UFMG). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..