O acumulador de João Melo

Rogério Faria Tavares*

 

 Nascido em Luanda, Angola, em 1955, João Melo formou-se em Direito em Coimbra, Portugal, e fez o Mestrado em Comunicação e Cultura no Rio de Janeiro. Jornalista, atuou na Rádio Nacional de Angola, no Jornal de Angola e como correspondente no Brasil da Agência Angolana de Notícias. Gestor público, foi ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social. Está entre os fundadores da União dos Escritores Angolanos e da Academia Angolana de Letras e Ciências Sociais. Embora tenha começado a escrever aos quinze anos, lançou seu primeiro livro, Definição, de poemas, apenas em 1985, quando completou trinta anos - e nunca mais parou. O acumulador (Editora Caminho, 135 páginas) é seu oitavo volume de contos, entre os vinte e sete títulos publicados sob sua autoria.

Entre os temas recorrentes de suas narrativas breves, estão reflexões apuradas sobre a sociedade e o Estado em seu país, e questões ligadas à identidade, à raça e às relações de gênero, como se pode constatar nas sete histórias apresentadas em O acumulador. 

Na primeira, “Quatro recordações da infância”, em dicção lírica, o narrador relembra algumas das cenas que marcaram seus anos de formação, vendo a passagem do tempo como vantagem, já que traz a liberdade de especular. A atração sexual aparece em meio a ‘confusos sentimentos’ e ‘obscuros desejos’, marcando o início da era das descobertas, ‘doce rubicão que todos atravessamos’. Aqui, o sujeito quase sempre político da prosa de João Melo dá lugar ao particular, dono de percursos muito pessoais, portador de memórias, sonhos e dores. 

No conto que dá nome ao livro, os leitores são apresentados ao ‘acumulador’, um indivíduo tido como pragmático, brutal e chocante, que se dedica exclusivamente à tarefa da acumulação primitiva do capital. Pela descrição de sua conduta e de suas ações, é possível identificar um ‘tipo nacional’ bastante comum na Angola pós-independência: o daqueles que só querem se aproveitar de toda oportunidade que aparece e que não se preocupam com nada além de seus interesses econômicos, permanecendo indiferentes a ideologias, valores ou princípios de ordem política ou moral. 

“Uma combinação espúria” é mais uma oportunidade para que o narrador retrate um personagem bastante conhecido dos angolanos, em tom crítico e irônico. Nascida na pobreza, Florinda Catchiungo possui dotes suficientes para transformar um poderoso ministro em seu amante, dele ganhando até um ‘palácio’, o ‘refúgio espúrio da paixão’ entre os dois. O desfecho do enredo, surpreendente, não é favorável à mulher, que se verá envolvida em caso de dimensão internacional. 

Em “Breve história do Doutor Cunha”, o narrador de novo expõe à apreciação do público a trajetória de um elemento certamente muito familiar aos angolanos. De família privilegiada, o protagonista e seus ascendentes sabem lidar, muito habilmente, com distintos regimes políticos, movendo-se argutamente entre os vários cenários institucionais que marcaram Angola desde o século passado, inclusive depois de 1975 (‘souberam interpretar os sinais do tempo’): “Como nacionalista e revolucionário, o doutor Cunha ocupara uma série de cargos importantes depois da independência. A culpa não era dele, ele apenas estava no lugar certo à hora certa”. Quando as novas gerações começam a ganhar preferência na ocupação dos postos de poder, o doutor Cunha precisará empregar o seu ‘irrepreensível sentido prático’... 

“Uma simples história de amor” focaliza sobretudo as relações de gênero e os costumes próprios ao matrimônio em Angola. Machista e homofóbico, Nzuzi Maria é casado com Isabel, com quem tem duas filhas. Mas quer muito ter um ‘filho varão’, precisando, para tanto, de outra mulher, ante a negativa da esposa em engravidar novamente. É aí que aparece Engrácia, com quem o casal formará inusitado triângulo, em trama de final inesperado. 

“A encruzilhada” é certamente o conto que aborda explicitamente a história política do país, fazendo referências diretas aos movimentos de independência que atuaram em Angola, com o MPLA, a FNLA e a UNITA. Quem conduz o fio da história é José Antônio Ferreira da Cruz, o Zé Tó, que, desde menino, costumava ir toda semana com o pai até uma misteriosa encruzilhada a cerca de meia hora de sua casa... 

“Os pesadelos do Grande Muata” gira em torno de um líder político forte e poderoso que acaba caindo na boca do povo, na Internet e nas redes sociais. Atormentado, começa a ter falta de sono e a preocupar-se... 

De leitura sempre agradável e fluida, permeada por refinado humor, O acumulador é, portanto, fonte saborosa para quem quiser penetrar nos mistérios de Angola e consagra João Melo como um sagaz retratista da paisagem humana e do tempo histórico que lhe tocou testemunhar.

 

Belo Horizonte, março de 2026.

Referência

Melo, João. O acumulador. Alfragide, Portugal: Caminho, 2024.

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* Jornalista. Doutor em Literatura. Presidente Emérito da Academia Mineira de Letras.

 

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