CÁLICE SAGRADO
Sol de Paula
Em uma quarta-feira me sentei no chão entre suas pernas.
Como quem acaba de ser parido. Como quem anseia pelo corte do umbigo.
Ouvi suas histórias de acalanto e fui embalada pela sinfonia de sua doce voz.
Suas palavras mágicas e belas envolviam o meu corpo tal qual um abraço reparador.
Naveguei pelo seu líquido amniótico com o quem enfrenta a imensidão do Atlântico
resistindo ao seu opressor.
Aos poucos fui sendo preparada para enfrentar o mundo.
Fui percebendo os sons; o choro; as rezas; as lendas; a fúria das marés.
Fui sentindo o gotejar salgado das lágrimas que escorriam de sua face e adoçavam a minha boca sedenta por memórias, preenchendo-me de garra para modificar a história.
O cenário foi sendo iluminado e contemplado pelas minhas retinas.
Voltei a ser menina e você, o meu abrigo quente.
Aproximei-me do seu portal sagrado, do seu cálice libertador como o filho que, ao sair do templo, mais se aproxima de sua sacralidade sem medo da dor.
Senti suas mãos desembaraçando os meus cabelos, destecendo teias e costurando os fios condutores de nossa existência.
Escorriam da sua boca bendita saberes iluminados pelo reencontro com o seu fogo
sagrado.
Minha Mãe Terra, preta, repleta de rara beleza, carregada da sutileza do viver em cada palavra-oração, preenche meus caminhos em duração à força ancestral com os toques dos tambores ecoados em seu coração.
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