Thaíse Santana

A cura

Quando me descobri água
lavei meu corpo
a minha casa
te arranquei de mim
eu que sempre fui rio
ao te ver virei represa
água contida
mas refiz o caminho
nas minhas águas de rio
lavei a ferida
me vi curada.

(Mulher-Palavra, 2021)

II

 

Minha imagem é geografia das nossas memórias

(lá) luz plana sobre o Índico

(aqui) teu silêncio

(nessa foto da Bahia) meu olhar macambúzio,

meu punho cerrado

onde guardo a Macala em brasa

que te ofereço:

segura

CÁLICE SAGRADO

Sol de Paula

Em uma quarta-feira me sentei no chão entre suas pernas.

Como quem acaba de ser parido. Como quem anseia pelo corte do umbigo.

Ouvi suas histórias de acalanto e fui embalada pela sinfonia de sua doce voz.

Suas palavras mágicas e belas envolviam o meu corpo tal qual um abraço reparador.

Naveguei pelo seu líquido amniótico com o quem enfrenta a imensidão do Atlântico

resistindo ao seu opressor.

Aos poucos fui sendo preparada para enfrentar o mundo.

Fui percebendo os sons; o choro; as rezas; as lendas; a fúria das marés.

Fui sentindo o gotejar salgado das lágrimas que escorriam de sua face e adoçavam a minha boca sedenta por memórias, preenchendo-me de garra para modificar a história.

O cenário foi sendo iluminado e contemplado pelas minhas retinas.

Voltei a ser menina e você, o meu abrigo quente.

Aproximei-me do seu portal sagrado, do seu cálice libertador como o filho que, ao sair do templo, mais se aproxima de sua sacralidade sem medo da dor.

Senti suas mãos desembaraçando os meus cabelos, destecendo teias e costurando os fios condutores de nossa existência.

Escorriam da sua boca bendita saberes iluminados pelo reencontro com o seu fogo

sagrado.

Minha Mãe Terra, preta, repleta de rara beleza, carregada da sutileza do viver em cada palavra-oração, preenche meus caminhos em duração à força ancestral com os toques dos tambores ecoados em seu coração.

 

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IV

 

Macala é o mineral da minha língua

onde apoio minha força,

 

guardo saudade entre meus anéis,

sustento a fé no volume de minha saia,

nos símbolos do meu balangandã

 

machados de ferro de esculpir coragem

gritam aos meus ouvidos:

ergue a cabeça

 

Guiniver

Deixa Girar

Cigana cingida
de preto e vermelho
Na encruza
com mão na cintura
Tirando sorte no baralho
Senhora das forças ocultas
Silenciando o luar, o olhar
Tramando palavras soltas no ar
Mandingueira,
preta matreira
Cruzada nas águas
Pisa firme na tronqueira
Ponta na madeira
Salva de Palmas

(Infinito Rubro-Carmim, 2019)