A Ilha dos Frades

 

Eu me senti quase feliz ao avistar a Ilha dos Frades. Uma felicidade que talvez pudesse ter sido chamada de alívio, como aconteceria várias outras vezes em minha vida. Por causa da beleza da ilha, fiquei impressionada com as cores, com o ar, com as novas sensações, com a esperança de tudo nem ser tão ruim assim. Ao subir as escadas do porão e ver primeiro o céu azul, depois a luz do sol quase me cegando, fazendo com que os outros sentidos ficassem mais aten­tos. Tive vontade de nascer de novo naquele lugar e ter comigo os amigos de Uidá. Havia um murmúrio do mar, um cantaréu de passarinhos, homens gritando numa língua estranha e melodiosa. Nascer de novo e deixar na vida passada o riozinho de sangue do Kokumo e da minha mãe, os meus olhos nos olhos cegos da Taiwo, o sono da minha avó. O mar era azul e nos levava tranquilos até uma ilha que, de longe e de cima do navio, não parecia ter nada além de árvores e da pequena faixa de areia branca. Algumas pessoas festeja­ram, deslumbradas, esquecendo-se de que iam virar carneiros, mesmo que fossem carneiros do paraíso. Eu tentava imaginar o que o Akin diria se eu con­tasse sobre aquele lugar ou, melhor ainda, se ele visse tal lugar. Desembarca­mos do mesmo jeito que subimos a bordo, mas mandaram os homens na frente. Alguns saudaram a terra, saudaram a areia, batendo com a testa no chão. Os muçurumins pareciam não saber para que lado se virar e rezar, e demoraram olhando o céu até se decidirem, provavelmente baseados na posição do sol.

O sol estava quente e em pouco tempo já ardia na pele nua e acostumada à escuridão do navio, mas que ao mesmo tempo era refrescada pelo que parecia o vento harmatã, em África. Procurei o branco que queria a mim e à Taiwo como presente, mas não o encontrei, pois devia ter desembarcado assim que chega­mos. Para falar a verdade, acho que fiquei feliz por ele não me querer mais, porque assim podia ficar na ilha, junto com os outros. A Tanisha também estava feliz e me abraçou. Da praia, o Amari e o Daren acenaram para ela, que agrade­ceu por estarem todos vivos. Nós não víamos a hora de desembarcar também, mas, disseram que antes teríamos que esperar um padre que viria nos batizar, para que não pisássemos em terras do Brasil com a alma pagã. Eu não sabia o que era alma pagã, mas já tinha sido batizada em África, já tinha recebido um nome e não queria trocá-lo, como tinham feito com os homens. Em terras do Brasil, eles tanto deveriam usar os nomes novos, de brancos, como louvar os deuses dos brancos, o que eu me negava a aceitar, pois tinha ouvido os conselhos da minha avó. Ela tinha dito que seria através do meu nome que meus voduns iam me proteger, e que também era através do meu nome que eu estaria sempre liga­da à Taiwo, podendo então ficar com a metade dela na alma que nos pertencia.

O escaler que carregava o padre já estava se aproximando do navio, enquan­to os guardas distribuíam alguns panos entre nós, para que não descêssemos nuas à terra, como também fizeram com os homens na praia. Amarrei meu pano em volta do pescoço, como a minha avó fazia, e saí correndo pelo meio dos guardas. Antes que algum deles conseguisse me deter, pulei no mar. A água estava quente, mais quente que em Uidá, e eu não sabia nadar direito. Então me lembrei de Iemanjá e pedi que ela me protegesse, que me levasse até a terra. Um dos guardas deu um tiro, mas logo ouvi gritarem com ele, provavelmente para não perderem uma peça, já que eu não tinha como fugir a não ser para a ilha, onde outros já me esperavam. Ir para a ilha e fugir do padre era exatamente o que eu queria, desembarcar usando o meu nome, o nome que a minha avó e a minha mãe tinham me dado e com o qual me apresentaram aos orixás e aos voduns.

 

(Um defeito de cor, p. 62-64).

Serendipidades!

 

"You don’t reach Serendip by plotting a course for it.

You have to set out in good faith for elsewhere and lose

your bearings serendipitously”. 

John Barth, em The Last Voyage of Somebody, the Sailor (Nova York, 1991)

 

O uso da palavra serendipity apareceu pela primeira vez em 28 de janeiro de 1754, em uma carta de Horace Walpole (filho do ministro, antiquário e escritor Robert Walpole, autor do romance gótico The Castle of Otranto). Na carta, Horace Walpole conta ao seu amigo Horace Mann como tinha encontrado por acaso uma valiosa pintura antiga, complementando: "Esta descoberta é quase daquele tipo a que chamarei serendipidade, uma palavra muito expressiva, a qual, como não tenho nada de melhor para lhe dizer, vou passar a explicar: uma vez li um romance bastante apalermado, chamado Os três príncipes de Serendip: enquanto suas altezas viajavam, estavam sempre a fazer descobertas, por acaso e sagacidade, de coisas que não estavam a procurar... .

Serendipidade então passou a ser usada para descrever aquela situação em que descobrimos ou encontramos alguma coisa enquanto estávamos procurando outra, mas para a qual já tínhamos que estar, digamos, preparados. Ou seja, precisamos ter pelo menos um pouco de conhecimento sobre o que "descobrimos" para que o feliz momento de serendipidade não passe por nós sem que sequer o notemos.

Um defeito de cor é fruto da serendipidade. Ele não só contém uma história, como também é conseqüência de uma outra história que, depois de pensar bastante, percebi que não posso deixar de contar. Até poderia, mas, além de não estar sendo honesta, também estaria escondendo o que ajuda a fazer deste livro um portador de histórias especiais. A primeira destas histórias aconteceu em janeiro de 2001, dentro de uma livraria. Eu estava na seção de guias de viagem procurando informações detalhadas e ilustradas sobre a cultura, o povo, a história e, principalmente, a música de Cuba. Separando alguns guias para ver com calma, vários deles, como peças de dominó, caíram da prateleira, e consegui segurar apenas um, antes que fosse ao chão. Era Bahia de Todos os Santos - guia de ruas e mistérios, do Jorge Amado. Foi aí que aconteceu a primeira serendipidade. Na época, eu estava cansada de morar em uma cidade grande, cansada da minha profissão, tinha acabado de me separar e queria vida nova, em um lugar novo, fazendo coisas diferentes e, quem sabe, realizando um velho sonho: viver de escrever. Desde o dia em que o livro de Jorge Amado caiu nas minhas mãos, eu sabia que este lugar de ser feliz tinha que ser a Bahia.

Ainda na livraria, de pé diante da prateleira, abri Bahia de Todos os Santos e comecei a ler um prólogo chamado "Convite": "E quando a viola gemer nas mãos do seresteiro na rua trepidante da cidade mais agitada, não tenhas, moça, um minuto de indecisão. Atende ao chamado e vem. A Bahia te espera para sua festa cotidiana."

Na hora, tive a sensação de que ele tinha escrito aquelas palavras exata­mente para mim, o que foi virando certeza quando continuei correndo os olhos pelo doce e tentador convite. Bahia. A Bahia me esperava e Jorge Amado ainda estava vivo para me apresentar a ela. Num trecho mais adiante, ele mesmo dizia: "vem e serei teu cicerone." Eu só não tinha ainda a mínima idéia do que fazer na Bahia, mas quando o momento é de serendipidade, as coisas simples­mente acontecem. Foi por isso que, algumas páginas adiante, encontrei o seguinte texto:

"( ... ) Do Alufá Licutã, quem conhece o nome, os feitios, o saber, o gesto, a face do homem?

Comandou a revolta dos negros escravos durante quatro dias e a cidade da Bahia o teve como seu governante quando a nação malê acendeu a aurora da liberdade, rompendo as grilhetas, e empunhou as armas, proclamando a igualdade dos homens. Não sei de história de luta mais bela do que esta do povo malê, nem de revolta reprimida com tamanha violência.

A nação malê não era apenas a mais culta entre quantas forneceram mercadoria humana para o tráfico repugnante, em verdade os escravos provindos dessa nação alcançavam os preços mais altos, sendo não só os mais caros, tam­bem os mais disputados. Serviam de professores para os filhos dos colonos, as contas dos senhores, escreviam as cartas das iaiás, intelectual­mente estavam bem acima da parca instrução dos lusos condes e barões assina­lados e analfabetos ou da malta de bandidos degredados à longínqua colônia. O mais culto dos malês era o Alufá Licutã.

Levantaram-se os escravos, dominaram e ocuparam a cidade. Logo derrotados pelo número de soldados e pela força das armas, a ordem dos senhores furiosos foi matar todos os membros da nação malê, sem deixar nenhum. Homens, mulheres e crianças, para exemplo. Ordens executadas com requintes terríveis, para que o exemplo perdurasse. Assim aconteceu. ( ... ) Da revolta e do chefe pouco se sabe. No mais, o silêncio. É o caso de se perguntar onde estão os jovens historiadores baianos, alguns de tanta qualidade e coragem intelectual, que não pesquisam a revolta dos malês, não levantam a figura magnífica do chefe? ( ... ) Tema para estudos históricos que venham repor a verdade, redimir a nação condenada, ressuscitar o alufá, retirá-lo da cova funda do esquecimento na qual o enterrou a reação escravagista. Tema para um grande romance ...”

Acho que esqueci pelo chão os guias sobre Cuba, encantada com o que tinha acabado de descobrir, porque, apesar de não pertencer à categoria de “jovens historiadores baianos", estava claro que era para mim a provocação sobre escrever o romance. Durante quase um ano, por meio da internet, de telefonemas para a Bahia, de buscas em livrarias, bibliotecas, sebos, e de material emprestado, pesquisei sobre os malês, escravos muçulmanos, bravos, inteligentes, e que realmente tinham sido banidos da história. Até então eu nunca tinha ouvido falar deles. Aquele foi também um ano desesperador, porque tudo que eu queria era estar na Bahia, andando pelas ruas por onde os malês tinham andado, entrando nas igrejas onde eles tinham entrado, nadando no mar no qual eles tinham nadado, pois tinha certeza de que, se não estivesse in loco, o livro não sairia. Eu acreditava que alguma coisa no ar da Bahia me faria ouvi-los e senti-los, muito mais do que apenas conhecê-los. Mas não tinha como ir, não tinha dinheiro nem trabalho para me sustentar por lá.

Exatamente um ano depois daquele fortuito encontro com Bahia de Todos os Santos, finalmente fui conhecer Salvador. Para falar a verdade, apenas para poder dizer que já tinha estado lá antes de despachar a mudança. Já havia passado alguns dias em Salvador, procurando lugar para morar, quando resolvi conhe­cer a Ilha de Itaparica. Saí para caminhar pela Praia do Duro, em Mar Grande, e fui parar em Gamboa, atraída por um tronco de árvore que se vê de longe, não só pelo tamanho, que é considerável, mas também pelo inusitado de estar "plantado" na areia. Parei para olhá-lo de perto e percebi que um homem tam­bém me olhava, sentado no muro de uma casa bem em frente ao tronco. Ele percebeu meu interesse e se aproximou, contando que estávamos diante do que tinha sido a "Árvore do Amor", nascida ali mesmo, na areia, em condições adversas e transformando aquele trecho da praia em um famoso ponto de en­contro dos enamorados da ilha, e por isso o nome. Ali, casais se entregavam ao amor e, talvez estimulados pela natureza, pela sombra frondosa da árvore, pela tranqüilidade e beleza do mar, pela magia da ilha, costumavam ultrapassar os limites do recato dos veranistas que, a partir da década de 1970, invadiram a ilha com magníficas casas à beira-mar. A Árvore do Amor então começou a definhar - dizem que envenenada por uma veranista mais pudica e insensível - até que tombou. Mas tinha resistido bravamente antes de morrer, pois du­rante anos o tronco ainda deu galhos e folhas, até secar de vez e se tornar o que eu estava vendo.

Apaixonei-me por aquela história, e talvez para que o homem conversasse um pouco mais comigo e contasse outros detalhes sobre a árvore, perguntei se ele não sabia de alguma casa por ali que estivesse para alugar. Qual não foi a minha surpresa quando ele me indicou a casa ao lado, que eu ainda não ti­nha percebido, mas era linda, escondida atrás de um jardim bem cuidado, abraçada por amplas varandas e iluminada pela claridade que entrava por enor­mes portas envidraçadas e emolduradas de vermelho. O homem ainda disse que eu poderia falar com o caseiro, que por sinal estava por lá naquela hora. Conheci a casa, que por dentro era ainda mais fascinante, grande para as mi­nhas necessidades, mas perfeita para os meus sonhos de morar em um paraíso onde tivesse tempo e sossego para escrever o livro sobre os malês. Peguei o número do telefone do proprietário, com quem falei várias vezes, até chegar­mos a um preço que eu pudesse pagar.

Antes de voltar para Salvador, ainda naquele dia e enquanto esperava a balsa, que sairia aproximadamente uma hora mais tarde, resolvi conhecer a igreja e aproveitar para agradecer a descoberta daquela casa, que eu já considerava minha próxima morada. A igreja era pequena, mas muito bonita e bem cuidada, o que me fez ter vontade de fazer algumas fotos. Mal tirei a câmera da bolsa, apareceu ao meu lado uma menina, que disse adorar fotografias e que estava com a mãe, encarregada da limpeza. Ela era simpática e esperta, me acompanhou pela igreja, contando quem eram os santos que estavam nos nichos e história de cada um deles, e me mostrou os melhores ângulos para as fotos, pedindo depois que eu tirasse uma fotografia dela. Quando eu já ia bater a foto, ela pediu que esperasse e foi chamar a mãe, que estava limpando a sacristia. A mulher apareceu dizendo que a filha adorava tirar fotografias e que, justamente naquele dia, estava fazendo aniversário; a foto seria um grande presente para ela. Tiramos várias, da menina sozinha, da mãe, das duas juntas, em pé, sentadas nos bancos e na cadeira do padre. Perguntei como eu faria para entregar as fotos, e a mulher me ditou um endereço que achei ser brincadeira, algo como “rua da praça, sétima casa depois da farmácia”. Mas não era, e logo eu teria um endereço como aquele. Anotei em um papel qualquer e nunca mais me lembrei de onde o guardei, se é que guardei, pois, morando na ilha, eu poderia ir até a igreja pessoalmente.

Voltei para Salvador, onde fiquei mais alguns dias, e depois fui até São Paulo, permanecendo apenas o tempo necessário para arrumar minhas coisas e pegar o avião de volta, em definitivo. Eu me mudei para a Bahia em março de 2002, e durante mais de sete meses fui a feliz moradora da casa de portas e janelas vermelhas, ensolarada e colorida, na Ilha de Itaparica, "Praia de Gamboa, Rua da Praia, s/n, fundos com Rua da Igreja”, até que um assalto me fez ficar com medo de continuar morando lá, e me mudei para um flat em Salvador. Mas esta é outra história, e antes dela muitas coisas aconteceram. Nos primeiros dias na ilha, nem pensei em trabalhar; estava tão feliz por morar naquele lugar maravilhoso que passava horas e horas caminhando pelas praias, pelas ruínas, pelos fortes e pelas ilhas vizinhas. Acho que nunca tinha sido tão feliz, acreditando ter encontrado o meu paraíso na terra. Mais de um mês depois, achei que já era hora de começar a escrever a história dos malês, que, afinal, tinha o real motivo da minha mudança. Com idas semanais a Salvador, encontrei muito material para pesquisa. Aliás, comecei a achar que era material demais e a acreditar que muito mais gente, além de mim e antes de mim, tinha aceitado o convite de Jorge Amado e produzido páginas e páginas sobre os malês e as revoluções, coisas que ficavam apenas pela Bahia e não eram divulgadas no resto do país. Abandonei a ideia de escrever o livro sobre os malês, porque já não havia mais nada de novo a ser contado sobre eles, e escrevi Ao lado e à margem do que sentes por mim. Um romance misturando ficção e autobiogra­fia, que me ajudou a enumerar muitos questionamentos que eu vinha fazendo a respeito do amor, da vida, do passado, do futuro, das escolhas e das imposi­ções. Quando mais da metade desse livro estava pronta, aconteceu o assalto, e percebi que não teria mais tranqüilidade para continuar na ilha. Em menos de uma semana eu já estava morando em Salvador, e três meses depois coloquei o ponto final no romance. Foi então que aconteceu a mais feliz das serendipidades.

Como achei que não tinha mais nada para fazer na Bahia, já estava puxan­do o fio de uma história acontecida em São Luís, no Maranhão, tomando o cuidado de me informar sobre a quantidade de material produzido sobre ela, que era quase nada. Começando a providenciar a mudança, encontrei as fotos tiradas na igreja da ilha, das quais nem me lembrara durante todo aquele tem­po. Resolvi aproveitar para passar um fim de semana lá, para me despedir dos amigos e ir até a igreja, ver se encontrava uma das fotografadas, mãe ou filha. No sábado de manhã, encontrei a igreja fechada e, à tarde, estava sendo cele­brada uma missa. Quando terminou, não vendo nenhuma das duas, resolvi perguntar por elas a uma senhora que recolhia as velas e os paramentos. Mostrei as fotos e a senhora disse que as conhecia, indicando mais ou menos onde moravam, na praia de Amoreiras.

No domingo de manhã segui para Amoreiras, parando de vez em quando para perguntar e seguindo as indicações que me davam, até chegar a uma casa bastante simples, numa rua estreita, sem calçamento e sem saída. Elas logo se lembraram de mim, a pessoa que tinha tirado as fotos no dia do aniversário da Vanessa; era esse o nome da menina. Dona Clara, a mãe, me convidou para tomar um café e, quando entrei na sala, percebi uma inusitada mesa de centro, com o tampo de vidro sustentado por pilhas e pilhas de papéis e revistas. Elogiei, dizendo que era bom saber que alguém ali gostava muito de ler. Dona Clara disse que não era bem assim, que usava as revistas para apoiar o vidro da mesa, mas que também serviam para que as crianças recortassem figuras para algum trabalho de escola. Quanto aos papéis, o filho mais novo, de seis anos, usava-os para desenhar do lado em que ainda não tinham sido usados. Ela chamou o menino, que brincava no quintal, e pediu-lhe que me mostrasse os desenhos que fazia. Ele, Gérson, todo feliz com a platéia, correu para dentro da casa e voltou com folhas e mais folhas de desenhos. Nada de especial, mas olhei com atenção e até elogiei, pois, incentivado, o menino podia até melho­rar. Nunca se sabe onde estão escondidos os grandes talentos.

Virando um dos papéis, amarelado pelo tempo e que deixava vazar a escri­ta em caneta-tinteiro para o lado dos desenhos, percebi que parecia um docu­mento escrito em português antigo, as letras miúdas e muito bem desenhadas, uma escrita contínua, quase sem fôlego ou pontuação. A leitura daquela folha já estava bastante prejudicada, não só pela interferência do desenho do meni­no no lado oposto, mas também porque este parecia ter sido feito sobre uma superfície porosa, que bem podia ser o chão de cimento cru da sala, com os traços bastante calcados, fazendo com que a folha se rasgasse em alguns pon­tos. Peguei outro papel que tinha um desenho menor e, assim que o virei, a primeira palavra que consegui ler foi "Licutan". Surpresa, perguntei se eles sabiam quem tinha escrito aquilo, ao que dona Clara respondeu que não sa­bia, e que nem parecia escrito na nossa língua, pois a filha mais velha, a Rosa, que lia muito bem, tinha tentado ler, mas não conseguira. Eu disse que era a nossa língua sim, só que escrita de um modo antigo, e que provavelmente aquele documento era de uma época em que nenhum deles tinha nascido ainda. Dona Clara perguntou se eu conseguia ler e respondi que talvez sim, mas que teria que ser com calma. Perguntei onde ela tinha encontrado tais papéis, que fica­vam ainda mais fascinantes à medida que eu ia reconhecendo outros nomes, outras situações e alguns lugares que me remetiam à história dos malês. Ela então contou que tinha pegado os papéis, junto com algumas revistas, na Igre­ja do Sacramento, na vila de Itaparica, onde também fazia limpeza. Uma troca de padres levou o padre antigo a pedir que ela se desfizesse de tudo que estava guardado em um quartinho nos fundos da casa paroquial, e com dó de jogar fora, principalmente as revistas cheias de figuras, ela pediu permissão para le­var para casa. Quase tinha posto fogo nos papéis, mas se lembrou de que o Gérson vivia procurando papel para desenhar e que, quando não encontrava, desenhava até nas paredes.

Pedi ao Gérson que me mostrasse todos os papéis iguais àqueles que ele ainda tivesse, e era uma quantidade considerável, uma pilha de mais ou menos 30 ou 35 centímetros de altura. Perguntei se eles poderiam me emprestar aquilo tudo, pois eu queria tentar entender o que estava escrito ali, e dona Clara disse que eram meus, que eu nem precisava devolver. Gérson fez cara de protesto, e eu disse que daria a ele uma quantidade ainda maior de papéis, todos novinhos dos dois lados, e ainda canetas, lápis de cor, giz de cera, tintas, pincéis e tudo mais de que ele precisava para fazer muitos desenhos. O menino riu de orelha a orelha, mas não tanto quanto eu, que tinha certeza de ter encontrado ali muito mais do que ousara procurar. Perguntei a dona Clara quando ela levara aquilo tudo para casa, e ela disse que não tinha nem uma semana, que o padre novo nem tinha chegado ainda. Dei graças por não ter me lembrado de entregar as fotografias antes, porque, nesse caso, aqueles papéis teriam se perdido para sem­pre, nos costas dos desenhos de Gérson.

Quando fui embora, feliz com o meu tesouro, eles me pediram para voltar quando conseguisse ler tudo que estava escrito, para contar a história; e eu pro­meti que sim, que eles seriam os primeiros a saber. Mas voltei muito antes disso, logo no dia seguinte, com os materiais que tinha prometido ao Gérson. Acho que isto aliviou um pouco a minha consciência por estar tirando deles um docu­mento tão importante como aquele. Hoje já não penso mais assim, e foi por isso que resolvi contar aqui como tudo aconteceu. Acredito que poderia assinar este livro como sendo uma história minha, toda inventada - embora algumas par­tes sejam mesmo, as que estavam ilegíveis ou nas folhas perdidas, pois dona Cla­ra me contou que Gérson amassava e jogava fora os desenhos dos quais não gostava. Se eu me apropriasse da história, provavelmente a autoria nunca seria contestada, pois ninguém até então sabia da existência dos manuscritos, nem em Itaparica nem alguns historiadores de Salvador para quem os mostrei.

Depois de escrever e revisar este livro, entreguei todos os papéis a uma pessoa que, com certeza, vai saber o que fazer com eles. Mesmo porque esta pode não ser uma simples história, pode não ser a história de uma anônima, mas sim de uma escrava muito especial, alguém de cuja existência não se tem confirma­ção, pelo menos até o momento em que escrevo esta introdução. Especula-se que ela pode ser apenas uma lenda, inventada pela necessidade que os escravos tinham de acreditar em heróis, ou, no caso, em heroínas, que apareciam para salvá-los da condição desumana em que viviam. Ou então uma lenda inventa­da por um filho que tinha lembranças da mãe apenas até os sete anos, idade em que pais e mães são grandes heróis para seus filhos. Ainda mais quando observados por mentes espertas e criativas, como era o caso deste filho do qual estou falando, que nasceu livre, foi vendido ilegalmente como escravo, e mais tarde se tornou um dos principais poetas românticos brasileiros, um dos primeiros maçons e um dos mais notáveis defensores dos escravos e da abolição da escravatura. Um homem inteligente e batalhado que, tendo nascido de uma negra e de um fidalgo português que nunca o reconheceu como filho, conseguiu se tornar advogado e passou a vida defendendo aqueles que não ti­veram a sorte ou as oportunidades que ele tão bem soube aproveitar. O que você vai ler agora talvez seja a história da mãe deste homem respeitado e admi­rado pelas maiores inteligências de sua época, como Rui Barbosa, Raul Pompéia e Silvio Romero. Mas também pode não ser. E é bom que a dúvida prevaleça até que, pelo estudo do manuscrito, todas as possibilidades sejam descartadas ou confirmadas, levando-se em conta o grande número de coincidências, como nomes, datas e situações. Torço para que seja verdade, para que seja ela própria a pessoa que viveu e relatou quase tudo o que você vai ler neste livro. Não pela história, que não desejo a ninguém, e logo você vai saber por quê.

Bem, agora fique com a história que, conforme prometi, foi contada em primeira mão para dona Clara e sua família, em deliciosas tardes na praia de Amoreiras. Nunca é demais lembrar que tinham desaparecido ou estavam ile­gíveis várias folhas do original, e que nem sempre me foi possível entender tudo que estava escrito. Optei por deixar algumas palavras ou expressões em iorubá, língua que acabou sendo falada por muitos escravos, mesmo não sen­do a língua nativa deles. Nestes casos, coloquei a tradução ou a explicação no rodapé. O texto original também é bastante corrido, escrito por quem deseja­va acompanhar a velocidade do pensamento, sem pontuação e quebra de li­nhas ou parágrafos. Para facilitar a leitura, tomei a liberdade de pontuá-lo, dividi-lo em capítulos e, dentro de cada capítulo, em assuntos. Espero que Kehinde aprove o meu trabalho e que eu não tenha inventado nada fora de propósito. Acho que não, pois muitas vezes, durante a transcrição, e principal­mente durante a escrita do que não consegui entender, eu a senti soprando palavras no meu ouvido. Coisas da Bahia, nas quais acredita quem quiser...

Boa leitura!

Ana Maria Gonçalves

As sementes da descoberta flutuam constantemente à nossa volta, mas só lançam raízes nas mentes bem preparadas para recebê-las.

Joseph Henry

 

(Um defeito de cor, p. 9-17).

Capítulo XXI

Na fazenda do Tronco, dois fatos haviam quebrado a monotonia da casa-grande: o desaparecimento de Efigênia e a partida do coronel Galdino, acompanhado do vigário.

Dona Sinhá retomara subitamente a direção da propriedade. Em poucas horas com a cooperação de seu servilíssimo capataz restaurara o regime do chicote e do açoite. Na senzala corria um murmúrio acerca da nova situação criada com a saída intempestiva do coronel. Dona Sinhá tomou conhecimento do vozerio, que corria e tratou de disciplinar a troça com uma leve advertência. Chamou o João e mandou exemplar o Carlos, um negro cuja compleição máscula, volta e meia, despertava, entre as negras, certo interesse durante as congadas. Ele tinha a mania de falar alto e dona Sinhá desconfiava que ele a tivesse criticado, por ocasião de sua visita ao engenho. Para cortar rente o disse-que-me-disse, chamou o João e deu instruções no sentido de dar-lhe meia dúzia de bolos, pondo-o em seguida na solitária.

O castigo servirá de exemplo, teria dito ela ao João, justificando a ordem. O capataz se habituara a obedecer. Mas, daquela feita achou extravagante a decisão de dona Sinhá e começou a raciocinar sobre o castigo que iria aplicar. Qual, pensava ele, essa dona Sinhá está doida. O que teria feito o negro para receber tal castigo? Se está falando e ninguém o entende, por que castigá-lo? Qual, aqui tem dente de coelho...

Já estava a caminho da almanjarra, quando o sino da administração tocou com insistência, chamando-o.

– João – disse dona Sinhá ao vê-lo entrar de chapéu na mão – é preciso procurar imediatamente Efigênia. São seis horas e essa negrinha não apareceu. Depois de um longo interrogatório a que submeti Benedita, só ouvi mentiras.

Ao proferir estas palavras, sua fisionomia ganhou uma estranha luminosidade. Levantou-se da cadeira, e, diante de Benedita, frente a frente, exclamou com arrogância:

– Sua mentirosa! Você, sua negra desgraçada, aonde foi a sua cria? Já desde cedo que você e ela estavam de boca passada, fazendo lenda em torno da galinha fujona, só para n negrinha ir se encontrar com Paulinho na estrada. Sua velha sonsa e alcoviteira, agora, com certeza ela está no mato com ele.

João, cuja subserviência seria capaz das maiores baixezas, tratou de apoiar a versão da patroa.

– É mesmo, dona Sinhá, a negrinha andava tonta rom a chegada de seu Paulinho. É bem capaz de ter se oferecido a ele e agora está envergonhada de voltar para casa.

– Mi vaia minha Nossa Senhora! Mi santos mi açude! – exclamava a pobre escrava em gritos convulsivos entre cortados de profundos soluços.

Dona Sinhá não se conteve. Deu uma bofetada em Benedita e na violência do gesto sentiu um alívio imenso. Todo o seu velho ódio fora descarregado na brutalidade da agressão.

Por fim vingara-se da negra. Daquela negra desavergonhada, que tanto cobiçara, que tanto desejara Tião e acabara agarrando-o. Vingara-se da negra que pegara Tião, aquele homem que sonhara em amansar para ela. Tião o negro que todas cobiçavam e que seria seu não fora a peste de negra a se oferecer a ele... Estava vingada, mas, queria tripudiar ainda sobre a sua vítima. Era preciso liquidá-la de vez. Só assim se apagaria em sua memória o velho ódio contra Benedita, que pegara o negro mais cobiçado da fazenda, justamente o homem de que mais precisava para suprir as ausências do Galdino, que já começava a afrouxar. Sim, era preciso matar! Matar! Matar!

Em seu espírito a idéia foi se agigantando de segundo a segundo, crescendo de intensidade e a cena macabra do espancamento começou a caracterizar-se em toda a sua hedionda brutalidade.

Dona Sinhá, em sua fúria, não se deu conta que estava pisoteando a negra estendida inerme sobre o solo. Foi preciso que o João a detivesse para evitar que prosseguisse pisando a infeliz escrava.

– Dona Sinhá. Sinhazinha! – clamava o capataz agarrando-a com força, sentindo que a patroa fora possuída por uma crise de nervos além do normal.

– Larga! Larga! Deixa que eu mato esta peste, só assim eu acabo com essa raça!

João conseguiu por fim detê-la. Dona Sinhá, mais calma, nem por isso esmoreceu em seus propósitos de vingança. Era de seu feitio não amolecer, não fraquejar.

– Pega essa coisa e bota no tronco até pôr sangue pela boca.

João levantou a escrava e jogou-a nas costas. Encaminhou-se ao terreiro debaixo. Sabia que a ordem a ser cumprida era muito dura e até mesmo perigosa. Embora Benedita não fosse muito querida dos outros negros por ter recebido do coronel Galdino uma porção de atenções dispensadas em caráter de exclusividade, a sua filha, Efigênia era cobiçada pelos negros mais fortes da tropa, e o castigo a ser aplicado era duro demais para não provocar a ira dos homens da senzala. Além do mais, Tião fora morto no tronco por ele, excedendo as ordens do coronel. Criava-se assim uma situação difícil para ele. Começou a temer por sua sorte.

Chegou até ao tronco, mas não amarrou logo a Benedita. Foi procurar o Negro Rei para parlamentar com ele. Achou melhor colocar-se numa atitude menos hostil. Se acaso estourar uma revolta na senzala, será contra dona Sinhá – pensava ele. Eu não terei culpa total. Assim eu alivio a minha parte. Foi até a almanjarra e conversou com o Negro Rei, cuja projeção, entre os demais, o situava na condição de verdadeiro chefe. Falou detalhadamente do que ocorrera. Como Benedita não voltara ainda a si, e fosse uma tradição não levar ao tronco um corpo desfalecido, João esperou pela solução da súplica que o Negro Rei fora fazer a dona Sinhá.

Enquanto isso, ao pé do tronco, Benedita recobrara os sentidos e gritava:

– Misericórdia, Sinhazinha! Misericórdia, meu Deus!

Os gritos lancinantes da negra revoltaram a tropa na senzala. O capataz sentiu o quanto seria brutal espancar aquela mulher indefesa. Agarrou-a, encostou-a ao tronco e, em seguida, foi buscar um pouco de água. Procurava por todos os meios ganhar tempo na suposição de que dona Sinhá concordasse em mandar procurar Efigênia.

– Misericórdia nada, sua negra sem vergonha! Você sabe onde está a sua filha – exclamou dona Sinhá do alto do terreiro.

Surpreendido com a chegada da patroa, João mal teve tempo de atirar a vasilha com água e justificar-se.

– Fui ver se arranjava uma corda mais nova lá no quarto dos arreios. Esta que eu tenho não inspira confiança, dona Sinhá.

– Ela já está bem pisada, e não vai fazer força. Pode começar a dança. Não adianta pano quente com essa gente.

João ficou meio atarantado. Esperava que dona Sinhá tivesse aquiescido ao pedido do Negro Rei e para não ficar desmoralizado, iniciou o sacrifício.

Cuspiu nas mãos, esfregou-as com intensidade e, depois, agarrando a chibata desfechou o primeiro golpe sobre a negra.

Dona Sinhá, embora distante, percebeu que o galeio do chicote, não obstante tivesse sido largo e bem medido, não fora suficientemente violento.

– Mais força, João! Não amoleça com essa gente! – gritava ela.

O capataz sentiu que seria vigiado e prosseguiu, agora, se esforçando por bater realmente com força. As pancadas sucediam-se violentas e Benedita acabou desmaiando.

– Joga água na negra! Deixa aí essa coisa! Amanhã aplicaremos mais uma surra até que ela confesse para onde foi aquela peste da Efigênia.

Da senzala partia um sussurro cheio de melodia, um cântico místico entoado em coro pelos negros, invocando seus deuses protetores, implorando-lhes o milagre da volta do coronel Galdino, ou do padre, para salvar Benedita.

No decorrer da noite, Benedita começou a sentir frio e aos poucos recobrava os sentidos. Gemia baixo com leves estertores, sofrendo a sensação causticante da umidade sobre a pele recortada pelo chicote. O sangue escorria de seus ferimentos. Entre soluços, ela balbuciava uma súplica.

– Num importa, meu Deus, morre, me dando a graça de eu vê a mia fia mais uma veis... pela última veiz que fô... Só anssim eu morrerei mais feliz sabendo onde tá a minha coitadinha. Num quero imaginá qui os bicho matô a mia negrinha ou entonces êsses marvado, que anda vadiando pelo mato, fez mardade cum a mia fia ... Oh! ... meu Deus, onde tá mia negrinha?... Meu Deus, num guento mais tanto sufrimento e dô... Tem piedade dessa pobre véia. Já padeci muito nessa vida. Me dê agora um pouco de descansu e um pôco de paz... Já nun tenhu ninguém pro mim... Tô tão suzinha, para que vivê anssim? É mió o Sinhô levá minha arma pra junto de mia fia e de meu negro Tião, que deve tá no céu esperando... Meu Deus, as forças já mi farta... nem sinto mais meu corpo. Num quero vivê mais. Leva eu daqui. Me tira desse inferno.

Finalmente prostrada pelo cansaço, vencida pela dor física e pela angústia do abalo que sofrera, deixou-se cair abatida.

Horas mais tarde, os cães, quebrando o silêncio da noite, ladravam, uivavam agourentos. O vento silvava entre as árvores. Eram pinchos, guinchos, uivos da voz triste do vento a sibilar entre as ramagens. As folhas secas levadas de arrasto pelo chão faziam um ruído estranho, quase sinistro como se fora à cavalgada lúgubre de um tropel de sacis. A noite fechada, escura, impenetrável, aumentava o aspecto fantasmagórico que envolvia a casa-grande. Havia no movimento das folhas secas arrastadas pelo vento em desvairado redemoinho.

Benedita começava a reagir ao esgotamento que a abatera. Afinou o ouvido como se estivesse à espreita de uma fera carniceira e, ainda confusa, supôs ouvir passos que se aproximavam do local onde se achava abandonada.

– Oh, meu Deus, é ele ainda!!! É ele outra vez!!! É ele, santo Deus!!! Me acude, gente!!!

Súbito, o ruído cessou. Benedita, tomada de pavor, começou a divisar aqui e acolá milhares de sombras que se aproximavam como se fossem verdadeiras falanges de espíritos do mal, armados de azorrague e tochas acesas pala causticá-la.

Delirava. Mas, em meio ao delírio pôde ainda ouvir nitidamente uma voz humana, extremamente humana, que a chamava com ternura:

– Mãe Benedita!... Mãe Benedita! ...

A negra estremeceu. Os seus cabelos se arrepiaram e, pelo seu corpo, sentiu um calafrio correr, eriçando toda a sua pele. Transida de medo, sem saber se estava sendo chamada por espectros do mau ou por um ser humano que quisesse ajudá-la, Benedita caiu numa crise convulsiva de choro.

– Não chore... Não tenha medo – disse a voz, agora mais próxima. Sou de paz e venho a mando de Efigênia para levá-la.

Benedita, ao ouvir o nome de sua filha, arrimou-se. Algo estranho em seu Íntimo fê-la sentir-se amparada.

– Anime-se! Tenha confiança em mim que nada lhe acontecerá, mãe Benedita.

No estado em que estava a negra não poderia oferecer nenhuma resistência.

Juliano cortou as cordas e depois de tê-la livre em seus braços, agarrou-a levando-a para a charrete oculta entre as moitas de café.

– Não se assuste. Fique calma – disse ele.

– Pra onde tá mi levando?

– Piss! Não fale tão alto assim... Alguém poderá ouvir e então estará tudo perdido!...

– Pra modeque tá me sarvando? sussurou Benedita.

– Vou levar a senhora para a fazenda do Sol Nascente. Sua filha Efigênia está lá, ela está viva na fazenda do senhor Antônio Bento, mãe Benedita.

– Não arquedito!... Num é possíve!...

– Piss! Fale baixo. Fale baixinho, mãe Benedita, até sairmos da porteira do rumo da fazenda do Tronco.

– Tô tôda machucada, mio fío, o sangue tá pisado nas costas.

– Eu sei – respondeu o capataz – mas logo que chegarmos ao sítio do Sol, dona Efigênia vai tratar da senhora. Agora por favor, não se mexa muito para não sentir mais dores.

Conduziu a charrete pelo meio do cafezal arruado, dando uma volta por trás do pequeno morro que ficava situado próximo ao terreiro da casa-grande.

Bendita compreendeu, em meio às aflições, que estava sendo levada para fora da Fazenda maldita. Aquietou-se no fundo da charrete, contendo os gemidos até que passaram a porteira de rumo da fazenda do Tronco.

Benedita percebera o cuidado do homem que a conduzia ao fechar cautelosamente a porteira, levando-se até ao batente.

Um pouco mais adiante, sentido-se já salva, indagou:

– Mas, quem é ocê, meu branco?

– Meu nome é Juliano. Sou capataz da fazenda do Sol Nascente. E para lá que estou levando a senhora a pedido de Dona Efigênia e por ordem do meu patrão, "seu" Antônio Bento, proprietário da fazenda.

– Ocê, meu branco, mi sarvou a pedido de minha negrinha e pur orde de seu patrão? Uai! Mí exprica isso mió...

– Mãe Benedita, ontem de tarde, eu apanhei dona Efigênia no mato da fazenda do meu patrão e ele agora mandou salvar a senhora do tronco. Não sei de mais nada, mãe Benedita.

Juliano acelerava a marcha do cavalo noite adentro. Por fim chegaram. Efigênia saltou sobre o carro, exclamando:

– Coitada. Foi toda cortada de chicote... Quanta perversidade!

Efigênia falava entre soluços. Antônio Bento e Juliano, junto da porta da casa, ouviam emocionados aquelas palavras e a custo contiveram as lágrimas.

– Mia fia – disse a velha – num percisa chorá... Eu estou aqui... Num percisa chorá mais...

– Pobre mãezinha, como judiaram de você... Vamos tratar o mais depressa possível desses ferimentos... Você vai ficar boa outra vez...

– Efigênia – disse Antônio Bento – vamos levar a sua mãe para dentro. Eu e Juliano a colocaremos na cama e você poder cuidar de mãe Benedita com todo cuidado que ela bem merece.

Tudo que era necessário estava ali à mão.

Na cozinha, Juliano esquentava uma boa canja que fora preparada cuidadosamente para Benedita. Antônio Bento, sentado numa cadeira junto à mesa, fazia companhia ao seu capataz.

– Estou curioso para saber como correram as coisas, Juliano. Conte-me como foi o rapto...

– Foi fácil, meu patrão – A tropa do Tronco anda toda espoletada com a presença de dona Sinhá. O coronel abandonou a fazenda ontem de manhã em companhia do vigário e a negrada está toda alvoroçada. O João, depois que levou Benedita para o tronco, quase não teve coragem de cumprir a ordem da patroa. Se ela não fosse presenciar a flagelação, a mãe Benedita teria escapado da surra.

– Como você conseguiu apurar tudo isso, Juliano?

– Foi fácil, patrão. Antes de levar a charrete para o cafezal, eu fui a cavalo até o terreiro da fazenda perguntar ao João se tinha visto o "Duque" na roça de milho novo. E daí, conversa vai, conversa vem, fui assuntando... Como o Negro Rei me visse conversando com o João, eu tratei de falar com ele, dando trela pra saber como estavam as coisas e fiquei sabendo que mãe Benedita ficaria no tronco até o dia seguinte... O resto está aí, seu Antônio Bento disse o capataz arrematando a informação.

– Agora, antes que a madrugada rompa, você deve voltar para a fazenda. Eu pernoitarei aqui e amanhã cedo, depois da tirada de leite do curral de cima, dê uma pernada até aqui. Talvez eu precise de você.

– Sim, patrão. Amanhã, logo cedinho, estarei aqui. Juliano despediu-se em seguida e retirou-se. Antônio Bento encaminhou-se para o quarto.

Efigênia não conseguira conciliar o sono durante toda a noite. As violentas emoções que sofrera desde a véspera chocaram-na profundamente. Ficara confusa diante de ocorrências tão contrastantes. De um lado, a indiferença, a frieza ou timidez de Paulinho de quem esperava tudo e, de outro, a paixão de Antônio Bento manifestada de modo tão súbito e imprevisível.

O seu espírito buscava encontrar a lógica dos fatos: desculpar Paulinho – cuja imaturidade não lhe permitira declarar-se, e justificar o comportamento de Antônio Bento – apossando-se dela como escrava.

Era um conflito entre forças sentimentais antagônicas que se debatiam num tremendo diálogo, provocando reações diversas, por vezes desconexas, mas de um chocante realismo.

A sua memória, como se fora um filme, fazia volver o passado cheio de recordações. Paulinho repontava a cada momento. Conhecera-o desde os primeiros passos e foi o primeiro colo de pessoa branca que a acalentara com ternura... Habituara-se a tê-lo sempre presente desde pequenina... depois, quando o pai morreu abatido no tronco e, juntamente com sua mãe mudou-se para a casa-grande, ele foi o pequeno mestre devotado que a ensinou a ler e a escrever... Fez-se sempre aprazível, cuidando de enfeitiçá-lo, de prendê-lo, e não raro o provocara procurando despertar nele a sensibilidade do adolescente... depois, ele foi para o seminário...foram longos anos de tédio ocultamente amargurados no casarão imenso ao lado de sua mãe e do coronel... como fora longa a ausência de Paulinho... quantas noites fora despertada por estranhos pesadelos em que se sentia violentamente abraçada por ele... depois, ele voltou. Foram seis longos meses de constante dedicação... Eram apenas: ele, ela e o coronel na casa-grande... O tempo era aplicado em aulas intensivas, que Paulinho lhe dava na sala de visitas, onde havia mais silêncio, mas nem por isso ele se aproveitava para manifestar qualquer sentimento mais profundo... por vezes insinuava-se, mas logo em seguida, aparece que temia pecar... retomava os ares de professor e continuava dando a lição com tanta austeridade que parecia um estranho... era ela, que depois do jantar, na varanda, enquanto o coronel terminava as contas do escritório, que se aproximava dele para provocá-lo... era ela, sempre ela, que puxava conversa preocupada em decifrar os seus sentimentos impenetráveis, no entanto, ela sabia que a sua ausência despertava nele desassossego, cuidados e até, possivelmente, ciúmes... quantas vezes não os provocara conscientemente indo até à senzala conversar como o moleque Antogenes... quantas vezes, só para irritá-lo, não suspendera a aula dizendo que ia à cachoeira tomar banho só para vê-lo impacientar-se... Mas, por que tudo isso se não gostasse dela?... e, por que não lhe disse algo ao se despedir na cozinha?... teria sido a presença de mãe Benedita ou ainda a timidez? Ah! A eterna timidez que herdara do coronel, e que por vezes tanto a importunava...

Efigênia pensava. Constrangida pelos estranhos acontecimentos, necessitava definir-se diante da vida que lhe oferecia novas perspectivas.

Tinha sido raptada e se comprometera a concordar com tudo que adviesse desde que sua mãe fosse salva. Ela estava ali ao seu lado dormindo tranquilamente, refeita do castigo, e com as esquimoses e contusões em via de convalescimento... não poderia furtar-se a aceitar as imposições do seu novo senhor... quando muito poderia retardar... mas, escapar, fugir, era impossível. Antônio Bento poderia ser muito bom, mas desejava-a bastante para forçá-la a aquiescer aos seus caprichos... ele a desejava como homem, não por mera curiosidade, mas porque se apaixonara...queria-a e não permitiria que voltasse para a fazenda do Tronco. Agora não seria possível fugir... teria que aceitar Antônio Bento ainda que isso constituísse um tremendo sacrifício... uma renúncia ao passado, ao amor que dedicava a Paulinho, o maior estímulo da sua vida...

Um ruído no quarto contíguo fê-la voltar à realidade.

Levantou-se e, com ansiedade certificou-se de que a porta estava fechada. Voltou para a cama, mas não conseguiu reconciliar o sono. Vestiu-se. Foi à cozinha e preparou café. Embora tivesse vontade de conversar com Antônio Bento, fingiu não ter percebido a sua presença.

Achava que a sua indiferença fosse mais útil à defesa de sua dignidade.

Temia o homem. Mas, não só temia, como se apavorava diante do pecado de tê-lo como amante...

Era esse o seu grande receio. Fora educada na religião católica e a noção de pecado se aprofundara de tal maneira em seu espírito, que temia todas as purgas do inferno... Se acaso isso acontecesse, seria apenas por sua condição de escrava...

Procurando anunciar-se com discrição, Antônio Bento abriu as janelas da copa, fazendo ruído e, em seguida, assoviou chamando o seu cavalo, que se distanciara no pasto fronteiriço à casa. Efigênia não fez caso. Esperou que ele entrasse na cozinha.

– Bom dia, seu Antônio Bento.

– Como passaram a noite? Mãe Benedita está mais calma?

– Graças a Deus, mamãe está melhor e dormiu bem a noite. Coitada, estava tão machucada, que mal podia se virar na cama.

– São uns miseráveis esses capatazes. Não sei como é possível haver gente tão má. Essa dona Sinhá é uma desalmada!

– Como sofrem os escravos do Tronco, na mão daquela mulher!

– Agora, Efigênia, a sua vida pode se transformar completamente.

– Muito obrigada, o senhor está sendo muito bom para a minha mãe.

– Não me chame de senhor, eu lhe peço. Trata-me de você. Eu gosto mais...

Efigênia sentiu-se meio contrafeita. Fora essa a última vontade manifestada por Paulinho na véspera, antes de partir. Fora a única demonstração de intimidade que dera em um longo diálogo a sós em seu quarto, quando poderia lhe ter dito tudo que quisesse e, inclusive, estreitá-la em seus braços...

– Sim – disse ela após uma longa pausa – eu tentarei chamá-lo pelo nome...

– Sim querida, eu agradeço. Está mais contente tendo a sua mãe ao seu lado?...

– Muito... nem sei como agradecer-lhe por tudo que está fazendo.

– Não fiz nada de mais... Apenas cumpri o prometido...

– Por isso mesmo é que me sinto grata ao senhor.

– Por favor – disse ele – cabe a você cumprir o que prometeu...

– Eu sei, mas ainda não tenho jeito, deixa para mais tarde, seu Antônio Bento...

– Ora, ora, sua tolinha, que custa me chamar de você... Não é muito, meu bem...

Antônio Bento levantou-se e, acercando-se, tentou beijá-la.

Sem ser áspera ou ríspida, negou-lhe a face, dizendo-lhe com polidez:

– É cedo ainda... cedo demais, seu Antônio Bento.

– Bem – concordou ele – talvez você goste de outro.

– Não, seu Antônio Bento. Nunca namorei na fazenda do Tronco. Sempre vivi pegada à saia de minha mãe, e ela nunca me deixou ir a nenhum mutirão ou pagode... sempre fiquei ao pé do fogo...

– É, foi sempre o que desconfiei.

– Do quê, seu Antônio Bento?

– Que você fosse muito vigiada por sua mãe e, quando eu vi que você vinha frequentemente ver a galinha da dona Sinhá, fiquei na espreita até poder pegar você. Achei que só assim daria certo... Efigênia, quero ser o único homem em sua vida. Por você farei tudo para vê-la feliz. De nenhum modo quero tê-la como escrava, e muito menos a forçaria nessa condição a submeter-se aos meus caprichos.

– Muito grata eu lhe fico por essas palavras. Assim eu me sinto mais confiante no meu destino...

– Eu, sei como você se sente. Mas não tenha medo que eu saberei cumprir a minha palavra de cavalheiro...

– O senhor não tem filhos?

– Não, Efigênia. A milha mulher parece doente, e embora tivesse consultado os melhores médicos, nenhum deles conseguiu capacitá-la à maternidade.

A tosse de mãe Benedita, no quarto, interrompeu o diálogo.

Efigênia levantou-se depressa e Antônio Bento, instintivamente, a seguiu.

Ambos entraram no aposento de mãe Benedita.

– Mia fia, me acude aqui, estou com as carne toda moída e tô sentindo uma dô na perna que num aguento ...

– Não faça muito esforço, mãe Benedita – adiantou Antônio Bento, aproximando-se de seu leito.

– Onde lhe dói, mãe?

– Aqui, mia fia, bem no osso da perna e risponde aqui nas costa... Foi de tanto apanhá de açoite, mia fia...

– Deixa ver – disse Antônio Bento.

– Ocemecê já taí, seu Antônio? Pro mode que já tão cedo tá perseguindo a negrinha? Tenha dó da gente, seu Antônio...

– Não estou perseguindo, mãe Benedita. Dormi aqui para cuidar da senhora e de Efigênia. Mas, não estou querendo forçar ninguém. Espero que a senhora sinta que o meu tratamento é diferente. Seremos amigos, Mãe Benedita. Agora deixa ver a sua perna... Talvez necessite de um médico e quanto mais cedo melhor...

– Talvez seu Antônio Bento tenha razão, mãe...

Benedita silenciou. Com o auxílio de sua filha limitou-se a puxar o cobertor que a envolvia, deixando à mostra, suas pernas feridas.

Antônio Bento, por sua vez, deteve-se olhando-as e, depois, dirigindo-se à pobre escrava, disse-lhe com muito afeto, procurando cativá-la, bem como à filha:

– É bom não facilitar, minha mãezinha... Mandarei chamar o médico logo que chegar o Juliano.

– Ocemecê acha que é anssim tão perigoso o causo, seu Antônio?

– Não, mãe Benedita! Mas é melhor curar do que remediar.

– Eu num queria incomodá ocemecê...

– Não é incômodo algum, ao contrário, cumpro com o meu dever – respondeu Antônio Bento, afetuosamente.

– Nem sei como vô agradecê tanta bondade...

– Logo você estará boa. Procure descansar.

Benedita voltou-se para sua filha e recomendou-lhe:

– Mia fia, dá um pouco de café... Tô com a boca seca, minha negrinha.

Efigênia foi à cozinha providenciar um cafezinho bem quente para sua mãe.

Antônio Bento sentou-se à cabeceira e começou a alisar-lhe os cabelos afagando-lhe o rosto.

– Num me abrandece o espírito, seu Antônio Bento. Ocemecê tá querendo é me comprá cum seus modo pramode agradá a fía e cativá a negra velha...

– Não, mãe Benedita... Estou apenas me lembrando de quando era criança. Minha mucamba era uma preta que me tratava com carinho de mãe e eu gostava de dar cafuné na cabeça dela até vê-la dormir... Não tenho nenhum pensamento mau. O que fiz está feito. Se não der certo ficará por isso mesmo e a senhora pode ficar descansada.

Efigênia voltou com uma bandeja com xícaras e o bule de café.

– Pronto, mãe, aqui está o seu café. Toma um pouco também, seu Antônio Bento?

– Aceito.

– Mia fia, já disse ao seu Antônio pra mode não andá perseguindo ocê...

– Já ouvi, mãe. Estou certa de que seu Antônio Bento saberá cumprir a sua palavra. No momento é tratar da senhora.

– É, mia fia, passa uma mão de arnica na perna pra mode aliviá a dô...

– Deixa mãe que eu faço uma massagem, talvez alivie bem...

– Efigênia, minha negrinha, cadê a arnica?

– Toma, seu Antônio Bento – disse ela passando o vidro.

– Bem, mãe Benedita, ponha a perna estendida sobre o travesseiro e deixa que eu faça a massagem.

(Negra Efigênia, paixão do senhor branco, p. 193-209)

 

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Capítulo XX

Dona Sinhá deu um rápido balanço nas atividades daquela manhã, uma das mais tormentosas de sua vida.

Da rápida fiscalização que fizera, tomara conhecimento de numerosos casos, que reclamavam solução imediata.

Ao voltar da almanjarra, dirigiu-se diretamente para um pequeno quarto que sempre lhe servira de escritório. Tocou um pequeno sino para chamar o administrador, e dando um toque diferente convocou as caseiras.

Efigênia foi a primeira a atender ao chamado.

– Pronto, dona Sinhá! Estou às suas ordens.

– De hoje em diante vamos começar a pôr em ordem esta casa. Há muito desleixo no trato dos móveis e da prataria.

Dona Sinhá fez uma pausa.

– Sim senhora dona, Sinhá.

– Antes, porém, Efigênia, você deverá ir ver a galinha fujona. Hoje de manhã eu sei que você saiu para procurá-la, mas houve qualquer dificuldade e você acabou aparecendo duas horas depois toda enfeitadinha como se fosse receber um namorado...

Dona Sinhá procurou ser maldosa, e ao dizer as últimas palavras, encarou Efigênia com um leve sorriso irônico.

– Posso ir? – indagou a escrava visivelmente contrafeita.

– Pode, e que não demore. É preciso começar ainda hoje a faxina.

A partida de Paulinho ferira-a profundamente. Começava a temer por seu destino naquela fazenda, agora inteiramente entregue à sanha de dona Sinhá. Caminhava lentamente, sem pressa de chegar. O seu espírito divagava entre a realidade brutal de sua vida e os castelos de sonhos que a sua fantasia criara, agora inteiramente desfeitos pela atitude dúbia e irresoluta de Paulinho.

Efigênia caminhara bastante, e começava a sentir-se cansada. Vencida pela fadiga, deixou-se cair numa leve modorra, à sombra de uma jaqueira.

Sem perceber, foi tomada de surpresa pela chegada de um homem forte, que se aproximara sem nenhum ruído que a despertasse e, agarrando-a por um de seus braços, foi lhe dizendo com voz pausada e segura:

– Hei, menina, você não vai fugir!

– Mas, eu não fiz nada! Eu juro! Não fiz nada! Estou aqui porque dona Sinhá me mandou vir ver a galinha fujona que fez ninho na boquinha da mata, ali, debaixo da aroeira. Deixe-me ir embora. Eu não fiz nada.

– Eu sei menina, eu sei. Mas você vai comigo. Tenho ordens do senhor Antônio Bento para levar você, nem que seja na marra.

– Mas, eu não posso deixar minha mãezinha, meu senhor. Por amor de Deus, não faça isso.

– Olha, menina, eu não posso fazer nada, só mesmo com o patrão.

Efigênia gritava, pedindo socorro.

– Não adianta – insistia o homem – ninguém vai acudir.

Desesperada, sem saber o que iria suceder-lhe, Efigênia tentou mais uma vez desvencilhar-se de seu algoz, dando uma tremenda dentada na mão.

– Não morda! – gritou ele com autoridade, agarrando Efigênia pelos cabelos, evitando machucá-la.

Chorando, esperneando, relutando, Efigênia foi, afinal, arrastada pelo capataz até a presença de seu patrão, que a esperava adiante, na encruzilhada do caminho, que ia ter ao sítio do Sol Nascente.

Ao ver Efigênia, Antônio Bento esboçou um sorriso de satisfação.

– Pronto, aqui está a moça. Brava como o quê! Veja a minha mão mordida.

– Leve-a para o lugar combinado, e não saia até que eu chegue. Mas, leve-a com cuidado.

A negrinha desesperada tentou mais uma vez evadir-se.

– Não faça assim – disse Antônio Bento, – ninguém vai maltratar você. Eu só quero levá-la para o sítio do Sol Nascente onde você será a dona de tudo.

– Mas, o que querem de mim?

– Não sei – respondeu o feitor. – Não tenha cuidado. O patrão é boa pessoa e não espanca nenhum de seus colonos.

– Malvados! O que vai ser de mim sem a minha mãe. Coitada, com certeza que Sinhazinha vai pô-la no tronco pensando que a minha pobre mãe me ajudou a fugir...

Antônio Bento não se demorou.

– Pode ir embora – disse ele ao capataz – mas fique por perto. Se eu precisar de alguma coisa, eu chamo.

A sós com Efigênia, Antônio Bento olhou-a com ternura, contemplando a sua beleza cujas formas marcantes estavam apenas disfarçadas sob um vestido riscado.

Efigênia estava impaciente. Quebrando o pesado silêncio, indagou com irritação e temor:

– Afinal de contas, o que quer o senhor de mim?

– Tudo – respondeu Antônio Bento.

– Mas tudo o quê?

Antônio Bento respondeu com mais clareza, procurando ser convincente em suas palavras.

– Meu amor, eu sempre senti uma grande atração por você, desde o primeiro dia que a vi procurando os ovos da galinha fujona, aqui, perto das divisas da nossa propriedade. Muitas e muitas vezes fui espreitá-la, chegando bem perto de você. Mas tinha medo de falar. Receava que você fosse contar em casa, à sua mãe ou ao seu patrão. Temia ficar privado de vê-la. Por isso resolvi roubá-la e trazê-la para o sítio do Sol, nesta propriedade que será sua e de sua mãe, se você concordar com as minhas intenções.

– Mas o senhor me quer como amante cativa sujeita a todos os seus caprichos?

– Não, meu amor! Eu não a quero assim. Desejo-a muito, mas não quero violências, nem contrariedades. Antes de mandar raptá-la tomei uma série de providências. Mandei reformar esta casa. Comprei móveis novos. No terreiro fiz também uma série de inovações para o seu conforto, inclusive, mandei colocar uma moenda de cana com três rolos de gaviona para ser movida por animal. Tudo isso eu fiz pensando em tê-la para mim. Como minha companheira a quem desejo dedicar o resto de meus dias.

– Então, o senhor gosta de mim e me quer como amásia?

– Não, meu amor. Eu não a quero como amásia. Quero-a como mulher. Se for possível e Deus quiser, eu a terei como esposa.

– Mas, seu Antônio Bento, o senhor bem sabe que não pode se casar comigo.

– Efigênia, isso nos discutiremos depois. Agora, responda-me: quer ser a dona do sítio do Sol Nascente e de meu coração?

A escrava estava indecisa, perturbada. Não sabia o que responder.

Um longo silêncio caiu sobre a sala e Antônio Bento voltou a insistir na pergunta.

– Está bem – disse ela – mas primeiro quero que a minha mãe seja salva das garras da dona Sinhá. Somente assim concordarei em viver com o senhor.

– Não há dúvidas, Efigênia. Eu irei salvar sua mãe. Mas para isso é preciso que esperemos a noite.

Sem perda de tempo, Antônio Bento chamou o capataz.

– Desmonta, depois, venha aqui – disse Antônio Bento.

– Juliano, precisamos roubar a mãe da Efigênia, cuja vida começa a correr risco na fazenda do Tronco. Você conhece a Benedita?

– Sim, meu patrão. Sei quem é e até onde fica o sítio que o coronel deu para ela depois que dona Sinhá deixou a fazenda. Mas creio que ela não mora mais lá.

– É verdade – disse Efigênia – agora estamos na casa-grande em um quarto pegado à senzala e será difícil chegar lá sem ser suspeitado pelos cachorros.

– Não senhora – respondeu o administrador. Eu sei como engabelar os bichos. Um pouco de carne fresca acalma a todos eles. O difícil vai ser o Negro Rei. Quase sempre fazendo preces e orações por perto da senzala e isso leva muito tempo. Mas mesmo assim, é fácil salvar dona Benedita.

– Então, Juliano, você vai cuidar disso hoje, sem falta. Não me volte aqui sem a mãe de Efigênia. Gosto de você, menina. Farei tudo para ter você ao meu lado.

– Menina não senhor! – Efigênia. Foi este o nome que eu recebi de batismo. Foi a promessa que minha mãe fez. Se não me matassem no ventre dela com os maus tratos que costumavam dar às negras do Tronco, eu receberia esse nome de Santa padroeira dos negros.

– Se não a matassem?

– Sim senhor!

– Mas são assim tão maus os proprietários da fazenda do Tronco?

– São bárbaros – disse ela. Tão bárbaros que a minha mãe perdeu um filho e o meu pai foi morto no tronco.

– Que desumanos! Como é possível ser assim tão perverso! Eu há muito que acabei com os meus. No Sol Nascente todos são colonos. Trabalham livres. E você também será livre, Efigênia, juntamente com sua mãe.

– Obrigada, senhor – disse ela humildemente.

– Não há o que agradecer. Quero-a muito e não poderia tê-la como escrava nem desejaria possuí-la como escrava. Por isso, raptei-a.

– Mas como pode o senhor gostar de uma preta que nem eu, se o senhor é casado com uma mulher branca, e, segundo dizem, muito bonita?

– Eu sei...

Antônio Bento olhou-a ternamente e disse sussurrando ao ouvido:

– Minha felicidade agora é você, meu amor...

Tentou beijá-la, mas Efigênia retirou o rosto, revelando certo medo.

(Negra Efigênia, paixão do senhor branco, p. 187-192)

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antes que o mar silencie

Sol de Paula

 

sempre tive o oceano ao alcance dos ouvidos

cresci embalada pelo barulho da maresia dentro da concha

reverberando sons tal qual ouvia no útero

 

fui benzida com as ervas sagradas de Aruanda

com o gosto da água salgada a brindar à vida

e o descarrego a despertar os encantados

 

na pressa do dia, vejo-te preso a dor no olhar,

incrustrado na ostra verde do fundo do mar

rogo os protetores sob a luz do luar

 

antes que o mar silencie

antes do fim da criação

tento tocar as profundezas do viver

 

até que veio o sereno e adoçou o mar...

 

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