oxum à la source

 

ce n’est pas moi l’abîme de vos ailleurs!
les pierres dans le regard,
jeter-les ailleurs!
sur vos draps en soie lilas, par exemple!
sur les corps qui vous ressemblent!
moi, je suis les eaux douces des uiaras –
yemanjas, maman-de-l’eau
et de leurs belles voix
ce n’est jamais à la mort
qu’elles vous invitent.
elles vous tendent de longs regards-caresses,
vous trompent, certes
mais pour mieux vous aimer au fond des eaux.
je ne suis pas um gouffre hanté par vos sirènes!
je suis la femme des eaux douces, où il fait bon
vivre.

                            (Paysage en attente, p. 35)

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Compromisso

 

o passarinho morto na garganta
é a ode que você não compôs
aos mortos
do calabouço.

essa corrente ancestral
que volta lingoteando seus passos
é a antiga força da violência.

essa águia podre comprimindo
o espaço ancho do seu peito
é o seu silêncio.
é você inteiramente omisso
sem poder estender essas armas frágeis
que são suas mãos.

(Água marinha ou tempo sem palavra, p. 19)


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Negrícia

Certas feridas
São a própria máscara
Outras apenas gemem,
Os elegantes gritam negritude
Com suas estratégias de sobrevivência a tiracolo.
Os mais políticos se consomem
No túnel de serem os únicos
Para si mesmos e o mundo,

E não sei a quantas andamos
Tentando dar a mãos
Às mãos que não se dão.

                           (Poemas antigos, p. 49).

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Elegia Moderna

meu verso
tem a tristeza justa
do nordestino brasileiro
ante a fonte
ora seca... ou... seca... e seca.

no poema que faço
mulheres dançam
sentimentos
entre os mistérios da carne
e os mistérios da fé.

minha poesia
tem o ardor impiedoso do sol
ao queimar as costas dos meninos
nus
no cacauais...

no verso que faço
vadiam mundos
sem letras, sem alimentos
em meu verso dorme
um amazonas violento.

harmonizando as estrofes
a esperança de um outro brasil
luta para sobreviver.

(Água marinha ou tempo sem palavra, p. 31-2)

 

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Quilombhoje

Penetra calmamente nas ruas mais distantes.
Lá estão as emoções que precisam ser escritas
Convive com o teu povo antes de fazê-lo teu.
Espera que cada um se desnude, se rebele
Com seu poder de vida
Seu poder de palavra
Engravide tua palavra com a fome de teu povo
Oxigene tua palavra com a coragem de teu povo.

                                   (Poemas antigos, p. 33)

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