Negras narrativas

                           Janaína Nascimento

Nossa existência
Não se resume a sofrimento
Ela está pra além da dor
E das tentativas de desumanização e
Apagamento de nossa cultura.

Somos corpos negros
Em movimento
Somos frutos da agência
E dos sonhos dos
Nossos ancestrais.

Somos corpos em luta constante,
Mas também temos
Vivências felizes,
Engraçadas, de sucesso
Onde se transborda afeto.

Temos delírios de amor
Momentos de paixão
Vivemos amores intensos que
Fazem a temperatura subir.

Somos permeados por
Sabedoria ancestral
Fé que move nosso caminhar
Somos centelhas divinas
Orixás na Terra
Nos reinventando nessa diáspora
Deixando nosso legado.

Seguimos nossa caminhada
Contando nossas
Belas conquistas e histórias
Através das nossas
Próprias e negras narrativas.

(In: Literatura negra feminina: poemas de sobre(vivência), 2021)

 

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Carne de mulher

Nua em frente ao espelho
Me olho
Me observo
Me vejo
E me sinto mulher.

Nas ruas é bem diferente.
Mesmo vestida
Me olham
Me observam
Me vee
Como pedaço de carne.

Quanto vale ou é por quilo?
Carne de primeira, de segunda
Carne de mulher?
Carne de vaca?
Seria eu uma vaca?

Cadê a mulher que eu era quando saí de casa?

Não! Não aceito! Me recuso!
Eu não sou a carne mais barata do mercado.
A carne mais barata do mercado não é a mulher negra!

                                                                 (Terra fértil, p. 54)

 

Texto das autoras.

Douglas, Amarildo e Claudia

DOUGLAS poderia estar em um cursinho pré-vestibular gratuito
Já que a escola não o preparou para as universidades públicas
E, quem sabe, com dedicação e esforço no ano que vem seria ele
O próximo aluno negro a entrar em Geografia na UNESP
De mudança para Presidente Prudente
Levando na bagagem os sonhos colhidos na Zona Norte.
Não deu tempo.

Só conseguiu balbuciar:
Por que o senhor atirou em mim?

AMARILDO poderia estar contando historias para seus filhos
Que nem só de dourado vive o pescador e que há peixes grandes
Nesse mar imenso desse tal de Rio de Janeiro, fevereiro e março...
E quem sabe estivesse de emprego novo, salário digno
Sem hipocrisia de um patrão pagar R$300 ao mês para um pai de 6 filhos.
Mas naquele dia era pra ser só divertimento
Ver o jogo do Vasco X Flamengo.
Nunca mais voltou
O desaparecido.

Do morro aos quatro cantos do mundo:
Onde está o Amarildo?

CLAUDIA poderia estar preparando um bolo com cobertura de chocolate
Para o aniversário de sua sobrinha mais nova.
Quem sabe naquele domingo estivesse ouvindo
Paulinho da Viola ou Jorge Bem para se distrair
Sem parar no peso dos serviços gerais
Que desde a escravidão pesa para
Pessoas de sua cor.
Mas não, foi apenas comprar o pão.
De troco, a carne exposta ao chão.

Deu no jornal, virou notícia.
Mas ninguém se comove
Quando gente preta morre
Pelas mãos da polícia
Ninguém.

Isto não é um poema.

 

                                                                                    (Terra fértil, p. 108)

 

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Dor amor

O primeiro homem negro que amei
Não sabia que era negro
Mas a polícia sabia bem.
Tirando os beijos trocados na porta da escola
Demonstração de afeto, coisa rara.
Revolta era o sentimento mais comum
A maneira de dividir a dor
De dividir a cor.

O segundo homem negro que amei
Foi doce, amoroso e companheiro
Tínhamos o hip-hop como pano de fundo
Dançamos, vivemos à rua, o mundo!
Não fosse o ciúme: amor = prisão.
Numa crise me chamou de vagabunda
Me empurrou do escadão.
Chorou arrependido, mas não deu
Não deu mais para o amor.

O terceiro homem negro que amei
Faceiro, moleque de terreiro
Por seu encanto caí no samba de roda.
A roda rodou, gira girou.
Tivemos um filho, negro menino.
As dificuldades da convivência
Transformaram o sonho de amor
Em traições, mentiras e abandono.
Quando sentiu me perder foi tarde
Era ele quem tinha se perdido

O quarto homem negro que amei
Já havia amado muitas mulheres
Mas nunca se deparado com um negro amor.
Eu o amei com gosto de liberdade
Um jeito que ele nunca entendeu.
Este, se me amou foi em segredo
Na ferocidade do sexo
Encoberto por lençóis floridos
Em agudos gemidos.

O quinto homem negro que amei
Era poeta, sensibilidade aflorada.
Seus crespos emaranhados aos meus
Duraram uma primavera, assistida da janela.
Um dia o poeta, quis por bem fazer discurso:
“Mulheres negras são difíceis, cheias de complexo”
Era a moça branca com quem ia se casar
Sugeriu que eu fosse sua amante.
Chorei muito, não de amor.

Todos os homens que amei são negros.

Não me julgue o coração
Eu só quero amar.
Apenas.

                              (Terra fértil, p. 46)

 

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Identidade

Cansei de ser uma foto 3x4
Acompanhada por uma sequência de dígitos.

Cansei de ser número
No RG, CPF, Título de Eleitor
Passaporte, Carteira de Trabalho.
A burocracia nunca me enxerga como gente.

 
Eles não sabem da cor azul
Que fui a Bahia e vi Dona Canô na festa de Reis
Que choro quando leio a Cor Púrpura
Nem que passo as tardes ouvindo Benito de Paula.

Cansei de ser número
Engrossando as estatísticas
De mãe solteira sem superior completo
De mulher negra que sofreu violência doméstica
Que agora sou parte dos 56% de classe C
Segundo a revista Exame.
Vexame.

As estatísticas não sabem, por isso não divulgam
Ando triste, confusa e ruim da memória.

E no posto de saúde.
Onde sou apenas mais um número no SUS
Não tem psicológicos para sequer uma consulta.
Desconfio que psicológicos devam atender
Apenas números inteiros e não os fracionados como eu.

Preocupa-me
No futuro, tudo ficará mais simples
Seremos como um código de barras
É só passar no leitor e pronto!
Teremos até preço
(a depender da inflação)
Um número com cifrão.

 Lamento aos burocratas
Aos analisas organizacionais
Aos pesquisadores e estatísticos
Enquanto houver brilho nos olhos
Não posso, nem quero ser só um número.

                                                 (Terra fértil, p. 18) 

 

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