A colcha de retalho tecida por elas
Elas tecem
Sem Saber
Elas tecem
Sabendo
Elas tecem
Sem querer
Elas tecem
Querendo
Elas tecem
Ao longo da vida
Elas tecem
Vivendo
Elas tecem
O fio da vida
Elas tecem
Como mães que geram suas crias
Elas tecem
Uma música suave
Elas tecem
Uma só cantiga, em uma só nota
Elas tecem
Juntas, há anos
Elas tecem
Sabedoria, experiência e ousadia
Elas tecem
Umas colcha de retalhos que vem de longa data
Elas tecem
Com amor, carinho e dedicação
Elas tecem
Com tecidos diversos, por isso a colcha é firme
e cabe sempre mais uma e mais uma
Elas tecem
E tecerão até a eternidade
Com arte, com sensibilidade e grandeza
De espíritos que vêm de longe data
Ao encontro de novos pedaços
Para se unirem
A esta colcha de retalhos
Feita de tecida com a maior emoção
Da vida
Delas.
Das Dores
(Fragmento)
Jeovânia P.
Das Dores olhou para o espelho, um desses espelhos retangulares, bem compridos, que permitem que a gente se veja dos pés à cabeça. Mirando aquela imagem, ela viu bem mais do que como a roupa lhe caia, ou seus pequenos defeitos físicos. Ela estava ali tentando enxergar seu eu, o que a tornava aquela mulher Das Dores.
Foi naquele momento que ela refletiu o ato de ser mais do que ela mesma, e percebeu que, ela é ela e todas as outras que vieram antes dela. Essa observação a fez rememorar as pretas que lhe antecederam.
Lembrou que sua mãe lhe falava da tataravó, que por sua vez é pentavó de Das Dores. Aina uma preta que veio da mãe África, lá da tribo Zulu, da Nigéria. Seu povo por origem era resistente à escravidão, e Aina, não era diferente. Aina, aquela que nasceu com o cordão umbilical amarrado no pescoço, só que essa não foi a única coisa que lhe prendeu.
Sua tribo foi escravizada pelos holandeses, uma parte, é claro, morreu, Badu, sua filha também morreu, mas essa não foi pelas mãos daqueles exploradores.
(In: Escrituras negras IV: nossa ancestralidade, 2023, p. 34)