Planta oriunda de Canudos
Solução de moradia para
Quem recebeu falsas promessas
E voltou da guerra
Sem soldo e sem teto
Barracos se ergueram pelos morros
Providência foi a primeira parada
Políticas higienistas e eugenistas
Deram o tom para o abandono
Falta de políticas públicas 44
E extermínio de gente preta e pobre
Desde os tempos da "falsa abolição”.
Lugar de gente batalhadora
Que gira a máquina capitalista
Berço de gêneros musicais
Tentaram desde sempre criminalizar
O jongo, o samba, o rap e o funk
Ainda assim esses ritmos
Seguem vivos e ganharam o mundo.
Lugar onde a bala de fuzil
De perdida não tem nada
Elas sempre acham o caminho
Para exterminar os corpos negros
Lugar onde violações
De direitos humanos e chacinas
São legitimadas pelo Estado.
A criançada segue tentando ser criança
Com sorriso no rosto, correndo,
Soltando pipa e brincando de pique
O povo da favela segue solidário,
Virando lage para o amigo,
Regada a comida gostosa
E fazendo batucada
Homens e mulheres seguem
Agarrando todas as oportunidades
Orgulhando pai e mãe.
Os jovens seguem fazendo passinho,
Dando o papo reto no Slam
Lideranças comunitárias seguem
Incansáveis, fazendo o papel do governo,
Salvando vidas com projetos sociais
Colocando comida na mesa
De quem tem fome e pressa.
Escritores, rádios comunitárias
Seguem na contramão
Contando histórias a partir das suas
Próprias e faveladas narrativas
A favela existe, a vida pulsa,
A cultura nesses territórios vibra.
Jacarezinho e Complexo da Penha.
"Pena de Morte" executada...
Pânico e suspensão de aulas
A falácia da meritocracia
Ainda esbraveja que as oportunidades
São iguais para todo mundo.
Virou moda repetir por aí
Que a "Favela Venceu"
Mas, parafraseando Carolina de Jesus
A Favela segue como
O Quarto de Despejo da sociedade
Força, luta e resistência não faltam
Queria hoje falar o contrário
Mas, infelizmente
A Favela ainda não venceu!
(In: A poética da resistência, 2022)