DADOS BIOGRÁFICOS
Janaína Ferreira do Nascimento nasceu no Rio de Janeiro em 14 de novembro de 1978. Escritora, poetisa, pedagoga e professora, é especialista em Ensino de História da África.
Seu trabalho com jovens e adultos, sempre com uma abordagem antirracista e participativa, reflete sua crença na democratização da escrita e na importância de contar a história a partir da própria voz.
Integrante do Mutirão Cultural Rolé Literário, Janaína é organizadora do Sarau Vingando Ismênia, um evento voltado para o protagonismo negro feminino. Ela é coautora de coletâneas, dentre elas, Encruzilhadas Suburbanas (2023) e Cadernos Negros 45, além de organizar duas obras, A poética da resistência e Sentindo na pele, ambas pela editora Alpheratz.
Janaína Nascimento publicou, em 2022, seu primeiro livro solo, Águas que passam não voltam, pela Letras Virtuais Editora. A obra reúne 12 contos que abordam as vivências de pessoas negras, explorando afetividade, violência, memória, prazer e resistência. A partir de uma escrita sensível, a autora constrói narrativas que evidenciam a complexidade das relações humanas e marcas sociais presentes no cotidiano das personagens.
136 anos depois: reflexões sobre o 13 de maio
Janaína Nascimento
“Será que já raiou a liberdade
Ou se foi tudo ilusão
Será, que a lei Áurea tão sonhada
Há tanto tempo assinada
Não foi o fim da escravidão
Hoje dentro da realidade, onde está a liberdade
Onde está que ninguém viu…”
Começo esta reflexão, neste 13 de maio, com um fragmento do samba da Estação Primeira de Mangueira do ano de 1988, que marcou a minha infância: "Cem anos de liberdade, realidade é ilusão".
Num tempo em que professores reproduziram em sala de aula que éramos descendentes de “escravos” e éramos expostos a muitas imagens de Debret e Rugendas, que ratificavam a reprodução massificada sobre a falta de agência e subserviência das populações africanas escravizadas.
As escolas de samba nos entregavam para além do entretenimento, muito conhecimento com enredos que contavam uma história que não aprendíamos sentados nos bancos escolares, ao contrário, traziam uma narrativa contra colonial, contra hegemônica muito diferente daquelas as quais éramos submetidos em espaços da educação formal.
A escola nos fornecia o acesso a uma história contada pelo viés do colonizador, que começava a partir da diáspora africana, como se nossos antepassados não tivessem uma trajetória, saberes e vitórias antes do sequestro, seguido da travessia forçada pelo atlântico.
Mesmo com as voltas ao redor da árvore do esquecimento, após o batismo, usurpação do próprio nome, da separação da família e da imposição do idioma do colonizador, a cultura e os conhecimentos foram trocados e perpetuados, inclusive, pelas pessoas mais jovens a partir de seus fragmentos de memória, sobrevivendo à travessia da kalunga e à barbárie instaurada.
Durante muito tempo também nos foi vendida a ideia de que a princesa Isabel era uma grande heroína, a redentora que eliminou escravidão do Brasil, ignorando as revoltas, lutas, estratégias, rearranjos e acordos estabelecidos ao longo dos séculos de escravidão.
Em meio a falta de ações afirmativas para nossa população, criminalização da nossa cultura, altos índices de casos de intolerância religiosa, falta de acesso a direitos básicos, que culminaram em um abismo social para os afrodescendentes, tentaram nos empurrar goela abaixo, que o 13 de maio era uma data festiva, de celebração.
136 anos se passaram e será que temos motivos para comemorar? Seguimos sendo açoitados pelas instituições e pela elite do atraso que morre de saudades dos tempos da senzala.
A “casa grande” segue exterminando, abandonando e restringindo o acesso a direitos básicos e a políticas públicas que favorecem a transformação em uma sociedade onde se possa vivenciar a equidade.
As lutas dos movimentos negros resultaram na implementação da Lei 10.639/03, alterada pela Lei 11.645/08, que foi criada com o intuito de estabelecer o ensino obrigatório da história e cultura afro-brasileira e africana, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. Em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.
Com a Lei 10.639/03 também foi instituído o dia Nacional da Consciência Negra – 20 de novembro – em homenagem ao dia da morte do líder quilombola Zumbi dos Palmares. Uma data que também nos rememora o esforço coletivo de luta contra a escravidão e de reflexão sobre o racismo, sobre promoção de ideias para direitos e integração da população negra na sociedade, em detrimento às históricas exclusões e desigualdades sociais. O 20 de novembro, nesse sentido, é um dia de conscientização e reflexão.
Como educadora antirracista, que atua no chão da escola pública, e não trata das questões étnico-raciais apenas no mês de novembro e sim diariamente, ao longo de todo o ano letivo, ressignifico o 13 de maio, mostrando que a liberdade tão sonhada não veio a partir das mãos imperialistas da princesa Isabel.
A abolição não foi concedida e sim conquistada pelos verdadeiros heróis e heroínas desse processo que não se inicia e tampouco se encerra no 13 de maio, é de extrema importância ressaltar o protagonismo negro nesse doloroso processo.
É necessário nos apropriarmos dessa data, contarmos as histórias dos nossos antepassados não no lugar de objetos de pesquisa e sim a partir das nossas próprias narrativas, nos reafirmando nesse caminho que um dia, nos levará a tão sonhada liberdade.
Referência
Coluna de Janaína Nascimento para Match Eleitoral da Quem te representa? NASCIMENTO, Janaína. 136 anos depois: reflexões sobre o 13 de maio. Quem te representa? 2024. Disponível em: https://quemterepresenta.com.br/136-anos-depois-reflexoes-sobre-o-13-de-maio/. Acesso em: 29 ago. 2025.
PUBLICAÇÕES
Obra Individual
Águas que passam não voltam. Rio de Janeiro: Letras Virtuais Editora, 2022. (contos).
Antologias
Coletânea sintonia cultural. Organização por Ligia Helena Carvalho. São Gonçalo: Machado, 2021.
Literatura negra feminina: poemas de sobre(vivência). Organização por Elizandra Souza e Iara Aparecida. São Paulo: Mjiba, 2021.
Nossas linhas negras na pandemia. Organização por Rosana Rodrigues e Josiane Nazaré Peçanha de Souza. São Paulo: Futurama, 2021.
Que toda palavra, dita ou escrita, seja amor. Organização por Rosana Rodriquez e Renato Preto Bosquiat. São Paulo: Futurama, 2021.
Vozes da margem vozes na margem narrativas fora de centro. Organização por Ana Elicker e Pedro Paulo Machado. Rio de Janeiro: Editora Alpheratz, 2021.
A poética da resistência. Organização por Janaína Nascimento e Pedro Machado. Rio de Janeiro: Alpheratz, 2022.
Laboratório de narrativas femininas. Rio de Janeiro: Sesc/RJ, 2022.
Prêmio Conceição Evaristo de literatura da mulher negra: coletânea de poesias. Rio de Janeiro: Metanoia, 2022.
Que toda palavra, dita ou escrita, seja amor: volume II. 1. Organização por Rosana Rodriquez e Renato Preto Bosquiat. São Paulo: Conejo, 2022.
Sentindo na pele: narrativas em afroperspectiva. Organização por Janaína Nascimento e Pedro Machado. Rio de Janeiro: Alpheratz, 2022.
Encruzilhadas suburbanas. Organização por Pedro Machado. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2023.
Cadernos Negros 45: poemas afro-brasileiros. Organização por Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa. São Paulo: Quilombhoje, 2024.
Cartas para Azoilda. Organização por Gisele Rosé. Rio de Janeiro: Metanoia, 2024. v. 1.
Prêmio Conceição Evaristo de literatura da mulher negra, 2 ed. Rio de Janeiro: Metanoia, 2024.
Não Ficção
Literatura e pertencimento: trajetórias e influências de escritores negros dos subúrbios do Rio de Janeiro na atualidade. 2024. Dissertação (Mestrado). Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, CEFET/RJ, Rio de Janeiro, 2024.
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