DADOS BIOGRÁFICOS

Andressa Marques nasceu em 1986, em Taguatinga, Distrito Federal. Professora e doutora em Literatura e Práticas Sociais pela Universidade de Brasília, integrou uma das turmas iniciais de cotistas do Brasil, tornando-se a primeira de sua família a conquistar um diploma universitário. Atualmente, atua como coordenadora-geral de Livro e Literatura na Secretaria de Formação, Livro e Leitura (SEFLI), órgão vinculado ao Ministério da Cultura.

Em 2024, Andressa lançou seu romance de estreia, A Construção, obra que foi premiada no concurso Toca Literária, promovido pelo escritor Marcelino Freire, com o intuito de apoiar a visibilidade de autoras e autores estreantes.

A Construção dialoga com os parâmetros da escrita de si e tem como protagonista a jovem Jordana, universitária integrante da primeira geração de cotistas das universidades públicas brasileiras. A narrativa alterna o presente da protagonista com elementos históricos da construção da capital federal na década de 1950, e encena tanto os desafios da vida acadêmica quanto as histórias de trabalhadores que ergueram a capital. Com alta carga poética, o livro articula identidade, desigualdade e memória coletiva, propondo reflexão sobre um presente e um futuro que não descarta a presença do passado e das origens.

Em entrevista ao jornal Estado de Minas, a autora declara:

A construção surge de uma história familiar. Sou neta de um eletricista que esteve entre os primeiros trabalhadores que ergueram Brasília. No entanto, o falecimento do meu avô logo no começo da cidade fez com que os laços e a memória da minha família fossem desconhecidos pelo meu pai e todos nós. É aí que entra a pesquisa que realizei, em 2019, para a exposição “Reintegração de posse: narrativas da presença negra no Distrito Federal”. No intuito de escrever sobre essa história emblemática no imaginário da cidade – a dos trabalhadores que morreram em sua construção – acabei descobrindo muito mais. Quando a história da minha família se revelou para mim por meio de arquivos e sorte, ela surgiu tão imensa que eu não parava de pensar em quem foram aquelas pessoas. Então, entendi que só a ficção chegaria tão longe no preenchimento das lacunas dessa história desconhecida.

 

A religião de matriz africana ganha forte representação no livro. Como foi levar os orixás para as páginas do seu livro?


Foi um grande desafio e me exigiu muita pesquisa. Não sou candomblecista, mas o próprio fato de ter descoberto que a minha bisavó era ialorixá foi um fato que também me capturou para a escrita. Essa história familiar, mais uma vez, parecia o exemplo de uma experiência que não era exclusiva da minha família. É dessa história ancestral, que remete a um passado antes do passado, que as famílias negras são feitas, mas que desconhecem na maioria das vezes. A minha família, na vida, e a da Jordana, na ficção, viveram suas experiências com essa grande lacuna. O candomblé é uma religião de matriz africana que tem a memória como um elemento fundamental. Sendo assim, a representação dos orixás alinhavando passado, presente e futuro no enredo foi uma chave de composição importante que encontrei para o romance.

 

Como vê o atual momento da literatura brasileira? Vê mais diversidade do que tempos atrás? O que ainda falta?


Sim, a literatura brasileira é mais diversa hoje que há vinte anos, por exemplo. Durante a graduação, fui bolsista de iniciação científica da professora Regina Dalcastagnè e conheço bem os resultados da pesquisa sobre o perfil dos escritores e personagens na literatura brasileira contemporânea. É inegável que de 2004, ano em que a pesquisa foi publicada, até hoje temos um arcabouço de histórias sendo contadas por óticas mais plurais que no passado. O que falta à literatura brasileira, para mim, é a possibilidade de protagonizar mais encontros com leitores por meio de bibliotecas públicas, mais acesso ao livro. O grande sonho de todos nós que amamos a literatura é que ela faça parte da vida das pessoas, o que envolve políticas públicas na educação, na cultura e compromisso nosso para a vida toda.

 

Quais autores, ou autoras, com as quais mais se identifica e que livros mais gostou de ler?


A obra da Toni Morrison é toda maravilhosa para mim, gostei especialmente de ler “Sula” e “Compaixão”, gosto de como sempre tem algo subcutâneo, digamos, em seus personagens. Às vezes é algo que nem mesmo a escritora parece enxergar de tão bem que ela nos esconde, num gesto de profundo respeito aos seus leitores, para que possamos chegar às nossas conclusões. Amo a forma como ela criou as histórias que contou.

 

Na sua formação como leitora, quais foram os autores mais marcantes?


Graciliano Ramos e Lygia Fagundes Telles, sem dúvida. Li a maioria dos livros deles quando era garota e foram obras que me formaram mesmo. Já na graduação, quando tive acesso a mais autores e autoras, já que cursei Letras, me apaixonei pela Marilene Felinto. Posso dizer que “As mulheres de Tijucopapo” é um romance marcante na minha vida.

 

Você trabalhou como professora e agora está no MinC em uma função executiva que trabalha a questão do estímulo à leitura. Conhecendo agora os dois lados, do magistério e do ministério, quais os maiores desafios para se implementar o hábito da leitura, desde a infância, em nosso país e formar novos leitores?


Ainda carecemos de recursos em nossas escolas e o hábito da leitura é algo que requer tempo, dedicação e também recursos materiais. Antes de evocar seu conhecimento, criatividade e sensibilidade para ler em conjunto, os docentes precisam vencer as dificuldades materiais. Ter acesso a um acervo atualizado de obras literárias em quantidade suficiente para trabalhar com uma turma ainda está longe da realidade da sala de aula. O Brasil tem o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) desde 1937. A partir de 2025, acredito que teremos um avanço significativo neste cenário, pois a escola atendida pelo PNLD Literário terá uma expansão no acesso ao livro dentro do seu território, ou seja, os livros literários irão tanto para a escola quanto para as bibliotecas públicas e comunitárias (cadastradas no Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, o SNBP, sob responsabilidade do MinC) dos territórios próximos a ela. Isso terá um impacto considerável, pois ao adotar uma obra literária para suas turmas, os professores e professoras poderão estimular uma rede de empréstimos e circulação dos livros nesses espaços com os estudantes. Acredito que a novidade será importante para o desenvolvimento de melhores condições para a formação de leitores na escola e nas bibliotecas.

 

Referência

MARCELO, Carlos. Cicatrizes nas construções de uma cidade e de uma identidade. Estado de Minas, Belo Horizonte, 15 mar. 2025. Disponível em: https://www.em.com.br/pensar/2025/03/7084732-cicatrizes-nas-construcoes-de-uma-cidade-e-de-uma-identidade.html. Acesso em: 22 abr. 2026.

 


 

PUBLICAÇÕES

 

Obra Individual

 

A construção. São Paulo: Editora Nós, 2024.

 


TEXTOS


CRÍTICA

Resenha de A construção, por Elisângela Aparecida Lopes Fialho

 


FONTES DE CONSULTA

 


LINKS

Instagram da autora

"A construção" de Andressa Marques: um regristro de vozes abafadas, Revista Raça

Narradores de si e do Brasil, Revista CartaCapital