A herança afro-brasileira em suas vozes: dos longes
da senzala à fala e ato de agora


The Afro-Brazilian heritage in its voices: from the distant
slave-quarters to the speech and act of today

 

Heloisa Toller Gomes*

 

Em memória do grande sociólogo e pensador do Brasil, Clóvis Moura

 

 

Resumo

Este trabalho realça o veio sociocultural afro-brasileiro a partir da leitura de três poemas do século XX que imprimem a força da presença negra no país, do passado escravista aos dias de hoje. Os poemas em pauta são “Vozes mulheres”, de Conceição Evaristo, “Sou negro”, de Solano Trindade e “Infância” de Carlos Drummond de Andrade – os dois primeiros pertencentes ao cânone afro-brasileiro, o terceiro, da série literária consagrada. O eixo a ligar os referidos textos é a questão da família: filiação e ancestralidade, maternidade e paternidade. Através de seus respectivos recursos discursivos, os poemas estabelecem loci de enunciação em que alguma determinada (e representativa) família ocupa um lugar, ou não-lugar, no quadro social. Na tessitura poética, isto se realiza pela elaboração de um certo presente, sempre com a necessária referência a um passado implacável. Como fundamentação teórica, considera-se aqui o papel de uma nova hermenêutica já apontada por Michel Foucault, assim como recentes possibilidades interpretativas a partir da crítica pós-colonial brasileira e internacional (Stuart Hall, Silviano Santiago, Néstor García Canclini).

 

Abstract

This paper looks at the Afro-Brazilian social and cultural heritage, through the reading of three 20th century poems which emphasize the strength of the Black presence in Brazil, from the slave past to the present. The poems are Conceição Evaristo`s “Vozes mulheres” (Women voices), Solano Trindade`s “Sou negro” (I am Black) and Carlos Drummond de Andrade`s “Infância” (Infancy) – the first two from the Afro-Brazilian canon, the third belonging to the established literary canon. The issue of the family – filiation and ancestry, motherhood and paternity – connects the poems. In their respective discursive resourses, they establish loci of enunciation in which a certain representative family occupies a place, or “non-place”, in the social scene. In the poetic texture, this concerns the re-elaboration of the present, always with the necessary reference to an implacable past. As theoretical support, the role of a new hermeneutics (already pointed out by Michel Foucault) is considered, as well as recent interpretative possibilities offered by postcolonial criticism – Brazilian and international (Stuart Hall, Silviano Santiago, Néstor García Canclini).

 

As novas distribuições e atribuições dos saberes e os deslocamentos das identidades de classe, gênero, sexualidade, etnia e nacionalidade têm suscitado o crescente interesse acadêmico em questões de identidade cultural, gerando debates que atravessam a teoria social e os estudos literários desde a segunda década do século XX. Acelerou-se o colapso da noção iluminista e romântica do “eu unificado”, da pessoa humana como indivíduo centrado, dotado coerentemente de razão e emoção, consciência e capacidade de ação. As polêmicas daí resultantes representaram (ou mesmo resultaram de) um processo de abertura para uma nova hermenêutica, lembra Michel Foucault, detonado ainda no século XIX, na esteira do pensamento iconoclasta de Nietzsche, Marx e Freud – para Foucault , os responsáveis por irreversíveis rupturas e por “três grandes feridas narcisistas na cultura ocidental”: aliás, ele apropria a expressão de Freud, tendo este se referido a Copérnico, a Darwin e a ele próprio (Foucault, 1975/1987). A perda de um “sentido de si estável”, acentua Stuart Hall, acionou a erosão dos quadros de referências norteadores do processo civilizatório, dos até então sólidos valores que forneciam localizações filosóficas, morais, espirituais aos indivíduos enquanto seres sociais:

O sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas. (Hall, 1992/ 1997, p.12)

A passagem do conceito de identidade iluminista para o conceito sociológico - e, depois, para as noções de sujeito “pós-moderno” (segundo muitos críticos, dentre os quais o próprio Hall) ou “pós-colonial” (segundo Homi Bhabha) ou “híbrido” (conforme descreve Néstor García Canclini, em Culturas híbridas) – em outras palavras, a atual descentralização do conceito de sujeito e, consequentemente, de subjetividade, é tão perturbador quanto fecundo, do ponto de vista interpretativo.

Na verdade, rompendo-se o cerco eurocêntrico, a identidade torna-se “uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam.” Instituem-se, assim, políticas culturais de diferença, não mais necessariamente modeladas e adequadas aos modelos europeus consagrados, carregando “os traços das culturas, das tradições, das linguagens e das histórias particulares pelas quais foram marcadas.” (Hall, 1997, p.96)

No Brasil, nas Américas mestiças, toda essa mudança de paradigma nos leva inevitável e indiscutivelmente de volta à África e a suas diásporas. Conforme lembra Alberto da Costa e Silva, atestando a nossa formação multifacetada,

... é difícil também encontrar um brasileiro negro que não tenha sangue branco, é muito difícil. De forma que nós estamos, irremediavelmente, condenados a misturar a África com as Américas e com a Europa. (2010, p.72)

Setores progressistas da intelectualidade têm buscado novas abordagens capazes de melhor dar conta desta imensa diversidade, na produção cultural do presente e do passado. Nas alas mais dinâmicas da academia, prevalece hoje a ideia de que a herança ocidental necessita ser revista, reelaborada, reescrita: em suma, descentralizada.

A Crítica Pós-Colonial, na releitura da produção cultural ideologicamente comprometida com o aparato colonial europeu e na simultânea investigação de discursos que expressam projetos de resistência do colonizado, em estratégias de revide na luta pela autonomia, tem contribuído expressivamente neste sentido. A interrogação textual desmistificadora gera formas alternativas de racionalidade que problematizam e desarticulam noções culturais estratificadas, na configuração de novos recortes interpretativos.

Assim, um pensar renovado sobre questões sociais, contemporâneo de dramáticos acontecimentos históricos, acarretou a irrupção de visões mais abrangentes sobre a marca sociocultural de extratos populacionais antes desqualificados pela sociedade abrangente – no Brasil, e nas Américas em geral, basicamente os negros, os indígenas e seus descendentes mestiços. Abriram-se, embora ainda insuficientemente, espaços e canais de comunicação, tendo a noção de alteridade adquirido outros contornos, em inéditas percepções e possibilidades de agenciamento e expressão. Os excluídos, afinal, começaram a ser ouvidos e a falar mais abertamente de si e do mundo, recusando-se a ser apenas falados por outros. Estes reivindicam hoje o seu lugar de direito, não como objetos de estudo, mas fundamentalmente, através do devido reconhecimento sociocultural como sujeitos e autores de um discurso próprio.

Chama-se de selvagem aquilo que não se conhece, provocou a ironia fina de Montaigne já no século XVI, reconhecendo a relatividade dos juízos humanos (Montaigne, 1588/1965, p.303). Mesmo em distantes tempos passados houve quem tocasse na ferida, então raramente exposta ou mesmo conscientizada, do etnocentrismo europeu reinante. Remando contra a maré hegemônica, de forma análoga também assim procederam, já na literatura ocidental anterior ao século XX, Cervantes, Voltaire, Rousseau, Jonathan Swift, Manuel Bocage, Mark Twain, Machado de Assis, entre tantos outros escritores e artistas, muitos deles herdeiros da rica tradição parodística que remonta a Aristófanes, advindos de diversos cantos da Europa e do mundo.

Em tempos ainda escravistas, no Brasil, as obras dos autores negros Luiz Gama e Maria Firmina dos Reis são exemplos de criação literária do passado cuja produção se encontra hoje crescentemente valorizada. Com esses casos esparsos, reitero aqui a importância da releitura renovada do passado em sua expressão discursiva e seus silêncios, valores e interditos, no indispensável cruzamento de vozes idas e vividas com as que hoje soam – com as inevitáveis tensões que permeiam a todas – para melhor compreensão da(s) sociedade(s) que habitamos, e que nos habitam.

Este trabalho realça o veio sociocultural afro-brasileiro, longamente silenciado e impedido de se manifestar a não ser em discursos alternativos ou clandestinos. Não se trata, aqui, de questões de “influência da cultura negra”, mas da marca negra, indelével, na formação populacional brasileira e na fermentação de nossa expressão cultural.

Autores e autoras afrodescendentes mostraram sempre uma lúcida noção da discriminação sofrida. Luiz Gama disse exercer a sua arte nas “abas do Parnaso” (1861/1974); Cruz e Sousa, em pungente poema e prosa, falou da solidão vivida por ele, o poeta negro, em Emparedado (1898/1995). Mais de cem anos depois, a escritora moradora da favela paulista do Canindé e catadora de papel, Carolina Maria de Jesus, atestava em Quarto de despejo (1960), a perseverança dos mecanismos de exclusão:

Eu já estou tão habituada com as latas de lixo, que não sei passar por elas sem ver o que há dentro. (...) Ontem eu li aquela fábula da rã e a vaca. Tenho a impressão que sou rã. Queria crescer até ficar do tamanho da vaca.1

No Brasil, como em todo o continente americano, a experiência do colonialismo, o escravismo e suas sequelas foram responsáveis por um conhecimento viciado e deficiente da herança negra que, acoplada a outras forças socioculturais e sempre no dinamismo das trocas, configurou o passado e atua no presente. O legado afrodescendente construiu a sua positividade à revelia do saber-poder hegemônico, a partir da experiência estilhaçada da diáspora e do trauma da escravidão.

Para todas as camadas e origens populacionais, a valorização desta marca, deste legado, constitui parte fundamental do (re)conhecimento de nossa identidade pessoal e nacional enquanto indivíduos, enquanto povo. O empobrecimento cultural empobrece a nós todos – sem distinção de gênero, classe, etnia. “A raça negra nos deu um povo”, foram as inesquecíveis palavras de Joaquim Nabuco em O Abolicionismo (1882/1977).

Pretendo, no que se segue, verificar como o calar imposto logrou ser gradualmente rompido, exorcizando-se um silêncio forçado e doentio, gerador de “fantasmas inquietos” como aquele de que falou Freud. Seguindo o fio dessa intricada trama de exclusão e, conversamente, da busca de cidadania tecida ao longo dos séculos, empreendo a análise de três poemas brasileiros – dois deles do cânone afrodescendente, um deles pertencente à série literária consagrada, a saber: Vozes mulheres, de Conceição Evaristo (nascida em 1946); Infância, de Carlos Drummond de Andrade (1902-87); e Sou negro, de Solano Trindade (1908-74).2

Os três poemas são aqui vistos como o microcosmo de um arquivo discursivo (como um grupo discursivo), segundo a formulação de “arquivo” Michel Foucault, especialmente em A Arqueologia do saber.3

Esses poemas do século XX entrelaçam tradições díspares, favorecendo a desconstrução de hierarquias culturais. A leitura intertextual auxilia a desvendar a intricada trama de exclusão/inclusão e, conversamente, a busca de cidadania tecida ao longo dos séculos. Os poemas recriam, lançando mão de seus recursos próprios, o que foi e tem sido a trajetória do negro no Brasil – com Trindade e Evaristo, do ponto de vista pessoal e coletivo da comunidade negra; com Drummond, na rememoração de cunho autobiográfico de sua vida de menino, no universo aparentemente plácido da família patriarcal.

Os poemas

Vozes mulheres recolhe e reconstitui as experiências de sucessivas gerações, sempre seguindo a linha matrilinear. O eu-poético ali se apresenta como uma daquelas “vozes mulheres” que soam e ecoam – do navio negreiro aos labirintos das favelas urbanas, dos “versos perplexos/ com rimas de sangue e fome” às ressonâncias projetadas para o amanhã, na voz libertária da filha. Os acontecimentos são re-escritos pela perspectiva dos/das que configuram a parte negligenciada da história oficial, mas que afirmam a própria positividade na “fala e ato de agora”, diz o poema, e no exercício de um provocador contradiscurso.

Essas vozes murmuradas transmitem uma vasta memória de resistência que abarca todo um cabedal de ensinamentos e estratégias de sobrevivência. Vínculos cheios de significação reivindicam, no poema, o tempo negado. Os subterrâneos da história ocultam aquilo que o poema retoma e recupera: as narrativas das mulheres negras em suas revoluções minuciosas, invisíveis, persistentes.

Vozes aparentemente submissas tramam o tecido discursivo de uma genealogia feminina, investida na figura da mãe. Com sua ênfase na figura materna, como aqui sucede, a escrita de mulheres negras evoca na família uma das unidades básicas de proteção contra pressões tentando silenciar, desestabilizar e desagregar os seus laços. As figuras de maternidade não se limitam à matriz biológica, desempenhando uma função social – que pode ser transmitida de mãe a filha, de irmã a irmã, de avó a neta, no espectro infinito dos cuidados recíprocos. A família é um motivo recorrente a expressar vivências compartilhadas, apontando para sentidos de identidade e perpetuação.4

É uma poesia que constantemente inscreve e preserva, através da escrita, componentes da oralidade fundadora. É o caso do presente poema, uma das muitas jóias na produção literária de Conceição Evaristo. “Vozes mulheres” ressalta o falar que redime, e as mulheres que o poema invoca rejeitam o silenciamento secularmente imposto.

Já o poema “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade, percorre um caminho diverso e mais oblíquo, ao também estabelecer a força do legado afro-brasileiro – ainda e sempre pela marca da mulher negra. Estamos, agora, no mundo da família patriarcal, que o eu-poético assume como seu. Na evocação de tempos distantes, o poema de Drummond pinta, com delicadeza de textura impressionista, o conjunto do quadro familiar:

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.

Minha mãe ficava sentada, cosendo.

Meu irmão pequeno dormia.

Infância” situa o leitor no espaço plácido de uma cena rural brasileira e na momentânea quietude em que uma criança dorme:

Minha mãe ficava sentada cosendo

olhando para mim:

Psiu ... Não acorde o menino.

Para o berço onde pousou um mosquito.

E dava um suspiro... Que fundo!

O narrador, “menino antigo”, prenuncia a sua vocação e desdobra desde então as velas do imaginário literário:

Eu sozinho menino entre mangueiras

lia a história de Robinson Crusoé.

Comprida história que não acaba mais.

O discurso poético, ao final, retorna ao pai e faz nova alusão à ficção de Daniel Defoe – desta vez diretamente ao personagem-título, efetuando, em relação a este, a valorização autobiográfica do “menino entre mangueiras”:

E eu não sabia que minha história

era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Muito se pode dizer sobre as configurações sociofamiliares em um poema como “Infância”, tão denso quanto aparentemente singelo em sua execução. Por exemplo, sobre aquele pai distante e (oni)potente aos olhos do menino, campeando “no mato sem fim da fazenda”; sobre aquela mãe que “ficava sentada cosendo” (aliás, o único verso integralmente repetido no texto), a suspirar “fundo” enquanto velava o sono do filho pequeno; também sobre a inversão das hierarquias vigentes, na tocante homenagem à “história” do menino brasileiro, interiorano, “entre mangueiras”, face ao poderoso eurocentrismo cultural.5

Aqui nos interessa, sobretudo, destacar uma claridade ofuscante no interior do poema: o “meio-dia branco de luz” que incorpora à cena uma voz sem corpo, sem posição familiar nomeada, tão somente aliada a um sexo e cor, que “chamava para o café”. Leiamos o texto:

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu

a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu

chamava para o café.

Café preto que nem a preta velha

café gostoso

café bom.

A luminosidade difusa da infância longínqua cede lugar ao jogo definido de tons contrastantes em que se compraz o discurso poético: meio-dia branco, café preto, preta velha. Quase-silêncio dos demais personagens, em oposição à voz nutriente que chama para a refeição brasileira por excelência, o café.

A “preta velha” traz consigo a senzala e seus “longes”, que o poema atualiza. Foi lá que se deu a aprendizagem do ninar, diz a voz narrativa, revivendo aquilo que ela, a mulher negra, “nunca esqueceu” e que o poema reclama, no chamado da emblemática figura feminina.

Retomamos aqui o motivo da mãe, que nada tem dos estereótipos de “mãe preta”. No poema, por detrás da serena esfera da família, a personagem negra remete ao trabalho escravo e suas sequelas. Trata-se de uma voz moldada (e que molda, continuadamente, o seu entorno) na senzala, em contraste à vida assentada, monótona, da mulher patriarcal. O poema instaura o trabalho material e maternal da mulher negra naquele círculo familiar que tanto a inclui quanto exclui, num perto-longe característico de todo o poema e da própria cultura herdada da sociedade escravista.

O gosto do café, em “Infância”, se liga à dimensão econômica dos cafezais e, metonimicamente, a toda a civilização monocultora escravista. A poesia de Drummond segue, nisto, um paradigma de leitura crítico-poética da história nacional de que também se serviu o modernismo de Oswald de Andrade, notadamente em Poemas da colonização.6

O terceiro poema aqui abordado, “Sou negro”, de Solano Trindade, também levanta a questão do trabalho escravo, desta vez através da dupla linhagem (masculina e feminina) remontando à ancestralidade africana, ao “sol da África”:

Contaram-me que meus avós

vieram de Loanda

como mercadoria de baixo preço

plantaram cana pro senhor do engenho novo

e fundaram o primeiro maracatu.

O último verso citado acima confere ao poema um notável diferencial. Ao acentuar o agenciamento da criatividade negra (“fundaram o primeiro maracatu”) o poema interliga determinada e emblemática família à instauração, entre nós, da cultura afro-brasileira – até recentes anos mal conhecida ou ignorada como tal pela sociedade abrangente.7 Em reconhecimento a essa cultura, o poema evoca o maracatu e repercute com forte dimensão sonora, ressoando “tambores/ atabaques, gonguês e agogôs” em orquestração já não mais africana, porém afro-brasileira – o poema abre-se para “o samba/ o batuque/ o bamboleio” na dança, na sensualidade livre do corpo.

Como “Vozes mulheres”, o texto trabalha o motivo da família negra e remete à ancestralidade africana através das gerações. No poema de Trindade a rebeldia é mais direta, o ânimo menos introspectivo, a ação mais aguerrida – porém, similarmente, os dois poemas mantêm a linguagem coloquial e “a oralidade enquanto suporte de expressão” (Patrocínio, 2013, p.15):

Mesmo vovó

não foi de brincadeira

Na guerra dos Malês

ela se destacou.

Em sua reescrita da história do Brasil, “Sou negro” rejeita explicitamente um dos estereótipos mais conhecidos – a saber, o da paternidade na submissão – sempre por meio de figuras ancestrais familiares:

Depois meu avô brigou como um danado

nas terras de Zumbi

Era valente como quê

Na capoeira ou a faca

Escreveu não leu

O pau comeu

Não foi um pai João

humilde e manso

O território deixa, assim, de ser a nação branca, europeizada, para transmutar-se poeticamente “nas terras de Zumbi”. Africaniza-se a herança, desconstroem-se os mitos de fundação que instituem e reforçam a matriz europeia desacreditando as demais.

Sugiro, na leitura aqui encetada, que a presença negra através da temática familiar é o eixo em torno do qual se dá o funcionamento dos três poemas, em sua apreensão do social. Trata-se de uma presença fundadora, nunca enquanto “mito”, porém enquanto realidade populacional e cultural na civilização brasileira. Como os poemas mostram e, segundo espero, a análise textual ajude a desvelar, tal presença mostra-se profícua e plural na fabricação poética, assim como na crítica cultural e literária, e não menos na necessária reformulação e releitura da história do Brasil. O passado distante desponta, não como traço morto, mas como memória viva, indicador do presente e de um futuro a construir no conhecimento. “Se eu faço isto” diz Foucault referindo-se a sua “arqueologia”, “é com o objetivo de saber o que somos hoje” (apud Revel, 2008, p.14).

Sou Negro” acentua a problemática da identidade sobre outras camadas de significação. Como em “Vozes mulheres”, a realização escrita se dá a partir da tensão com os textos da oralidade, a “grande dominante cultural africana”, no dizer de Laura Cavalcante Padilha (1995, p.10). Em “Infância”, a problemática do tempo-espaço, abordada através do privilégio de um instante familiar tão simples quanto revelador, abarca e abraça contrastes socioculturais e de classe.

Os três poemas – assim como outros, que eles evocam e trazem à baila – compõem partes autônomas, porém complementares, de um mosaico expressivo de cultura, povoamento, população e trabalho. Em sua execução, na representação de gentes e cenários, na reflexão que induzem sobre a formação brasileira, sobre as dores de nossa história e também sobre as suas realizações, eles desdobram parte de um belo tecido discursivo em seus fios, nós, tramas – sempre no jogo de calar e falar, de sombra e luz, de silêncios tensos e sons exuberantes que a teia poética explora e exibe.

Nenhum desses poemas chega a alguma conclusão – nem tampouco esta sua análise. No tratamento da coisa cultural, almeja-se buscar primordialmente, segundo penso, algo que aponte para a curiosidade de buscar mais, e sempre mais, rentáveis caminhos.

Notas

1 Carolina Maria de Jesus teve seu livro mais importante, Quarto de despejo, traduzido em 13 línguas. “Independentemente da cobiçada qualidade textual”, escreve o organizador de sua Antologia pessoal, José Carlos Sebe Bom Meihy, “a explicação que justifica zelo face a estes textos remete ao quilate social da mensagem e à expressão da vontade comunicativa de uma mulher que, sabendo-se segregada, jamais aceitou a condição de submissa, favelada, mãe solteira, inferior.” (Meihy, 1996, p.11)

2 As referências aos poemas são aqui feitas a partir das seguintes edições: Evaristo, C. “Vozes mulheres”: In Cadernos negros 13 - poemas (1990). São Paulo: Quilombhoje, p.32-33; Trindade, S. “Sou negro”: In Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. n.25. (1961/1997). Brasília: IPHAN, p.123; Andrade, C. D. “Infância”: Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967, p.53-54.

3 O “arquivo” de Foucault, que é parte de sua “arqueologia”, visa particularmente ao presente e problematiza o nosso próprio pertencimento, tanto a um regime de discursividade quanto a uma configuração do poder. Trata-se de apreender “o discurso em sua materialidade”, diz Foucault, “procurando entender o jogo de regras que torna possível, durante um certo período, o aparecimento de determinados objetos e que define as suas transformações.” Segundo Revel, 2008, p.11-12.

4 Assim também Leda Maria Martins, em “Cantiga de amares” (1983/2011), evoca a mãe como “Guardiã / De todas as recompensas”. In Duarte, E. A., 2011, p.173.

5 O clássico inglês de Daniel Defoe (The life and strange surprising adventures of Robinson Crusoe e suas duas sequências, The farther adventures of Robinson Crusoe e The serious reflections of Robinson Crusoe (1719-1720) fazem uma apologia do poderio colonial britânico e do espírito mercantilista. Segundo The Bloomsbury guide to English Literature, “[m]odern critics have noticed how Crusoe sees human beings merely in terms of their economic virtues.” Wynne-Davies, 1990, p.854.

6 O primeiro mini poema da série Poemas da colonização, “a transação”, diz o seguinte: “O fazendeiro criara filhos / Escravos escravas / Nos terreiros de pitangas e jabuticabas / Mas um dia trocou / O ouro da carne preta e musculosa / As gabirobas e os coqueiros / Os monjolos e os bois / Por terras imaginárias / Onde nasceria a lavoura verde do café.” Andrade, p.30.

7 Reginaldo Prandi escreve a respeito: “Com a formação da sociedade de classes, cada vez mais as organizações de corte estamental e étnico foram perdendo o sentido e aspectos das culturas africanas foram igualmente sendo mais e mais absorvidos pela cultura nacional, que é branca e europeia. Embora em muitos aspectos, sobretudo no campo das artes, possamos identificar no final do século XIX e no início do século XX manifestações culturais caracteristicamente negras, sua sobrevivência dependia de sua capacidade de ser absorvida pela cultura branca. É o caso exemplar da música popular brasileira, em que os ritmos e estruturas melódicas de origem africana sobreviveram na medida em que passaram a interessar aos compositores brancos ou consumidores da cultura branca. (O processo de branqueamento da cultura africana) somente foi limitadamente revertido a partir dos anos 60, quando a diferença, o pluralismo cultural e a valorização das origens étnicas passaram a constituir a orientação dos produtores e consumidores culturais, num movimento de âmbito cultural que foi bastante expressivo no Brasil.” (p. 28-29).

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* Heloisa Toller Gomes é Mestre e Doutora em Letras pela PUC Rio, Professora da UERJ e Pesquisadora-Associada do PACC-UFRJ. Autora, entre outros de O negro e o romantismo brasileiro (1988); As Marcas da Escravidão: o negro e o discurso oitocentista no Brasil e nos Estados Unidos (2009); e coorganizadora de Crítica pós-colonial: panorama de leituras contemporâneas (2. ed., 2019).

 

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Era madrugada e Deus falou 

Terça-feira, setembro de 99, o dia realmente não havia dado resultados, nada fora produzido, nada havia mudado para melhor, nada de nada. Como não podia faltar nesses dias de melancolia, estava chovendo. Eu, com a sinusite mais viva do que nunca, tentava me controlar entre o mau humor e o desânimo. Para piorar o que já não vinha bem, ainda tinha aquele texto, que mesmo depois de semanas que havia sido escrito, ainda me atormentava com sua polêmica repercussão. Bastou tocar no assunto maldito (racismo) e pronto, aquele que antes só sabia contar amigos passou a colecionar ferrenhos inimigos. 

O problema não estava só em falar nesse mal social, que, no Brasil, a maioria prefere fingir não enxergar; o incômodo estava no fato de o texto obrigar o leitor a tomar uma postura, ou pelo menos enxergar aquilo que há muito tempo a peneira não tem conseguido tapar. 

Cheguei em casa de madrugada, desanimado, havia acabado de discutir pesado com mais um amigo, e, para completar a saga, havia ainda a minha casa, que, depois de um dia de desleixo, estava com a louça a ser lavada e o chão a ser varrido. Normalmente eu teria ido dormir, porém não me conformei em deixar mais uma pendência para o dia seguinte. Comecei pela louça. 

Enquanto lavava, meu pensamento vagueava entre a saudade de minha mãe e os atritos com os amigos. Esfregava os pratos engordurados e colocava-os organizados dentro da pia, para que, juntos, esperassem o momento do enxágüe; me senti bem ao lembrar de minha mãe ensinando-me, ainda menino, a lavar a louça daquele modo. Dizia: "Você precisa organizar as coisas para poder limpá-las, se começa a limpá-las sem organização, verá que no final estarão mal limpas e com certeza algo estará quebrado". Pensei na discussão, como era dificil separar as coisas, a amizade conquistada e o ideal a ser seguido, as polêmicas sempre são levadas "a ferro" para o lado pessoal, quando na verdade deveriam ser vistas no sentido amplo social. Não se deve ficar ofendido com opiniões contrárias, mas sim debatê-las com maturidade, trazendo a consciência limpa de quem busca soluções, e não somente o atrito. Mas como é difícil separar as coisas! 

Estava acabando de enxaguar os copos quando me veio outro pensamento sobre a infância: lembrava como eu gostava de observar os copos de vidro, especialmente aqueles grandes com relevos artísticos, que raramente eram usados; estes, só pegávamos em dia de visita. Na hora de lavá-los, mereciam zelo especial, mãos firmes e muita atenção para não derrubá-los. São como os amigos verdadeiros, grandiosos, transparentes, e não se pode enchê-los com qualquer coisa. Na hora de secá-los, lembrei-me de mais uma lição de minha mãe: "Copo não se seca por dentro, deve-se deixá-lo escorrer sozinho". 

Lidar com pessoas é algo complicado, são necessárias dedicação, perseverança e uma sensibilidade enorme. Precisa-se ter o perdão sempre à mão; compreender e respeitar os motivos do próximo é fundamental. Talvez, por conta disso, Cristo tenha tido tanto êxito com seus discípulos. Ele tinha o coração puro. 

Já acabava de varrer a casa quando recordei uma última lição de minha mãe: “Melhor dormir mais tarde, com a casa limpa, do que se deitar cedo com tudo sujo". 

(Helton Fesan; Cadernos Negros 26, p.67)  

O PALHAÇO NO PÁTIO

Sorria no meio do pátio da escola. 

Um sorriso aliviado de quem chega ao fim. 

Rodava com os braços abertos como quem deseja abraçar o vento (ou o vento que deseja ser abraçado). 

Uma mistura de coisa e gente rodopiava na sua cabeça. Não eram rostos, era um borrão que ria. 

A mesma sensação de sempre, mas estava cansado de fugir de um fim que julgava certo. 

A platéia ria inocente, se divertindo com a cena - é só mais uma: 

Como da vez que fora pra aula todo sujo; que apareceu com a cabeça raspada; que mijou nas calças; que chorou na frente dos amigos porque não tinha pai; que fora pego fumando; que xingou a servente; que tirou as calças no meio da sala; que queimou as carteiras; que explodiu a privada do banheiro; que sumiu da escola por quinze dias; que roubou a carteira da professora; que jurou de morte o aluno da 5ª E que lhe chamou de preto sujo... 

O palhaço mostra a arma para todos verem dos fogem. 

Põe a arma na cabeça - todos gritam. 

Atira - morre só. 

(Helton Fesan; Cadernos Negros vol.30; p.109) 

O AVATAR

Alto, muito alto descia a rua. Montado em mula com trote seguro e tranquilo em plena tarde de domingo preguiçoso. 

Lá se ia em direção à praça de chão de mármore, contraposto com o verdejante gramado central. 

No centro da praça, um chafariz em forma de peixe, que fazia jorrar de sua boca um fino jato de água azul anil. 

Em volta da praça, Cafés com mesas na calçada, onde pais despreocupados retiravam de seus bolsos pala- vras elegantes e jogavam fartas conversas ao ar, formando um acúmulo de letras que boiavam sobre suas cabeças até o desaparecer sem sentido. 

Na fumaça das conversas flutuavam calotas croma- das, aparelhos modernos, áudio, vídeos e nets. Pairavam no ar o bom emprego, a promoção, os lucros e juros. 

De vez em quando, surgiam lascivas e libidos em forma de "cochicho fumaça", quase imperceptível aos olhos. Senhoras de alta classe vestindo o que chamavam de alta-costura, tiravam de suas bolsas palavras cosméticas, inovações cirúrgicas e pó de modas, que faziam questão de jogar bem próximo aos olhos das amigas. 

Descia a mula a imensa rua com seu corpo de pequena mula, e, sobre ela, aquele homem alto, muito alto, vestido de abadá branco, com barba farta e sorriso largo. Em torno de si, giravam folhas e palhas. Em torno de si, o tempo pulava em festa. 

A praça estava repleta de crianças que corriam como brasinhas de matizes variadas e enchiam os olhos de colorido. Menininhas e menininhos divertiam-se com palavrinhas que os pais lhes davam, jogando-as uns nos outros, só para vê-las estourarem no corpo alheio. E ficavam rindo, riam muito daqueles que eram acertados na brincadeira. 

Às vezes corriam às mesas de seus pais pedindo de forma imponente: 

Pai, eu quero! Mãe, me dá! 

E os pais, apressados em dispensá-los, com vontade de voltar ao jogo de palavras, abriam as carteiras ou bolsas, tiravam alguns "meu pai me deu", "minha mãe compro", e despachavam os pequeninos de volta à campanha. 

Algumas mães gritavam de vez em quando: Cuidaaado filha, não vá cair! 

Fiiilho, se pega no olho machuca! Era inútil, vez ou outra se ouvia o choro de algum azaradinho que vinha dizendo: 

Mã mã mãaaae ele acertou um "pai me deu" na testa! 

Ou então, seguia-se com triste ladainha em meio a soluços intermináveis: 

- Pá... pai, eu tava brin...can..cando... aí ve... veio o menino, pegou um "mãe comprô" e... e... pluft no meu olho! 

-E você não descontou? 

-Nã... Nãaao! 

Toma aqui um "TE COMPREI" bem grande. Vai esfrega na cara dele! 

E saía a criança contente por poder voltar à brincadeira com munição maior e melhor. 

O enorme homem, da mula pequenina, chegou à praça e ajeitou suas bugigangas. Era um Alabê andarilho e trazia um saco cheio de instrumentos e artefatos místicos. 

Tomou de tambores e toava gostosa melodia infantil convocando a molecada, jogando ao ar palavras brilhantes, que, tiradas do saco mágico, explodiam no céu. 

Eram letras de artifício, que de tão reluzentes trouxeram todas as crianças da praça ao seu redor. Vinham curiosas, eufóricas, formando um cerrado saltitante em torno do homem da mula, aquela imensa árvore de tronco alvo e copado negrume, feliz e frutífero de pensamentos. 

Tamanha era a algazarra dos códigos que explodiam, que até os pais passaram a dar um pouco de atenção ao inusitado personagem. 

Diziam entre si: 

É vendedor de palavras doces! Bom para as crianças, que terão algo diferente para ver! 

Reparou como ele é alto? 

Que roupa é aquela? Estranha... 

Esta cor... é fora de época... destoa... De qualquer forma, não paravam seus jogos. Tudo seguia igual. 

A vida negritava naquela tarde esbranquiçada a felicidade dos pequeninos. 

Entre os adultos só o ser despeito crescia. 

Quando estavam todas as crianças reunidas no centro da praça, o enorme homem inclinou-se um pouco e estendeu as duas enormes mãos em forma de alguidar na direção dos pequenos, que, por encanto, depositavam na concha as palavras caras que os pais lhes haviam dado. 

As caríssimas murchavam diante dos olhos de todos até desaparecerem por completo. A enorme barba crespa e farta do imenso homem abriase em boca soltando bolas de sabão, soltando vissungos... 

Os pais ficaram confusos, já que do buraco de sua barba as palavras tornavam-se arco-íris circulares que pareciam vir do nada e em quantidades absurdas. Alguns diziam descrentes: 

- É truque! Um amigo meu faz isso, deve ter uma bolsa escondida debaixo dessa roupa esquisita, não vê como é larga? Outros se animavam em gritos e chamados que misturavam entusiasmo e azedume pelos feitos. Falavam com veneno: Agora tira uma "palavra carro", tem que ser zero quilômetro! Pra mim, uma "frase casa na praia", duplex! 

Quero ver fazer isso com as palavras de meu marido! Cả, cá, cá cá cá... Alguém havia levado um saco de pequenos despeitos afiados que passaram a ser arremessados contra os vissungos, que explodiam no ar tornando-se palavrões. 

O homem, enorme gameleira-branca, não se abalava. Fez subir um vento que misturava as letras e as tornava poesia flutuante. Depois estouravam e desciam em forma de chuva prateada arrancando exclamações de surpresa das meninas e meninos da Olá...Oiá...Oiá... praça: óia...óia... 

Em certo momento, aproximou-se um senhor com trajes finos, sapatos caros e jornal do dia debaixo do braço, parou em frente ao mago e, de forma até elegante, fez sinal para que o grande homem parasse sua apresentação, o que foi ignorado. 

Cavalheiro, como posso chamá-lo? — perguntou o nobre senhor. 

Ir. 

- Ir? Ir pra onde? 

Ir pra sempre... 

Bem Sr. Ir, não quero que me entenda mal... 

Não te preocupe, eu entendo tudo perfeitamente. 

- Bem, Sr. Ir, não quero ser indelicado, mas fato é que não poderá continuar a exibir seu espetáculo nesta praça, pois é... proibido. 

Diga de novo! Mas... explique por que me in 

Digo por que a lei o diz! 

-Se a lei diz, já foi dito. Mas acredito que a mesma não me interdiz, logo, não posso estar interdito só porque o senhor me diz! O homem ficou confuso, com olhar distante. Depois voltou: 

O senhor perturba a paz e a ordem! 

A paz não se abala, mas a ordem... Ordem de quem? - pergunta debochando sem parar a brincadeira com os mirins. 

Ordem! Ordem das coisas! responde irritado. 

Mas as coisas não dão ordem, as pessoas sim! O homem passou a achar aquela entidade que já era alta, ainda mais alta. Tão alta de barba farta que crescera a ponto do abadá, agora caído dos ombros, tornar-se mera faixa, simples ojá. 

O homem, antes brioso, precisou de instantes para se repensar. 

O gigante estendeu a mão e chamou as crianças para debaixo dela. Os pais, antes espectadores, levantaram-se com a vontade de recolher seus filhos, mas ele abriu a boca e soltou demorados contratempos no que os pais inclinaram-se e de seus bolsos caíram "palavras quinhão". 

Dos pescoços das mães soltaram-se diamantes ditongos Hiatos de ouro desprendiam-se de suas pulseiras ditongos. e iam ao chão. 

Tudo rolava contente aos pés das crianças que riam e amontoavam as palavras de riqueza debaixo dos pequeninos pés, servindo de degrau para que as cabecinhas se e encostassem à palma da mão do imenso Sr. Ir. 

As enormes mãos se enfiaram na barriga rasgando-a e fazendo um Zambiiiiiiiii. 

Abriu-se um negrume estrelado e o vento corria de dentro deste céu barriga. De lá saíram crianças magras e famintas que engoliram os pais, que comeram a mula, a praça, o ouro, e calaram tudo. 

Sobraram as crianças e o chafariz. 

Os pequenos coloriram-se nas águas e cirandaram de mãos dadas. 

E não mais juntaram palavras, e não mais envelheceram. 

(Helton Fesan; Cadernos Negros vol. 30; p.101) 

Anseios  

 

Quero seus cabelos  

crespos 

Ávidos beijos  

Quero seus cheiros  

Seus seios  

 

Quero ser negro  

Senho no  

Áfrico leito  

Quero seus arpejos  

Seu desvelo 

 

(Helton Fesan; Cadernos Negros vol.37; p.120)