As sementinhas de Gigantes 

 Eram duas sementes bem pequenininhas O vento olhou para elas e resolveu soprar. Primeiro, de mansinho. Assim 

-Foouuu! 

 Depois: 

 - Foouuuuuuuuuuu! 

 E foi ficando mais forte: 

 -Fooooouuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu! 

 As sementinhas se mexeram, depois rolaram, viraram cambalhota sem parar. Foram conhecendo novos lugares. Um aqui. Outro ali. Um pouco mais adiante depois 

 Até que, certo dia, uma delas sentiu um pingo d'água bem em cima de seu cocuruto. A outra recebeu um respingo vindo de outro lado 

 -Pluc 

 -Pluc, plucpluc 

 Dali a pouco 

 -Plucpluchuchiiiuuuuuuuuuuuuuuuu... 

 E foi um aguaceiro só. Os grãos tiveram que nadar, mas a correnteza ficava mais e mais forte, e eles foram se batendo por entre pedras, troncos aos trancos e barrancos. E veio a noite, trazendo uma lua e um pescar de uma, duas, cem, muitas estrelinhas. 

 Depois amanheceu o dia quente. Passarinhos, bem cedinho, conversavam tudo o que sabiam Era uma barulhada de todos conversando com todos ao mesmo tempo. 

 E nossas semennes, onde estariam? 

 A primeira, do fundo de um lamaçal, via as luzes da noite. A outra encontrou abrigo do sol debaixo de folhinhas perfumadas. 

 O tempo foi pasando. E passou muito tempo. Foi muito mesmo. 

 As sementes, aconchegadas pela terra, começaram... de repente... a sentir uma força que vinha de dentro delas. E era tanta que sua casca abriu para deixar sair pequenas raizes bem novinhas. 

 O impulso de crescer não parava, e as sementes se transfor maram num caule, uma espécie de pescoço, que se espichava cada vez mais alto, mais alto, mas alto. 

 Surgiram assim duas árvores, brotadas do chão. Uma delas nasceu num lugar em que a chamam de baobá. A outra cresceu numa região onde a chamam de embondeiro. Depois de mil anos, dois gigantes elas se tornaram. 

 O que dizem sobre elas não sou eu quem vai contar. 

 

(A semente que veio da África. São Paulo: Salamandra, 2005. p. 9, 10, 11)