Vozes-Mulheres
Conceição Evaristo
A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
O eco da vida-liberdade.
(In: Poemas de recordação e outros movimentos, 3.ed., p. 24-25)
Eu sou filho da poeira, da mata e da capoeira, da terra e do sertão. Eu sou filho da pobreza, da dúvida e da incerteza do solo deste chão. Eu carrego comigo a ciência e tenho plena consciência das lembranças do passado. Eu carrego em mim toda a sabedoria, E na pele preta tenho tatuada a força do meu passado, E faço questão de expor isso por onde eu vou. Eu não fui liberto, eu não sou fugido, eu não sou protegido e nunca fui caçado. Eu não sou só mais um negro brasileiro. Eu sou a volta, o retorno e o recomeço dos meus mais velhos. Eu sou porque eles são....
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