Vozes-Mulheres 

                      Conceição Evaristo

A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
        e
        fome.

 

A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
O eco da vida-liberdade.
   
(In: Poemas de recordação e outros movimentos, 3.ed., p. 24-25)

 


LIVROS E LIVROS

Ficção

Elisio Lopes Jr. - Monocontos: histórias para ler e encenar
MONOCONTOS - Histórias para Ler e Encenar   Eu sou filho da poeira, da mata e da capoeira, da terra e do sertão. Eu sou filho da pobreza, da dúvida e da incerteza do solo deste chão. Eu carrego comigo a ciência e tenho plena consciência das lembranças do passado. Eu carrego em mim toda a sabedoria, E na pele preta tenho tatuada a força do meu passado, E faço questão de expor isso por onde eu vou. Eu não fui liberto, eu não sou fugido, eu não sou protegido e nunca fui caçado. Eu não sou só mais um negro brasileiro. Eu sou a volta, o retorno e o recomeço dos meus mais velhos. Eu sou porque eles são....

Poesia

Gabriela Conrado – Eu perdi minha mãe na praia
Olhar em volta e perceber que está perdido. Buscar, entre os rostos desconhecidos, um único rosto capaz de nos localizar no mundo. Ao mesmo tempo, não saber seu nome: mãe. Uma experiência compartilhada em algum lugar de toda infância é se perder da mãe, ou apenas perde-la de vista, ainda que por um minuto. Em Eu perdi minha mãe na praia (Urutau, 2025), Gabriela Conrado nos convida a revisitar este minuto de desamparo e busca: a história das filhas perdidas nos litorais já foram todas escritas mas não há ainda uma história sobre as fi...

Ensaio

Antônio Bispo dos Santos - A terra dá, a terra quer
Não fizemos os quilombos sozinhos. Para que fizéssemos os quilombos, foi preciso trazer os nossos saberes de África, mas os povos indígenas daqui nos disseram que o que lá funcionava de um jeito, aqui funcionava de outro. Nessa confluência de saberes, formamos os quilombos, inventados pelos povos afroconfluentes, em conversa com os povos indígenas. No dia em que os quilombos perderem o medo das favelas, que as favelas confiarem nos quilombos e se juntarem às aldeias, todos em confluência, o asfalto vai derr...

Infantojuvenil

Patricia Santana - Entremeio sem babado / Minha mãe é negra sim / Cheirinho de neném
A representação do negro na literatura infantojuvenil é recente, iniciada nas décadas de 20 e 30 do século XX, com personagens secundárias dentro do espaço diegético ou como parte da cena doméstica cujas ações evidenciavam e reiteravam uma posição subalterna do negro. Conforme Souza & Lima (2006, p. 188), “os personagens negros não sabiam ler nem escrever, apenas repetiam o que ouviam, ou seja, não possuíam o conhecimento considerado erudito e eram representados de um modo estereotipado e depreciativo”. É mais recen...

Memória

Jeruse Romão - Antonieta de BarrosAntonieta de Barros e Jeruse Romão:escrevivências de negras catarinenses em seus tempos   Azânia Mahin Romão Nogueira*   Em 2019, minha mãe me entregou em um encadernado a porção deste livro que fala sobre a vida de Antonieta. Logo na primeira leitura do que viria a ser a obra que está em nossas mãos, eu percebi que estava diante de algo muito maior do que uma biografia. Mais do que o compromisso de contar a história de vida de uma negra com uma trajetória singular, o trabalho da professora Jeruse Romão reposiciona o que sabemos e apresenta tanto mais que de nós fora roubado sobre Antonieta...

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