Por um fio
Nasci de cabeça feita.
No começo, não sabia.
Entre os hábeis dedos maternos
via os meus crespos fios
domados por um laço,
que me prendia também por dentro.
Cresci sob um mito,
medo de me ver refletida
no espelho do que sempre fui.
Mas ainda menina, meu desejo
já se enroscava, virava trança
e me protegia.
Quando me vi desnuda
olhei demoradamente:
os pés plantados no chão
as pernas, troncos fortes
o ventre escuro
pleno de inquietações.
Mãos e braços regidos
por nossos ancestrais
seios fartos
da seiva que alimenta o mundo.
Vi em mim o riso de meu pai
o olhar de minha mãe.
De repente, me encontrei.
Soltos, meus cabelos
diziam de mim
mais do que qualquer palavra,
raízes que me conectam
com uma gente que veio antes de mim
reinventada na menina que pari.
(Nós, p. 44)
Em palestra proferida na Universidade de Belgrano, Argentina, em 24 de maio de 1978, o escritor Jorge Luis Borges (1899-1986) sublinhou sua admiração pelo universo dos livros: Dediquei parte de minha vida às letras, e creio que uma forma de felicidade é a leitura. Outra forma de felicidade – menor – é a criação poética, ou que chamamos de criação, mistura de esquecimento e lembrança do que lemos. Emerson coincide com Montaigne quanto ao fato de que devemos ler unicamente o que nos agrada, que um livro tem que ser uma forma de felicidade...
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