Travessias
Minha mãe
sempre teve medo
do mar.
Intrigada me pergunto:
o que a ameaça?
A imensidão poderosa
das águas?
Ou a ancestral memória
da longa travessia?
(Nós, p. 29)
Travessias
Minha mãe
sempre teve medo
do mar.
Intrigada me pergunto:
o que a ameaça?
A imensidão poderosa
das águas?
Ou a ancestral memória
da longa travessia?
(Nós, p. 29)
LIVROS E LIVROS
A biografia de Andressa Marques, escritora nascida em Taguatinga-DF, doutora em literatura pela Universidade de Brasília (UnB), com pesquisa e estudos relacionados à formação do leitor e autoria negra, sinaliza a nós o seu “lugar de fala”, o ponto de partida da visão de mundo que irá sustentar a narração do seu primeiro romance:...
A gente tem mais liberdade e poder do que normalmente fazemos uso. A resiliência, cantada e contada, em verso-prosa, por Aciomar de Oliveira, veio para compreender as desrazões que impulsionam o ser humano a julgar e condenar aquilo que é diferente. O egoísmo é irmão do orgulho e um dos maiores obstáculos ao aprimoramento social. Em 1685, John Locke escreveu a Epístola da Tolerância e chegou à conclusão de que o desrespeito à diversidade humana vem por conta da indiferença imposta às coisas que estão fora da “ordem natural”. Muito ...
As regras da arte, obra publicada por Pierre Bourdieu no ano 1992, na França e com tradução no Brasil em 1996, descreve o campo literário como um espaço de luta permanente entre os estabelecidos (aqueles que detêm o monopólio da legitimação e do capital simbólico) e os recém-chegados (aqueles que buscam ingressar no campo e modificar suas regras de funcionamento). O campo é justamente pautado pela tensão entre essas duas posições. Os primeiros trabalham pela conservação das regras, enquanto os segundos desejam a al...
Mais de trezentos anos de escravidão marcam a história de um país. E isso se reflete na maneira como nós, da outra extremidade do Atlântico, enxergamos a África. Em geral, a vislumbramos a partir do exotismo, fruto de nosso desconhecimento e das imagens estereotipadas difundidas no Ocidente. Mesmo nas escolas, o continente africano só passa a “existir” após a chegada dos europeus. De certa forma, é outra a África representada em Amani. Historiador e pesquisador da cultur...
“Tive a quem puxar”. Ouvi diversas vezes esse dito popular em minha infância. Depois de muito tempo, tenho a alegria de reencontrar com ele no livro Cartas para minha avó, de Djamila Ribeiro (Companhia das Letras, 2021). Lembro de sentir um misto de orgulho e espanto de autodescoberta quando alguém dizia em alto e bom som que eu tinha a quem puxar. Esse dito, que reverbera na escrita vocal de Djamila e que é uma espécie de síntese do seu livro, gravou em minha memória um ensinamento profundo do qual ainda não tinha me dado conta: o de que não estou só. Não so...