III Coloquio Brasileiro de Estudos Andinos

Justificativa e Objetivos

Justificativa

Assistimos no campo literário latino-americano à irrupção em grande escala de uma diversidade de textos originários de ao menos três áreas distintas - afro, ameríndio e feminino - o que tem pressionado o tradicional cânon literário com que cada nação ou sub-região organiza sua memória literária. Uma área até então pouco conhecida de grande parte do público leitor, que atende pelo nome de textualidades indígenas, literaturas indígenas ou literaturas ameríndias, responde por parte desse fenômeno que se assemelha a uma crescida das águas de um rio, em razão da volumosa quantidade de registros que aparecem desde variados gêneros conhecidos e não reconhecidos, se torna índice de um imenso caudal de vozes daquilo que José María Arguedas, em seu romance Todas las sangres (1964), prognosticou com as seguintes palavras: “é como se um rio subterrâneo começasse sua crescida”.

Esse movimento é o mesmo que havia previsto 37 anos antes Luís Valcárcel em sua profética obra Tempestad en los Andes (1927), que anunciava a chegada da “nova consciência”, uma vez que “a palavra tinha sido pronunciada” e na terra já se viam os “espartacos invencíveis”, os novos índios que promoveriam o renascimento da raça indígena no país. Porém, a fim de mensurar não apenas a intensidade desse fenômeno, mas as condições que o tornaram possível, é preciso ir à obra de outro pensador que esclarece sobre a promessa de uma literatura de corte indígena, em lugar daquela feita pelos indigenistas: José Carlos Mariátegui e seus 7 ensayos de interpretación de la realidad peruana (1928). Em suas palavras se revelava o programa futuro da literatura por vir: "A literatura indigenista [...] ainda é uma literatura de mestiços. Por isso se chama indigenista e não indígena. Uma literatura indígena, quando vier, virá em seu tempo. Quando os próprios índios estejam em condições de produzi-la". É importante recordar que essas afirmações brotam num momento da história peruana no qual se começava a demandar a questão indígena não apenas a partir do campo literário, mas também do campo político, artístico e cultural em geral, conforme se nota nas revistas e movimentos desde os quais se inscrevem os dois intelectuais antes mencionados: o grupo Resurgimiento, liderado por Valcárcel em 1920 em Cuzco, em torno da Revista del Instituto Americano de Arte, e a revista Amauta, criada por Mariátegui em 1926 em Lima. Contemporâneo desses movimentos são ainda o Boletín Titikaka (1926), promovido pelo grupo Orkopata dos irmãos Peralta em Puno, assim como as mudanças introduzidas no campo das belas artes por José Sabogal e Julia Codesido, com a pintura indigenista em Lima. Como advertiu Antonio Cornejo Polar, estes movimentos preparam o terreno para a ascensão do indigenismo, que passa a ser dominante no campo cultural peruano nos anos de 1940/50 e terá em Arguedas seu representante maior.

A urgência de se colocar à altura da tarefa de produzir sua própria literatura levou os grupos indígenas a imaginar que para aceder à escola bastaria o simples desejo de estar junto a brancos e mestiços, emulando sua linguagem, mas o conto "Paco Yunque" (1931), de César Vallejo, e o romance El mundo es ancho y ajeno (1941), de Ciro Alegría, demonstraria o contrário; o privilegio da cultura letrada ocidental não estava franqueado aos membros das comunidades nativas, como se nota pelos maus tratos e humilhações que sofre o garoto Paco Yunque na escola pelas mãos do filho do patrão, assim como pela desalentada reflexão que faz o cacique Rosendo Maqui, no início de El mundo es ancho y ajeno, sobre a luta infrutífera da comunidade de Rumi por ter sua própria escola e seu professor.

No entanto, foi justamente a escola um dos elementos motores que permitiram a assunção do quéchua e do aimara como línguas de expressão artística, deixando atrás seu limitado papel como elemento de comunicação no ambiente familiar, o que implicou também num alto nível de transfusão cultural, na medida em que os processos interculturais em curso cobram seu pedágio nos trânsitos linguísticos. Se a escola por essência é a agência estatal encarregada de operar a homogeneização da cultura e da língua, com seus programas de alfabetização ao castelhano e a padronização do consumo cultural, por outro lado acabou oferecendo aos filhos das comunidades nativas a oportunidade de realizar o que Gonzalo Espino denomina de "sequestro da palavra escrita", que lhes permitiu tomar a letra escrita e se lançar ao “assalto à cidade letrada” (Julio Noriega), realizando, por fim, a façanha antevista por Mariátegui. O resultado desse processo pode ser mensurado pelo fato de que, 49 anos depois da morte de Arguedas, o Prêmio Nacional de Literatura 2018 na categoria de línguas originárias, do Ministério da Cultura, tenha sido concedido a Pablo Landeo, autor de Aqupampa (Pakarina Ediciones), um livro escrito integralmente e sem tradução em língua quéchua. Um índice, como a ponta de um grande iceberg, de um movimento que veio para cobrar uma reparação histórica que a colonialidade trabalhou duro para invisibilizar ao longo da história desse continente.

Objetivos

. Refletir sobre as produções artísticas, literárias e culturais da região ameríndia do continente latino-americano que se apresentam como literaturas, manifestações ou textualidades indígenas, assim como as literaturas afro ou negra e de mulheres;

. Analisar, desde uma perspectiva andina, temas vinculados à história cultural da região latino-americana, como a migração, a violência e a memória, além dos temas correntes relativos aos estudos teóricos e criticos presentes na literatura e nas artes;

. Promover o encontro de escritores, pesquisadores e estudiosos da região ameríndia no Brasil, através da Rede de Estudos Andinos

 

 

 

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