Apresentação

Em memória de Marielle Franco,

defensora da peitho, não da bia.

 

Embora seja habitual dar um subtítulo a encontros acadêmicos periódicos, de modo a indicar um eixo temático (o que foi feito nos dois últimos congressos da SBR e nas três jornadas anteriores), a comissão organizadora optou por não restringir o evento a nenhum tema (seguindo a mesma opção dos dois congressos da SBR realizados em Minas Gerais). Uma das razões diz respeito à ampla variedade da pesquisa que se desenvolve em retórica e áreas correlatas (análise do discurso, teorias da argumentação, linguística) na e sobre a América Latina (categoria, aliás, que já traz uma grande complexidade) e, em particular, no Brasil. Tal limitação, a nosso ver, consistiria em um trabalho inócuo para subsumir toda a pletora de assuntos e períodos a um subtítulo restritivo. Como afirmamos na apresentação do II Congresso, momento em que tentávamos, aliás, mapear o que era compreendido e feito no Brasil sob a denominação de “Retórica”, “são muitos e de natureza variada os equívocos interpretativos que se fixaram historicamente” a respeito dessa disciplina. 

Apenas para citar um exemplo da complexidade dos conceitos ligados ao termo "retórica" entre nós, lembremos um episódio importante relacionado à história do ensino universitário no Brasil: nossas Universidades, diferentemente da maioria das mais antigas na América Hispânica, fundadas no século XVII, nasceram apenas nos anos 30 do século XX, devido, em parte, às restrições da coroa Portuguesa. Coincidentemente, nessa mesma década, surgia o movimento modernista, e, em um texto importante como o Manifesto Antropófago (1928), de Oswald de Andrade, encontramos uma desconcertante passagem: "Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós. Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. [...] Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia. [...]".  Para os que veem no “Imperador da Língua Portuguesa” um autor a ser estudado, sobremaneira no campo da retórica, essa passagem conduz a uma discussão complexa sobre nossa tradição cultural e acadêmica. Essa é uma das razões por que nos interessa, ainda, mapear e abrir espaço para que todos os pesquisadores possam apresentar suas contribuições, até mesmo para demarcar melhor o que é caracterizado e praticado como pesquisa em retórica entre nós.

Consideramos, por outro lado, ser necessário tecer algumas considerações sobre outra questão. As páginas de divulgação dos encontros acadêmicos trazem, em geral, uma imagem convidativa, atraente, alusiva à cidade onde são realizados os eventos ou a seu tema – caso exista a preocupação de que a imagem seja mais que mera ilustração. Tratando-se de eventos em Belo Horizonte,  é (um lugar) comum utilizar a imagem da Igreja São Francisco de Assis, na Pampulha, reconhecida, em julho de 2016, junto com o Complexo da Pampulha, como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Inaugurada em 1943, a Igrejinha, como é conhecida, foi projetada por Niemeyer a pedido do então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, futuro Presidente do Brasil e idealizador de Brasília - cidade que foi proibido de visitar, após voltar de seu exílio voluntário, por ocasião da ditadura militar. 

Como se sabe, as conexões de Portinari e Niemeyer com o partido comunista também interferiram na recepção das obras do complexo, em particular, da Igrejinha. Entre os vários elementos inovadores ali encontrados, como as curvas representando as montanhas de Minas – alguns foram tão ousados para os padrões da época que o bispo da cidade se negou a consagrá-la, comparando-a a um hangar –, destaca-se o painel São Francisco de Assis, de Cândido Portinari. A foto utilizada aqui, feita pela designer e mestranda do PósLin Camila Carvalho, é um detalhe do famoso e polêmico mural, em seu diálogo tanto com a tradição barroca, encontrada em muitas igrejas coloniais brasileiras, como, por exemplo, em Ouro Preto –  cidade, aliás, que receberá nosso congresso e jornada por um dia –, quanto com a arte muralista de tradição mexicana, bastante engajada socialmente.

Após a comissão organizadora decidir pela imagem da Igrejinha como identidade visual do Congresso e das Jornadas, ocorreu no Rio de Janeiro o triste episódio da execução da vereadora e defensora dos direitos humanos Marielle Franco. Foi difícil não fazer a associação entre o momento retratado no painel, quando parece ser evidenciado o espanto, a impossibilidade do discurso e da ação, e a tentativa de calar uma voz, um discurso engajado, por meio da violência, da força bruta e da barbárie. Se a retórica é persuasão, sabemos que este é um momento delicado, mas oportuno, para trazer para discussão o sentido e a importância da palavra, inclusive da palavra para desfazer mal-entendidos (propositais, como as "fake-news", ou não). Se esse congresso não teve um tema “de-limitador”, foi, a nosso ver, justamente porque desejamos mostrar a interdisciplinaridade e transversalidade da “famosa Arte Retórica” (remetendo ao velho Platão, no Górgias). Coincidentemente, o triste episódio citado aponta para uma das necessidades de nossas atividades acadêmicas em um momento em que nosso próprio lugar de estudo e de fala encontra-se sob sério risco, em uma conjuntura assaz assustadora. Mostrar a interação entre teoria e prática, entre pesquisa, ensino, política e cidadania tornou-se para nós não um tema, mas uma perspectiva, por meio da qual, podemos conviver e sobreviver com nossa pluralidade de visões de mundo e de defesa das palavras, imagens e de tudo o mais que sustenta, respeitosamente, nossa civilização e nossa civilidade.  

 

Organizadores.

 

 

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