Lino Guedes resgatado

Eduardo de Assis Duarte*

 

Paulista, nascido na pequena Socorro, mas desde jovem participante ativo da cena cultural da metrópole modernista, Lino Guedes (1897-1951) é exemplo de quão questionáveis, e mesmo falhos, são os critérios de consagração crítica adotados no Brasil. Da mesma forma que nossa historiografia literária não tomou conhecimento de inúmeras escritoras do século XIX, todas com livros individuais em seus currículos, para incluir apenas duas – Francisca Júlia e Auta de Souza, num universo de mais de 150 –, não bastou a Lino Guedes publicar treze volumes para ter seus escritos mencionados nos manuais de História da Literatura Brasileira. Isto mesmo, treze livros, sendo dez de poesia, todos editados em São Paulo entre 1927 e 1951, além de contínua participação na imprensa da época, através de crônicas e artigos, muitos deles voltados para condição e o lugar do negro na sociedade pós-escravista em processo de modernização. Apesar de conhecido de Mário de Andrade e de ter seu O pequeno bandeirante (1937) prefaciado por Menotti Del Picchia, nem assim o autor de Negro preto cor da noite (1936) logrou conquistar reconhecimento, ficando restrito às “abas do Parnaso”, para retomarmos a expressão de outro excluído – o “Orfeu de Carapinha” Luiz Gama – um dos precursores da literatura negra, que ganha corpo entre nós na segunda metade do século XX. Desde sua morte, em 1951, Lino Guedes vem sendo relegado ao esquecimento, estando seus livros completamente esgotados e de difícil acesso, mesmo nos maiores acervos bibliográficos do país.

Somente a partir da década de 1980 surgem os primeiros estudos sobre o autor e sua produção, entre os quais podemos destacar O negro escrito – apontamentos sobre a presença do negro na literatura brasileira (1987), de autoria de Oswaldo de Camargo, que agora assina o volume Lino Guedes – seu tempo e seu perfil (2016), publicado pela Ciclo Contínuo Editorial. Exemplo de poeta moderno, preocupado tanto com a produção literária como também com a sua crítica, Oswaldo de Camargo tem entre seus escritos valioso estudo sobre outro autor negro – Solano Trindade –, além do citado volume de 1987 e da antologia A razão da chama (1986). Neste ano, volta-se novamente para Lino Guedes, a ele dedicando todo um volume empenhado em refletir sobre seu trabalho e sobre a efervescência de uma época que testemunha a consolidação da imprensa negra, com dezenas de periódicos nas principais cidades brasileiras, e o surgimento da FNB – Frente Negra Brasileira, que logo evolui para a condição de partido político, chegando a ter mais de 400.000 filiados.

Esse é o tempo da penosa “integração do negro à sociedade de classes”, na conhecida reflexão de Florestan Fernandes, e é nele que se coloca a poesia de Lino Guedes. O autor chega à capital paulista em 1926, após um fecundo período em Campinas, onde, ao lado do também poeta Gervásio de Moraes, atua no periódico Getulino, autoproclamado “órgão para a defesa dos interesses dos homens pretos”. Como jornalista, acompanha a industrialização e o surgimento da massa proletária urbana, oriunda da modernização excludente, que constrói arranha-céus e avenidas na “sala de visitas” da metrópole e deixa crescerem as favelas ou “quartos de despejo” nas áreas periféricas, conforme as conhecidas expressões de Carolina Maria de Jesus.

No livro, Oswaldo de Camargo se debruça sobre a poesia de Lino Guedes, não sem antes passar pela recepção crítica do autor. Destaca de início o equívoco presente em registros diversos, que dão como data de nascimento do autor o ano de 1906. Argumenta destacando a impropriedade da data, lembrando ter Guedes publicado em 1919 o volume Luiz Gama e sua individualidade literária, empreitada impossível de ser concretizada com apenas treze anos. Refuta também a nomeação de sua poesia como “neossimbolista”, conforme interpretações derivadas das referências a Cruz e Sousa implícitas no livro de estreia de Guedes,O canto do cysne preto, de 1927. E explicita as escolhas do poeta, que opta por passar ao largo das propostas vanguardistas de jovens como Mário e Oswald de Andrade, ao mesmo tempo em que se aproxima de intelectuais da velha guarda: Coelho Neto, Silveira Bueno e João Ribeiro. Acrescenta Oswaldo:

Lino Guedes e a imprensa feita por negros, ativíssima no seu tempo, foram representativos do meio social em que surgiram e atuaram. O movimento de 1922 veio para quebrar, demolir, zombar dos figurões, refazer a mentalidade gasta; os movimentos negros, seus líderes, seus poetas, sua imprensa – sabe-se – não tinham nada para quebrar, mas tudo ainda por fazer. O negro passou ao lado do que não lhe interessava; passou ao lado do movimento de 1922. Não era aquele o caminho de sua subida, a subida da coletividade negra, ao menos a de São Paulo. (CAMARGO, 2016, p. 33).

Passando adiante, argumenta ter sido Guedes o primeiro poeta de seu tempo a se aceitar como negro e publicar as “consequências” em textos que, não só dão seguimento à perspectiva de Lima Barreto, falecido em 1922, mas inauguram uma série de publicações brasileiras marcadas pela explicitação da “negrura”. (CAMARGO, 2016, p. 31).

O crítico destaca ainda o projeto estético marcado pela adoção de formas e procedimentos identificados ao gosto popular, a exemplo dos versos de sete sílabas, popularizados pelo cordel e refutados pelos modernistas. Por outro lado, lembra a postura moralizante presente em muitos escritos como forma de estímulo à elevação social do povo negro recém-saído regime servil e submetido a toda sorte de humilhações.

Poeta, jornalista, mas, sobretudo um intelectual empenhado na Ressurreição negra, título de um de seus livros em prosa, de 1929, Lino Guedes faz-se contemporâneo do nascente movimento negro internacional ao se posicionar afirmativamente quanto ao lugar de seus irmãos de cor na sociedade. É sem dúvida “homem de seu tempo e de seu país”, como prescrevera Machado de Assis no projeto literário implícito ao “Instinto de Nacionalidade”. Guardadas as devidas proporções, em seu reduto paulistano Lino Guedes dialoga com a “Renascença do Harlem” dos anos 1920, que dá início à literatura negra – primeiro movimento literário do Ocidente oriundo das Américas.

Assim, Oswaldo de Camargo dá mostras de arguta percepção crítica ao situar o poeta no horizonte de expectativas da época, e ao dialogar com leituras que precedem a sua:

Lino merece ser lembrado em nossa Literatura, a geral e a que se denomina hoje Literatura Negra, pela sua atitude pró elevação do elemento negro brasileiro transbordada sobretudo em poesia. 
E essa atitude foi histórica. Por quê? Porque seus versos são a revelação e a fixação, em livros, de um momento crucial na coletividade negra pós-Abolição. 
Foi Lino Guedes que reatou, na Literatura que hoje o negro escreve, a possibilidade de uma dicção afro-brasileira em poesia, vinte e nove anos depois da morte de Cruz e Sousa. Foi ele que, escritor, se situou como negro, quando havia apenas silêncio. 
Permanece por isso. (CAMARGO, 2016, p. 51-2).

Referência

CAMARGO, Oswaldo. Lino Guedes: seu tempo e seu perfil. São Paulo: Ciclo Contínuo Editorial, 2016.

* Eduardo de Assis Duarte é professor da Faculdade de Letras da UFMG e coordenador do grupo Interinstitucional de pesquisa Afrodescendências na Literatura Brasileira. Organizou, entre outros, Machado de Assis afrodescendente: escritos de caramujo. (2. ed. Pallas/Crisálida, 2007), a coleção Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica (UFMG, 2011, 4 vol.) e os volumes didáticos Literatura afro-brasileira, 100 autores do século XVIII ao XXI (Pallas, 2014) e Literatura afro-brasileira, abordagens na sala de aula (Pallas, 2014). Integra o comitê gestor do Portal literafro, disponível no endereço www.letras.ufmg.br/literafro.