Jardim

Arrasto o tempo nesse objeto rito, amor palerma.
Enquanto tu, fóssil extremado, recuperas eras perdidas,
Beijando outras salivas menos minha, pois se doutra boca.
Menos abjeta, menos pútrida, menos amanhecida tua,
Desde os primórdios edênicos do paraíso,
Latifúndio primeiro, perdido,
Tomado sem leis mais severas,
Senão às do Senhor do tal feudo.
Alcanças as alianças engolidas entre raízes?
E o que me dizes dos véus urbanos das moçoilas
Doidas por furtos de homens alheios?
E os meus meios moles, arrepiando fundos brejeiros,
Aliciando gotas de solidão cáustica?
Oh! Meu Fausto amado!
Leva-me de mãe morta e imprime esquecimento de veias
Nesse meu raciocínio de inocência fingida.
Sou e serei sempre a tua Guida.
Vê que sonho com rezas e deixo a ti o insólito,
Os rituais do medo, dos segredos do verbo.
Deixo a ti, como se possível fosse, meu arrebatamento,
Minha inconstância, minha ambição.
Deixo a ti o querer ser Deus e Diabo.
Abandono, réptil humano e amado,
O meu sol de estrela escriba,
Para ofertar-te as minhas partes,
Meu mundo avesso ao vulgar das gentes, às reuniões sociais.
Abandono a ti, inclemente monstro,
Meu mênstruo de vinhas negras,
Minha falácia de sofista acesa, de tantas verdades não ditas.
Acreditas, acaso, que te amo sem temor nem perdas?
Acreditas na maldita sina-serpente
Que faz de mim
Um arrastar eterno de sonhos e dores?
Bebo dos tais cristais fellinianos,
E vou na nave idílica dos homeros homens de barro,
Lá vou eu, na nave, persona negra de perfil robusto,
Busto empinado, dona do meu desejo,
Inda que doado aos deuses abutres,
Inda que domado por chicotes de cabras machos,
Inda que cedido,
Inda que cansado,
Inda que trêmulo,
Inda assim:
Dona do meu desejo, dona do meu desejo.
Dona de minhas asas.

(Tratado das veias, p. 54-5)