Apresentação do Catálogo da

Exposição de Arte Moderna 1944

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

O inconveniente ocasional das exposições de arte, como seja o de acumular arbitrariamente uma porção de trabalhos, cada um dos quais exigiria uma área de privilégio visual, não deve contra-indicar as demonstrações de conjunto, aptas a apresentar ao público as obras exponenciais de determinado grupo, gênero ou época. Inconveniente maior, com efeito, reside em deixar-se o público sem informação, ou - o que é pior - mal informado pela incompreensão, intolerância ou inépcia dos que se opõem ao progresso das artes. Outra vantagem das exposições encontra-se na satisfação da necessidade - que até, os artistas, por vezes, negligenciam - de manter a comunicação entre a arte, os autores e o público, para a interpenetração de influências, proveitosa a todos. Mesmo porque a arte não constitui uma criação egoística, simples emoção voluptuária do artista, mas pertence à comunidade. 

Seria inútil obscurecer que a arte moderna, proposta a escarnecer e desprestigiar o mandarinato intelectual, que se atribui, em geral, ao academicismo, mal consegue, em regra, empolgar, ou sequer interessar a massa dos observadores possíveis. Certo divórcio entre o povo e a arte moderna representa, quem sabe? uma injustiça aos artistas, mas, seja como for, o povo está inocente. O fato explica-se pelo abstracionismo e, quando não, pela liberdade formal das obras modernas. Em outras palavras, o povo desinteressa-se porque "não entende". Se assim é, que outra solução ocorre, senão a de vulgarizar o mais possível a nova arte, pondo-a, o mais difusa e freqüentemente que se possa, sob os olhos da multidão? Essa arte não é tão ilógica, tão enigmática, tão criptográfica, enfim, que o comum dos observadores, a força de vê-la, não acabe por compreendê-la e, por conseqüência, estimá-la. Compreendendo-a, estimá-la-á, sem dúvida, ao menos como esperança ou pressentimento de nova orientação, por ser, afinal, a arte que mais intimamente se abebera na sensibilidade geral, quotidiana e familiar dos homens, a que procura, de preferência, os temas naquilo que se acha mais ao alcance do conhecimento e da experiência do homem comum, ainda que à primeira vista não pareça. Quando o homem comum, mal habituado ao convencional e simétrico, lograr - depois de examinar muitas vezes as concepções da arte nova uma nova conformação visual, descobrirá com surpresa e alegria que essa arte, não só é perfeitamente compreensível, mas também se elabora muito mais perto dele do que, pudera, antes, presumir. É que, até então, ele se acostumara a "ver acadêmico", ou a "ver convencional", ou a "ver simétrico", ou a "ver sofisticado"; e não tinha olhos (isto não é só psicológico: é fisiológico) para ver diferente. O interessante, sobretudo, é que ele não via que estava mais junto dele: a pureza natural das coisas e das emoções, os temas de sua existência social ou psicológica, e os de seu país e da tradição de seu país. A pintura, que séculos atrás só transcrevia a imagem dos objetos reais, passou a reproduzir, a das sensações, e já se afoita a figurar, na tela, as idéias, qualquer que seja, nas duas últimas fases, a qualidade dos assuntos. Reconhecer sensações e idéias na pintura, impõe, não há dúvida, uma iniciação, mas o certo que acabará acessível a qualquer um. O que se faz mister, para isso, é reeducar, ou talvez simplesmente educar o observador. 

A Exposição de Arte Moderna de 1944, em Belo Horizonte, exprime historicamente, um alto grau de cristalização do modernismo artístico do Brasil. É curioso que os expoentes do movimento, consolidado, hoje, na história das artes plásticas do país, se concentrem, pessoalmente e pela representação de seus trabalhos, numa exibição de conjunto em Minas, cujo complexo social e espiritual se peculiariza pelas virtudes do equilíbrio, que ordinariamente: se define como resistência ao impulso revolucionário, pelo apego à tradição, pela distância das influências exógenas, que trazem o cheiro do mar. Nada há, aí, de misterioso, ou mesmo paradoxal mas está certo, porque Minas é, por suas condições geográficas, medularmente nacionalista, e é de cunho nacionalista acima de tudo - o movimento de renovação das artes plásticas no Brasil. Se o repassam idéias, conceitos ou fórmulas internacionais, é que o isolamento dos povos, na esfera espiritual, é hoje, mais do que nunca, tão inconcebível quanto o isolamento econômico. Se, mesmo, o nosso modernismo não passasse de uma réplica ao modernismo europeu, ainda assim teria merecimento, pela aceitação de princípios renovadores da criação estética, traduzindo capacidade de assimilação dos bons exemplos e aptidão a evoluir. Ninguém se lembraria de malsinar a Inconfidência Mineira só porque os conjurados se inspiraram no exemplo da Revolução Francesa e na guerra da independência dos Estados Unidos. A verdade, contudo, é que o nosso modernismo acusa, nas origens e no sentido, um timbre bem brasileiro. Quanto às origens, de fato, porque não decorreu, como tantas vezes, e levianamente, se afirma, do bafejo tempestuoso da guerra de 1914: antes disso, em 1912 ou 1913, Lasar Segall, ainda muito jovem, vinha ao Brasil e trazia no espírito o germe da inquietação revolucionária; os primeiros estremecimentos de renovação, entre nós, palpitaram então. Dir-se-á que Segall era estrangeiro e conduzia consigo a influência européia; é de notar, porém, que o artista russo (espiritualmente, Segall é desde então, brasileiro) - confessaria logo, ao regressar à Europa, que seu espírito, sua sensibilidade (espírito e sensibilidade de jovem) tinham recolhido, no Brasil, as sugestões de um mundo novo, que mais tarde - prometia - teriam de se transformar em criação estética... Em verdade, sua obra não é, para nós, a de um exótico: é, sim, a de um libertado, do academicismo europeu. De um libertado e de um libertador, pelo muito que lhe devemos de independência artística. 

Vejam, agora, que padrões adotou o modernismo brasileiro. Na Europa a revolução das artes fragmentou-se numa infinidade de correntes, não raro contraditórias entre si. Lá, por certo, era lícito falar de fatores mórbidos de transformação da arte; lá a guerra produzira, mesmo, perturbações psíquicas, a cujos efeitos a arte não se furtou. Entre nós, não. O modernismo plástico orientou-se, com relativa coerência, para a abolição dos cânones acadêmicos (a que, por sinal, pouco ficávamos devendo) e para a interpretação ou expressão do humano e do social no Brasil. 

Como se poderá observar na Exposição de Arte Moderna, os pintores brasileiros, longe de imitarem ou apropriarem o modelo estrangeiro, abandonaram os temas do classicismo, que permanecia em recuo séculos a dentro, nas reminiscências mitológica ou, estranhas à nossa vida, à nossa história, à nossa alma, para se dedicarem amorosamente ao tipo: humano do Brasil, à sua tradição e à sua atualidade. Os classicistas da pintura brasileira não superam os modernos na fascinação pela nossa Ouro Preto ou pela nossa Sabará... E é ouvi-los declarar, com convicção e entusiasmo, que Minas tem de ser, por excelência, a fonte de inspiração da arte moderna... por quê? Pela riqueza de seu tradicionalismo. Nem há dúvida de tal afirmativa; porque Minas poderá, até, retificar em dois sentidos o processo do modernismo nacional. Poderá, primeiro, temperar as demasias, acaso indesejáveis ou suscetíveis, de deformação, que a ânsia de libertação costuma determinar. O contemplativismo, mais que a antipática prudência ou a engomada circunspeção, tem a virtude de asserenar e comedir. Poderá, ademais, decidir entre aqueles que, dentro das correntes modernistas ainda recorrem a processos, conceitos ou fórmulas estrangeiras para moldar o tema nacional, e aqueles que preferem submeter o assunto brasileiro a uma elaboração tanto quanto possível original em relação ao estrangeiro. É certo que, se Minas vier a fluir, penderá para os segundos. 

Não há lugar para tiradas misteriosas ou transcendentais, além de tudo o que já é, para desespero dos homens, transcendental e misterioso no fenômeno da arte. Pode-se, todavia, conjeturar que, do contato da arte moderna, originária do litoral (sociologicamente, São Paulo também é, todo, litoral para nós), com o espírito de Minas, tão estruturado na tradição e depois, tão contemplativo, surgirá um elemento novo, diferenciado, na integração da pintura brasileira. Qualquer tema serve, independentemente de seu valor ou qualidade, para a fatura de uma boa obra de arte. Quando, porém, se quer caracterizar a seqüência de uma formação cultural, própria de um país ou de uma era, quando, portanto, se cuida de "fazer história", tem-se de levar em consideração o conjunto dos fatores que preponderam sistematicamente na atividade dos artistas - e esses fatores, que são gerais, quer dizer: atingem a todos, somam o que se gosta de chamar de "ambiente", "clima", "atmosfera". Todos percebem, quando não possam explicar, o que seja isso. Pois bem: Minas oferece um "ambiente", um "clima", uma "atmosfera", específica, no país, social, e psicologicamente, que não se confunde com a do Rio e São Paulo, e que poderá completar, como uma soma de fatores próprios, a originalidade da arte nacional. 

Vale a pena prevenir a objeção de que, a despeito de tudo, Minas ainda não contribuiu para o movimento modernista. São óbvias as razões. Minas não alcançou, ainda, o grau de densidade econômica propícia ao florescimento das belas artes. Estado agrário e pastoril, geograficamente disperso, só agora começa a ossificar-se na constituição das cidades grandes; e só as grandes cidades possibilitam o rendimento do trabalho artístico, já pelo estímulo econômico, já pelas oportunidades didáticas. Em qualquer hipótese, ainda que Minas contasse com a alvoroçada agitação de um colmeial artístico, o movimento moderno a contagiaria devagar, atravessando montanhas, detendo-se na filtragem do temperamento morno e refratário dos mineiros... E aquela contribuição viria (como, a seu tempo, virá ), mas refletida, bem dosada e bem segura. De mais a mais, agora é que Minas começa "a ver". A Exposição de Arte Moderna - acontecimento nacional - será, para muita gente, um choque, um escândalo, e, na, realidade, será, para Minas, a revelação que precede a catequese. Logo que os mineiros acomodarem o aparelho ótico a essa nova forma de interpretar e exprimir a natureza, o humano e o social, sua sensibilidade reagirá e teremos o que contar. 

A oportunidade de cotejar os trabalhos dos artistas do Rio e de São Paulo, apresentados, em conjunto, lado a lado, sugerirá, decerto, muitas conclusões e inferências. Notar-se-ão, por acaso, marcas diferenciais entre o grupo carioca e o grupo paulista? Provavelmente. Concorrem para isso circunstâncias de ordem física e de ordem mental. Certamente, a luz do Rio de Janeiro e a de São Paulo, de intensidade vária, ferem de modo diverso a pupila dos artistas. O sol de Guanabara é coruscante, de abundância tropical, e dionisíaco e excitante; por conseqüência, a obra dos pintores cariocas será mais otimista, mais sensual, mais extrospectiva. Depois, o elemento estrangeiro influi, menos ali, porque é, em geral, de caráter turístico, são os gozadores da vida, não é o emigrante que mistura o suor do corpo ao fermento social do meio em que vive. A influência dos estrangeiros, ali, é mais intelectual. Na Paulicéia, a luz é temperada e, mesmo, quase sempre escassa e pálida; convida ao recolhimento, é menos fatigante. Correlativamente, o artista é introspectivo, a obra é mais grave. Dupla influência social se exerce sobre a arte dos paulistas: o cosmopolitismo e o industrialismo. Ali, o choque das raças lança a mancha de sua a tinta trágica na tela dos pintores. Sem os desnacionalizar, imprimi-lhes um sentimento agudo de universalidade dos temas humanos. E, mais pungente, a preocupação social faz estremecer o pincel em suas mãos. É que, ali, maior, mais brutal é o contraste entre os destinos das classes sociais. Em São Paulo, os pintores, pintam para os ricos o sofrimento anônimo dos pobres... A história testemunhará o que terá significado, na transformação dos planos sociais, a obra pictórica dos modernos. 

O rápido debuxo das circunstâncias históricas e sociais, em que se situa, entre nós, a evolução da arte moderna numa linha que parte de Segall, passa por Anita Malfatti e Tarsila do Amaral e, depois, por Di Cavalcanti e Guignard, para continuar em Portinari e na efervescência das tentativas e realizações do numeroso núcleo que se apresenta na Exposição de Belo Horizonte - é suficiente, em sua singeleza, para encarecer a importância de um movimento que interessa a toda a vida espiritual do país. Trata-se de uma arte brasileira, de origem brasileira, de sentido brasileiro, e que aprofunda na terra, no gênio e no sangue do Brasil os tentáculos de suas raízes. Nada do que é nacional - na natureza, no homem, na sociedade, na tradição - permanece estranho a essa arte poderosa, em plena evolução, pela qual a imaginação e a sensibilidade dos brasileiros abrem caminhos, corajosamente, à sua independência espiritual, à sua descolonização mental. Não há que apreciá-la sob o critério do "bom gosto", ou mesmo do "valor estético". O conjunto dos trabalhos reunidos na Exposição de Arte Moderna, qualquer que seja o critério dos observadores, corresponde a uma soberba documentação da crise dramática da história das belas artes no Brasil. Faz-nos pensar que a pintura brasileira (não qualquer pintura do Brasil, mas a brasileira) chegou a uma afirmação. Isto não é uma questão de critérios; é um fato histórico. 
 
 
 
 

J. GUIMARÃES MENEGALE