Programa de implantação das escolas indígenas de Minas Gerais


Relatório da comissão


fale

capítulo LINGUAGENS












   
 

 

Depoímentos dos professores índios:
Escritos em 05/02/1996

PATAXÓS
1
Eu, Valmores, índio da tribo dos Pataxós, já estudei em escolas com regime e normas bem rígidas.
Antes de ir para a escola, apesar de meu pai nunca ter freqüentado uma, este mim ensinou muito. É claro que o seu português não era correto, mas foi o suficiente para que eu pudesse aprender a falar, e com o decorrer do tempo, fazer as minhas continhas e escrever as minhas primeiras palavras.
Quando fui à escola pela primeira vez, eu já sabia escrever algumas coisinhas. Então, com isso, tive uma pequena facilidade para aprender as matérias.
Durante todo o meu período de estudo, a fase que enfrentei muitas dificuldades, foi quando sai pela primeira vez, pra ir estudar em Conselheiro Pena, escola que fica aproximadamente a uns 400 km distante da minha família. Mas, mesmo enfrentando dificuldades e uma série de coisas, posso lhes falar com toda franqueza que valeu a pena. Pois eu tinha muita vontade de aprender técnicas agrícolas. E lá tive a oportunidade.(Valmores Pataxó)

2
Eu em minha vida tive muita dificuldade em aprender a língua portuguesa, pois em minha aldeia não existia escola. E com isso perdi muito tempo em minha vida.
O tempo foi passando, até que um dia os caciques de minha aldeia pediram à FUNAI que fizessem uma escola para as crianças estudarem. Daquele dia em diante comecei a freqüentar uma escola.
Para mim foi muito bom, pois aprendi muitas coisas, e enxerguei o mundo melhor. Mas não aprendi o suficiente para alcançar o meu objetivo.
Eu quero aprender a língua portuguesa para ajudar o meu povo a reivindicar nossos direitos, conhecer as leis brasileiras para defender as nações indígenas do Brasil.
Quero também aprender a fazer música, poemas e escrever a história do meu povo, pois a verdadeira história do Brasil vive escondida.
O meu povo foi dominado por outro povo que aqui chegaram. Fomos proibidos de falar a nossa língua, de fazer nossos rituais, de caçar, de pescar. Fomos até proibidos de viver; pois tomaram o que é mais sagrado pro índio que é a terra.
Eu quero aprender a língua portuguesa é para trabalharmos juntos com a sociedade nacional, só assim poderemos construir um mundo melhor.(Salvino dos Santos Brás: Kanátyo Pataxó)

3
Há muitos anos atrás, devido às invasões nos territórios indígenas, muitos índios foram obrigados a deixar suas terras e sair para trabalhar para os fazendeiros e obrigados a falar o português. Nós, pataxós, por sermos os primeiros índios a Ter contato com o homem branco, fomos muito massacrados e perdemos o nosso idioma, tradição e costumes. Quando nasci, não tendo mais ninguém da família com quem falar o idioma, chegando à idade de estudar, fui para a cidade de Monte Pascoal, onde iniciei os meus estudos com a professora Emília. Aprendi um pouco do português que é a língua que todos hoje falamos. Pretendo aprender mais: nem só o português, como outras matérias, e resgatar o nosso idioma para ensinar aos nossos irmãos e às crianças.
Pretendo me aprofundar mais na língua portuguesa e na matemática, para melhor reinvindicar meus direitos com a sociedade branca. (Antonio Aragão da Silva: Arariby Pataxó)

4
Eu aprendi a falar o português com meus pais; não corretamente, mas fui aprendendo mesmo assim. Depois dos sete anos fui para a escola, no início foi difícil, mas com o passar do tempo fui me habituando.
Minha professora era super legal, atenciosa e me explicava com todo carinho, por isso cheguei a até os dias de hoje, portanto o quanto mais a gente aprender, melhor será. Aprendi um pouco e quero saber muito mais dessa língua que é uma maravilha. Onde se expressa muita coisa bonita, nos versos de um poema, nas canções apaixonadas.
Nem uma outra língua pode se comparar à nossa língua brasileira, por isso admiro demais esta terra que piso, o ar que respiro, a chuva que cai para molhar as plantas, etc. (Ronaldo Pataxó)

5
Nós, povos pataxós, há muitos anos atrás, perdemos a nossa língua, deixamos a nossa verdadeira aldeia pataxó no município de Porto Seguro e viemos para Minas Gerais, onde nós moramos agora, de onde fomos obrigados a sair, onde eu aprendi a ler e a escrever o português com a primeira professora branca que dava aula para os índios na aldeia.
Quero aprender muita coisa, não tudo, porque não aprendemos tudo de vez, é estudando e conversando com as pessoas que aprendemos.
A fim de Ter um futuro melhor e passar para as pessoas um pouco do que eu sei e também resgatar o nosso idioma, tradição e costumes. (Vanusa(Jassanã) Pataxó)


KRENAK
1
Eu comecei a estudar em uma escola, onde estudei com uma professora da prefeitua de Resplendor.
Achei muito importante aprender a ler e escrever e mais depois, estudei com outras professoras e achei muito interessante que cada passo que eu dava, estava aprendendo mais e mais. Eu também estava mais interessado a aprender cada vez mais sobre o português. Pois que ouvi as outras pessoas dizendo cada vez mais a gente aprende, mais a gente tem de aprender. Para não sermos enganados pelos brancos, como nossos povos foram enganados e não sermos expulsos como os nossos antepassados foram expulsos para outras aldeias, como foram expulsos para Maxakali, Fazenda Guarani e outros lugares. Agora existem índios krenak espalhados por todos os lugares do Brasil. (José Carlos de Oliveira)

2
Eu, Maurício, resido em uma área indígena krenak no município de resplendor, MG.
Eu gosto muito da minha religião e da cultura de meu povo krenak e da língua materna que hoje eu sei falar a metade, mas também eu gosto de preservar a natureza, gosto também de ficar em beira de rio.
Eu gostaria de saber muito mais as coisas boas que o branco tem, como estudar Português, Matemática, Ciências, Geografia e História. Gosto muito de ouvir piadas, sou pouco vergonhoso. (Maurício Krenak)

3
Olha, antigamente, quando viveram os índios krenak mais velhos, eles não falavam a língua portuguesa, porque na época não existia essa língua. Com o tempo vieram os padres e começaram a ensinar a língua portuguesa, eles davam roupas, presentes e, a partir daí, os índios foram aprendendo e ficando mais mansos, e daí começou a aparecer branco querendo tomar a nossa terra-mãe , foram matando índios, índios matando branco, mas o branco acabou vencendo os índios krenak, porque eles tinham arma pesada e o índio não tinha, porque nós não brigamos por uma coisa que é nossa, mas eles brigavam. Mataram índios velhos, novos, mas alguns viveram, porque fugiram. Uns para São Paulo, outros para o Bananal. Espalharam com medo de morrer, e os que restaram hoje são poucos e a minha mãe, Laurita e os outros que estão morando em outros lugares, que ainda falam a língua, a partir daí a gente foi nascendo, falando português, e falando aos poucos a língua krenak, mas hoje com o apoio de vocês e da educação, queremos, sim, aprender falar mais língua portuguesa, e principalmente a língua krenak que hoje resta para o nosso povo. (Marcos Krenak)


XACRIABÁ
1
Relato da experiência pessoal com a língua portuguesa:
Eu, primeiro, aprendi a língua portuguesa com meus pais, não tive oportunidade de aprender a língua indígena, eu fui estudar em Miravânia, com professora branca. Antes não existia escola em xacriabá, nas comunidades. A partir de 21 anos depois já temos escola. Aí começou os índios a ler e escrever nas comunidades de 1ª a 4ª série. Estes mesmos falam língua portuguesa , já perderam os costumes e a língua indígena, eles foram massacrados pelos brancos, muitos deles perderam a vida por lutar pelo seu direito. Mas se Deus quiser, os índios xacriabás e mais os parentes vão Ter uma grande vitória, voltar a aprender a língua indígena e seus costumes. E aprender também a língua portuguesa com mais esclarecimento, porque nós precisamos viajar, falar com todas autoridades, pra resolver nossos problemas.

Das letras eu peço desculpa, dos erros eu peço perdão, porque essa é a minha preocupação.(Eunice Xacriabá)

2
Meu nome é Vanilde. Eu aprendi a falar português com minha mãe. E a escrever o português com a professora Silene.
Eu quero aprender mais português porque eu tenho muita dificuldade de interpretar. Português é bom porque quando a gente sabe ler e interpretar textos, a gente entende tudo direito.
Eu quero aprender ainda mais para saber conversar melhor com as pessoas pra que eles possam me entender melhor. Eu gostaria de aprender mais é a escrever por exemplo: escrever história, poemas, etc. isto é o que eu sei. (Vanilde Xacriabá)

3
Bom, a língua portuguesa para mim foi a primeira que conheci através das primeiras palavras que a mamãe e o papai me ensinaram, quando eu era ainda pequenino. Só que era um português incorreto. Depois que cheguei na época de estudar, aí começou a melhorar com os ensinamentos de minhas queridas e amigas professoras. Ma esse tempo durou muito pouco, porque tive que parar de estudar. Quanto à língua indígena, nada me resta, senão a vontade de reaprender, porque esta foi a primeira arma que meu povo teve que jogar fora para se livrar das terríveis ameaças de morte pelos fazendeiros, ou melhor dizer, invasores ou grileiros de terras indígenas. (João Neves de Souza)

4
eu aprendi a ler e escrever com a professora Júlia. Ela era boa pra ensinar. Eu quero aprender mais porque tem coisa, algumas palavras, as outras pessoas da cidade falam e a gente não sabe o que é aquela palavra que eles estão falando, não sabe o significado das palavras. Eu quero aprender para quando a gente sair não ter mais dificuldade.
Eu nunca ouvi o xacriabá, mas eu tenho vontade de aprender, porque é muito importante a gente falar a linguagem da gente mesmo.
(Anide Araújo de Sousa)

5
Eu aprendi a falar português com o professor. Foi na Escola Municipal Frei Caneca que ficava na aldeia Barreiro. Eu gostei de aprender a língua portuguesa porque eu achei importante e bonita.
Eu vim aqui para aprender mais coisa, porque meu pai e minha mãe que fizeram uma força para eu vir para aqui para estudar mais, para eu ser uma própria futura professora, para ensinar as crianças da nossa comunidade e as mesmas coisas que eu aprender aqui, quando eu for dar aula eu possa passar as coisas que eu aprendi pra eles.(Cleonisa Ferreira Bezerra)

6
Hoje eu vou falar um pouco da minha experiência com a língua portuguesa. Pois bem, eu já me conheci falando ela, com quem aprendi não sei. Acho que deve ter sido com a minha família. A linguagem xacriabá, infelizmente, eu não tive a oportunidade de conhecer. Aprendi a ler e a escrever a linguagem portuguesa. Comecei com a professora Enita e me alfabetizei com a professora Eunice da Escola Municipal de D. Leopoldina (Xacriabá). Em português, eu acho que já me domino bem com a exploração de textos, e outras práticas em geral, e gostaria de aprender aqui no curso gramática da oitava série. Eu quero aprender mais por que eu quero me profissionalizar na minha área como professora e porque eu gosto de estudar português porque saber é ótimo. (Creuza Nunes Lopes).

7
Eu vou falar um pouco sobre a língua portuguesa. Quem me ensinou foi meu pai, mãe, professores. Eu aprendi a falar português porque meu pai e a minha mãe falam português. Depois, quando eu completei 7 anos, eles colocaram eu na escola e, com o professor, eu aprendi a falar mais. A gente fica muito sentido por saber falar a língua portuguesa e não saber falar na língua indígena.
Nós, xacriabás, ficamos emocionados com os outros parentes por que eles falam a sua língua. Olha, eu, por exemplo, acho que, se o índio que fala sua língua é muito importante, porque ele fala com o branco e o branco não entende e se ele fala com o outro índio da sua mesma nação, que fala na mesma língua, ele entende.
Na nossa reserva, alguma pessoa ainda fala a língua. Aquelas pessoas mais velhas, mais idosas. Eu, pelo menos, tenho vontade de aprender a nossa língua, é por isso que eu fiz esforço de vir até aqui no Parque rio Doce.
Desculpe por minhas letras. (Maria Aparecida Lopes de Oliveira Xacriabá, filha do vice-cacique Emílio Lopes de Oliveira)

8
Olha, quando eu comecei a estudar, na nossa aldeia Xacriabá não existia escola, mas eu, com idade de oito anos, comecei a estudar com uma professora de Manga. Eu gostava muito dela, porque ela era uma ótima professora, porque eu aprendi a ler e escrever, com pouco tempo, ela mudou de um ponto para outro. Isso é quando eu estava na segunda série, mas como eu queria aprender mais eu andava duas léguas a pé.
Logo quando eu estava estudando na 4ª série ela foi embora para Manga. Aí meus pais não tinham condições para eu estudar fora. Fiquei parada, porque eu não tinha professora. Então eu não aprendi a falar a língua indígena. Então eu quero aprender a falar nosso idioma que perdemos a muitos tempos. (Joana Xacriabá)


9
As primeiras palavras que meu pai me ensinou foi em língua portuguesa, que nós nascemos, crescemos, falando a língua portuguesa, e nós queremos aprender todas as matérias e aprender a língua xacriabá.
Eu gosto de cantar, brincar e gostaria de aprender mais um pouco. A língua indígena é preciso aprender porque é muito importante.
Eu gostaria de ser uma professora para ensinar poesias na área indígena xacriabá.
Eu gosto muito dos meus pais, da minha professora e de vocês que são meu leitor ou leitora. (Maria Francisca Caetano)

10
A língua portuguesa é muito importante. Eu queria aprender mais falar português, escrever palavras bem escritas, fazer poesia, música. Poesia que é tão bonita e importante para a gente aprender, e poder ensinar às crianças de nossa aldeia xacriabá. Eu sei falar um pouco português. Aprendi com meu pai e minha mãe que me ensinaram de criança, mas eles também sabem falar pouco. Não sabem escrever poesia, poema, que é isso que eu quero aprender. Finalizo. Desculpe, mas não sei fazer melhor. (Alvina Pereira de Souza)

11
Eu quero aprender falar mais português, para quando a gente pegar um livro ou jornal, a gente saber o que está escrito nele, a gente entender. Tem muita coisa em português que a gente não entende.
Nós, xacriabás, não falamos a nossa língua. Eu não sei falar a língua indígena, mas não sei português direito também. Eu sabia falar um pouco de nossa língua indígena, mas quando comecei a estudar, esqueci toda a nossa língua.(José dos Reis Lopes)