![]() Uma
tarde ensolarada de amor
Foi em uma sala destinada ao pensamento que ele nos recebeu. Em um pequeno cômodo de paredes pintadas com desenhos de pássaros, árvores, pedras, nós conversamos. Conversamos em um cantinho só dele e que por um dia foi também nosso. O pequeno homem índio-filósofo chamava-se Kanátyo Pataxó. Nesta sala, acometida pelo pensamento, passamos horas conversando sobre a escola indígena, sobre os pássaros, sobre as pedras, sobre tudo. Observamos que o ensino para os Pataxó resume-se numa questão: "A gente trabalha com a terra, fala assim sobre esse jeito da gente de viver com a terra, o jeito dos velho nosso, que os nosso parente mais velho trabalhava com a terra, preservar a biodiversidade dos inseto, essas coisa toda, do brejo... Aí a gente trabalha lá e já é um tipo também da gente não perder esse laço, que é um laço de amizade com a terra. Porque quando a gente continua sendo índio, com esse ensinamento de viver com a terra como nossos velhos nos ensinava. Desde quando a gente começar a desgrudar desse amor pela terra quer dizer, que aí a gente vai deixando de ser índio. Então a gente nunca pode perder esse laço de amor, de amizade com a terra, com tudo que pertence a terra. Então a gente tem sempre esse laço." Percebemos uma falta de diferenciação entre os Pataxó e os outros seres vivos e não vivos da Natureza. "Tudo começa pela família. É quem ele é, de quem ele é parente, o terreiro da aldeia, os caminhos, o córrego, o quintal, essa coisa toda que venha. Tudo é família." Estão todos no mesmo patamar. É necessário escutar o que as pedras ou os rios têm a ensinar. É importante o contato estrito do índio com os três reinos da Natureza (animal, vegetal e mineral), para que ele possa descobrir a língua de cada um. Há um aprendizado a ser experienciado em cada um dos reinos. É importante saber a língua de uma árvore para que se possa aprender com ela. É necessária a adição do homem à Natureza, o ensino da matemática, não a ensinada em nossas escolas, mas sim a matemática do amor, a Matemática: raiz do amor. "-A
Matemática pra mim e no pensamento do meu povo é a raiz
do amor. Quem faz a matemática sabe amar e quem não
sabe amar não sabe fazer Matemática. É
importante a adição do homem e das coisas em um só
corpo. O corpo do amor. Uma escola movida pelo amor, pelo afeto. Uma
escola formada pela experiência do amor. Pela experiência
do amor por um outro_______ índio, flores, céu, rocha,
quintal, seres mágicos.... e é neste ambiente de afetos
múltiplos que são alfabetizados e criados os meninos
e meninas Pataxó. Matemática, Perguntamos à Kanatyo se havia em alguns desse fragmentos de amor, um que recebia o nome de literatura e ele resondeu-nos: "A Literatura eu acho que é esse conjunto. Eu acho que tudo que é belo é Literatura. Essa coisa que eu falei da Matemática eu acho que é uma Literatura. É uma poesia. É uma coisa que dá pra trabalhar com criança, que dá pra jogar num livro de Literatura de um jeito que a criança possa entender isso, que possa transformar ela em literatura."
Observamos então que para os Pataxó tudo é literatura,
a natureza é literatura, uma árvore é literatura,
um rio é literatura, um peixe que vive entre algas nas águas
escuras de um rio também é literatura. E se literatura
é tudo e tudo é literatura, não há uma
divisão entre índio e literatura. Índio é
literatura e literatura é índio. "A alfabetização ela tem assim, a gente tem várias maneiras. Não tem uma metodologia assim única. A gente sempre busca trabalhar através de desenho, porque através de desenho é uma alfabetização. Um tipo de como compreender uma aula através de desenho. Saber escrever através de uma caminhada. A pessoa faz uma caminhada ao redor da comunidade com uma criança que não sabe compreender as letras. Então quer dizer que ele vai apresentar aquilo através de desenho, ou oralmente. Vai saber explicar aquilo. Então é uma alfabetização do território oral. Quer dizer que ele não vai escrever. Ele vai escrever, representar aquilo, mas através de um desenho que ele vai representar aquilo ali. Então tá alfabetizando. E dali a gente começa a trabalhar a linguagem da criança e também vai tentando levar pr'essa escrita. A escrita de escrever. Da letra né. E dessa maneira assim também a música faz parte também, o campo, imitação de animais, história de animais, essas coisa toda envolve alfabetização da linguagem escrita, oral, corporal, visual e também de escrever." Tem-se,
então, uma alfabetização pela experiência,
pela experiência do índio com a Natureza, pela experiência
da adição de dois corpos em um e, sobretudo, pela experiência
do corpo do amor. "Sempre existiu a escola na aldeia. É um lugar muito importante que a gente tem para conquistar espaço, para mostrar o nosso trabalho, a nossa vida, a nossa luta, a nossa filosofia, a nossa literatura, a nossa poesia, a nossa arte, tudo isso. Cada povo tem um sistema de mostrar a sua cultura. Enfim, mas nós os Pataxó, sentia muita vontade de fazer, de mostrar o lado bonito da literatura brasileira. A literatura indígena. Então a gente sentiu que conseguimos mostrar para o povo, uma cultura que vivia assim escondida, que não tinha espaço. Então através da escola a gente fortaleceu mais o nosso espírito de índio e natureza. Esse equilíbrio entre índio, natureza e o mundo que nós vivemos. A escola nos deu acima de tudo, respeito". Existem três tempos para o povo Pataxó, o passado, o presente e o futuro e esses tempos estão interligados. Evocamos a fala de uma escritora portuguesa, Maria Gabriela Llansol, a respeito do uso de um traço que é caraterístico em sua obra: "Eu faço aquele traço como para querer mostrar, de uma maneira muito concreta, que eu sinto mesmo que o traço irrompe, que tudo está ligado a tudo e que sem o tudo anterior não há o tudo seguinte..." Percebe-se
que a escola indígena, a escola do amor, faz o papel deste
traço a que se refere Llansol. Porque nela as crianças
são criadas com a convicção, de que tudo está
ligado a tudo e que sem o tudo anterior não há o tudo
seguinte. O homem e as outras coisas do mundo estão inteiramente
interligados, por isso a importância da matemática do
amor, a importância da adição dos corpos em um
único e indissolúvel corpo do amor. "O
professor não pode ser mais do que o aluno. Ele não
é o dono do saber. Ele tem o conhecimento diferente. Ele entende,
talvez, pela vivência a mais que ele não é capaz
de conhecer mais do que uma criança. Ele pode interagir o conhecimento
dele com o de uma criança. Quanta coisa eu já aprendi
com uma criança. Aprendi a brincar, aprendi a respeitar uma
criança. Aprendi a cada vez viver, manter o meu espírito
de criança sempre vivo. Por que cada um de nós, mesmo
se eu ficar velhinho aí com duzentos anos nas costa, mas acontece
que o meu espírito de criança eu quero manter sempre
vivo. Porque eu acho que cada um de nós tem que assegurar essa
alegria de viver. Por que a criança é livre, ela é
liberta. Ela não é uma pessoa que deve ficar assim fechada,
porque a escola da cidade, passou a chave, fechou. Se a criança
precisa de beber uma água, "Não, não pode
beber água!" E a criança indígena não,
mesmo que às vezes a criança saiu daqui já tem
meia hora que ela saiu " - Tio quero ir lá beber um copo
de água."Eu não posso falar não. Eu falar
não, eu me arrependo de falar não com a criança.
O professor também deve ser um bom comunicador, já que
ele é a voz do povo, da comunidade, da criança, da aldeia
e é um grande pensador da aldeia pro povo. O professor é
aquele que já tem que ter o espírito já de ser
professor".
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