Programa de implantação das escolas indígenas de Minas Gerais


Relatório da comissão


fale

capítulo LINGUAGENS












   
 

Dez dias na Aldeia

Em minha última viagem de acompanhamento às escolas e professores indígenas das etnias Mẽbêngôkre, Panará e Tapajuna Goronã, fui incumbida, pela coordenação do Programa (de FORMAÇÃO DE PROFESSORES da FUNAI), de revisar, com Ropni Mẽtuktire, mais conhecido por todos como Raoni Kaiapó, ou Txucarramãe, uma história narrada por ele em uma oficina em Brazlândia (cidade satélite do Distrito Federal) para ser a introdução de um Atlas Geográfico do território Mẽbêngôkre e Panará que vem sendo produzido pelos professores em formação.

Quando recebi, da coordenação do Programa, esta notícia, confesso que não me senti muito à vontade de ter que realizar essa tarefa. Por que, vocês podem me perguntar. E eu respondo: porque eu, em minha insignificância, teria que, em algum momento, me sentar, de forma laboriosa e até mesmo formal, com Raoni. Ele, que em sua casa, em sua aldeia, em sua terra, rodeado pelos encantamentos de seu povo e de uma floresta imponente, me parecia ser maior e mais forte do que tudo e todos. Eu deveria me sentir honrada, mas senti medo e receio do desconhecido.

Chegando na aldeia, minha primeira atitude foi ter com Raoni. Fui até sua casa, quase escondida entre os pés de fruta, que ele próprio planta e cuida, e que forma com as outras casas o círculo perfeito da aldeia. Lá, enquanto fazia um cesto, contei a ele do meu trabalho, contei que ficaria por uns dez dias na aldeia, acompanhando os professores em suas aulas e também finalizando, com eles e com a ajuda de membros mais velhos da comunidade, o Atlas de seus territórios. Ele se prontificou a nos ajudar e pediu para que eu voltasse no dia seguinte, para revisar a história.

No outro dia, fui bem cedo a sua casa, acompanhada por um dos professores em formação, Piydjwa Mẽtuktire. Ele me pediu para ler história, que ele escutaria e depois me diria o que estava correto e o que precisava mudar. Assim o fiz, mas ele não me deixou chegar ao final da história. Em um momento me interrompeu, pediu para reler um trecho e depois de um minuto de silêncio perguntou: “quem escreveu essa história aí? Quem foi que contou ela para você?” Eu respondi: “foi a Maria Eliza (coordenadora do Projeto) quem escreveu, com a ajuda da professora Márcia Spyer (consultora de Geografia e Meio Ambiente do Projeto), enquanto você contava a história, em Brazlândia, lembra?”. Não, ele não lembrou, mas também...

E me perguntou de novo: “fui eu mesmo que contei essa história?” “Foi”, “mas está tudo errado, tem que apagar isso tudo aí e escrever de novo.” Nesse momento fiquei completamente atônita. Para minha cabeça, de jovem brasileira, formada por uma cultura letrada, foi surpreendente ouvir de quem contou e de quem sabe que tudo estava errado. A noção de correto é relativa, sobretudo no nível da oralidade, mas tudo errado... Sem saber o que fazer, nada fiz.

Depois de alguns momentos, Raoni começou a falar de sua preocupação em registrar as histórias mẽbêngôkre antes que os mais velhos, que são os que realmente sabem essas histórias, morram, pois os jovens de hoje, que deveriam estar aprendendo a História mẽbêngôkre, não se interessam mais como antes, preferem assistir televisão e escutar rádio a ouvir as histórias e músicas de seu povo; mostram mais interesse em aprender as “coisas do branco” do que as  “coisas de ser índio”.

Ele sabe que registrar e escrever a língua e suas histórias é uma garantia para a manutenção da tradição, ou pelo menos de uma parte dela. Raoni tem plena consciência do poder político e social da escrita e do papel, se preocupa com o registro, mas se preocupa também (acho que até mais) com o que pode acontecer: o gravador traz a possibilidade do registro da tradição oral, garante sua existência quase que eterna quando passada para o papel, mas ao mesmo tempo jovens agora aprendem pelo gravador ou pelos livros o que antes aprendiam com seus parentes, em suas casas, em rodas ao redor do fogo, na casa dos homens, enfim, em sua vida cotidiana. O que está em jogo também é uma nova forma de transmissão e recepção de conhecimento e não só de registro.

Raoni continuou dizendo que muitos já foram lá, pedindo para ele contar histórias e cantar músicas. A alguns ele contou e cantou, gravaram, mas nunca trouxeram de volta o que gravaram. A outros ele disse não, por que quis, sem um motivo maior do que o maior deles: o de escolher a quem contar as histórias.

Perguntou-me então quantos dias eu ficaria na aldeia e se eu havia levado gravador e fitas. Respondi que deveria ficar por volta de dez dias e que, sim, tinha levado o gravador e fitas. E ele reforçou “mas você trouxe quanto de pilha e de fita? Por que eu vou te contar tudo, desde o início, enquanto você ficar aqui e você vai precisar de um tanto assim de fita” (me mostrando as duas mãos abertas, para indicar a quantidade de fitas que ia precisar). Confirmei a quantidade indicada, dizendo “foi essa quantidade mesmo que eu trouxe”, “então você vem amanhã bem cedo”.

Quando ouvi “desde o início” fiquei bastante intrigada, me perguntei qual seria esse início, o início dos mẽbêngôkre? O início da vida? Do mundo? Como caracterizar uma história como primeira de todas? De uma coisa tinha certeza, a escolha era dele, meu papel ali era puramente o de ouvinte. Não me senti no direito de perguntar nada, apenas ouvir o que Raoni escolheu registrar. Assim, não disse nada, mesmo com essas e muitas outras questões, e deixei que as coisas acontecessem conforme teriam que acontecer.

E assim foi feito, durante o período que fiquei na aldeia fui, todas as manhãs, ao seu encontro, na sua casa nos primeiros dias e depois em um acampamento perto da aldeia, onde os homens estavam reunidos preparando uma festa que estava acontecendo na aldeia, para ouvi-lo e gravá-lo.

As histórias foram narradas em língua Mẽbêngôkre e estavam sempre presentes eu e Piydjwa (um dos professores em formação), além do contador, é claro. Cada dia recebíamos uma visita diferente, pessoas da comunidade vinham ver o que estávamos fazendo e acabavam ficando para escutar a história até o final.

Ouvir e ver cada uma das histórias narrada em língua indígena por uma pessoa “autorizada[1]” por sua tradição foi uma experiência indescritível e, assim, inesquecível. Experenciar o confronto do tradicional com o moderno, a memória começar a literatura, o livro, é perturbador.

Mas voltemos ao assunto dessa nossa conversa.

À medida que os dias iam passando e as histórias sendo gravadas, perguntei ao Piydjwa se ele não queria começar a transcrever as fitas, ele concordou e me perguntou por qual fita começaríamos, sugeri que começássemos da primeira, já que, como o próprio Raoni havia dito, tínhamos as histórias gravadas na ordem, desde o início.

Assim, durante quatro dias, dedicamos algumas horas da tarde à transcrição da primeira fita. Transcrever demora e tampouco é algo fácil de se fazer. Neste período transcrevemos e traduzimos uma história completa e outra pela metade.

A transcrição foi feita na língua pelo Piydjwa, que escutava e escutava de novo uma parte, escrevia-a e escutava de novo, conferindo com o seu texto escrito. Esse movimento se repetiu incontáveis vezes, algumas partes foram mais escutadas do que outras, talvez pela qualidade da gravação, que não foi das melhores, talvez pelo que ouviu; acredito mais nesta segunda opção...

Depois que terminou de transcrever a primeira história, começamos a traduzi-la: ele lia o texto escrito, falava para mim em português e eu escrevia, tentando aproximar a minha escrita da maneira em que ele me contou, sempre tentando aproximar o que me contava em português do que escreveu em mẽbêngôkre, quando tentou escrever a voz do Raoni; são movimentos que se repetem...

Acompanhando a tradução em voz alta de Piydjwa, vi que algumas partes do texto não eram traduzidas e quando perguntava para ele o que significava aquele trecho do texto ele não hesitava em me responder: “ah, essa parte aí eu não sei como te explicar em português”, ou “essa é uma música, não tem como te falar em português”, ou ainda “esse foi um barulho que o Raoni fez, para imitar o que aconteceu”, outros trechos me foram explicados com gestos. Faltavam palavras em português no vocabulário dele...

Em alguns momentos, Piydjwa me pediu para colocar a gravação, enquanto ele escutava de novo, conferia seu texto, em língua Mẽbêngôkre, e o meu, em língua Portuguesa, com a história contada pelo Raoni, fazendo correções em ambos os textos produzidos a partir da narrativa oral. Me recontar a história em português, o fez refletir e rever a sua escrita em mebengokre, acredito eu.

Durante esses dias, eu e Piydjwa não assumimos nenhum compromisso formal e explícito em relação ao nosso fazer tradutório, não nos preocupamos com possíveis rigores científicos, mas também não nos demos a individual liberdade   da “criação” literária. Apenas escrevemos uma narrativa oral, em versão mẽbêngôkre e portuguesa. Intuitivamente, o interesse estava no trabalho da escrita, na descoberta de como o texto oral se comporta no papel.

Hoje, depois de ter vivenciado e refletido sobre esse momento, ouso afirmar no entanto que experimentamos, sim, o fazer literário. Algumas questões me vieram – acredito que ao Piydjwa também, mesmo sem ele as ter evidenciado: como, e em que nível, se dá a transcriação, como passar para o papel toda a construção e encenação do narrador; como traduzir para a língua dominante, quando se opta fazê-lo; como transformar o texto oral em escrito, tendo liberdade para criar e modificar[2], fazendo escolhas para recuperar o estilo do narrador, para que a sua voz não se perca no papel?

Mas a grande pergunta que sintetiza todas as outras e que realmente fica é: o que é fazer literatura? Em qual momento e de que maneira o fazer literário se realiza e se concretiza no ambiente da aldeia?



[1] Dentre os mẽbengokre algumas pessoas são escolhidas para aprender a ser contador de história, são aquelas que tem direito adquirido

[2] Dentre os Mẽbêngôkre pode haver um grande problema aí – as histórias são narradas por velhos, contadores de história autorizados pela comunidade para fazê-lo, quem escreve são os mais jovens, que ainda estão aprendendo as histórias, os cantos, enfim, que ainda estão estudando na escola tradicional da aldeia e, por isso, não podem e nem têm autorização da comunidade para contar essas histórias em ambiente formal – muitos apresentam pudor mesmo no ato de escrever as histórias tradicionais em algumas aulas do Curso de Formação – mas estão recebendo, de suas comunidades, a tarefa de escrevê-las. Em alguns casos, o narrador chega a escolher e indicar uma ou mais pessoas para escreverem o que contou e que agora está gravado.