Para cultivar a terra, temos que saber amá-la
Texto de Kanatyo Pataxó
Aldeia Retirinho
Um dia meu pai estava cuidando das plantas próximo
da nossa casa. De repente me chamou para levar água para
saciar sua sede. Fui ao córrego, peguei uma cabacinha de
água fria e levei para ele.
Depois que bebeu a água me disse:
- Olha filho, está vendo como as plantas estão bonitas?
- Elas estão muito felizes, assim como eu estou.
- Mas você sabe por que?
- O amor que tenho por elas é muito grande e faz com que
elas tenham mais seivas para crescerem bonitas e sadias.
Elas compreendem meu carinho, por isso sempre quando cuidamos das
plantas, zelamo-as como zelamos a nossa própria vida.
- Um dia quando você for fazer uma roça, a primeira
coisa a fazer é amar, para saber ouvir a voz da natureza.
Ela te levará ao lugar certo de fazer a roça.
Quando eu era criança, o meu pai me contou uma história
a qual lhe contarei agora.
Assentei debaixo de uma sombra e meu pai, se recostando em um tronco
de árvore, começou a contar a história.
Meu pai conta
a história
Um dia, um jovem índio tinha se casado bem
recentemente e decidiu fazer uma roça. Ao amanhecer, se levantou
bem cedinho e saiu para a mata.
Andando pela mata, o índio ia cada vez mais ouvindo uma voz
bem baixinha, mas não entendia o que queria lhe dizer. Por
fim ouviu a voz da natureza falando que o lugar para fazer sua roça
estava ali na sua frente.
Já era bem tarde, o índio pensou em voltar para casa,
mas antes de voltar, decidiu roçar um pouquinho. E assim
a voz lhe perguntou:
- O que está fazendo aí?
- Estou roçando o lugar da minha roça.
Naquele instante, o índio viu roçando por todos os
lados.
Em pouco tempo o lugar da sua roça estava pronto.
O índio, muito feliz, agradeceu a ajuda e voltou pra casa.
Ao chegar em casa, a sua mulher lhe perguntou:
- E aí? Encontrou o lugar certo de fazer a nossa roça?
- Encontrei, mulher.
E assim começou a contar para sua mulher, que ao andar por
muito tempo pela mata, ouviu uma voz lhe dizendo:
- Olha, o lugar da sua roça está bem aí na
sua frente.
Naquele sentir um amor tão forte dentro de mim por aquele
pedaço de chão e comecei a roçar um pouquinho
antes de voltar para casa.
Assim que comecei a roçar a voz me perguntou novamente o
que eu estava fazendo ali. Disse que estava roçando o lugar
da minha roça. De repente ouvi por todos os lados batidas
de alguém me ajudando. Em pouco tempo a roça estava
toda roçada. Agradeci a ajuda e depois vim embora.
Se passou um bom tempo e o índio voltou na roça pra
ver se estava boa para queimar. Chegando lá, viu os matos
todos secos, a roçagem estava boa para pôr o fogo.
Naquele momento pegou o fogo e começou a fazer pequenos foguinhos
pela beirada da roça. A voz apareceu e lhe perguntou:
- O que está fazendo aí?
- Estou colocando fogo para limpar minha roça.
De repente viu vários foguinhos sendo acendidos pelo meio
do roçado.
Em ouço tempo a roça estava toda queimadinha e limpinha,
boa para fazer plantação.
No outro dia, o índio pegou suas sementes e mudas e foi plantar.
Ao chegar na roça, começou a fazer sua plantação,
a voz apareceu e lhe perguntou:
- O que está fazendo aí?
- Estou plantando minha roça.
No mesmo instante o índio viu sua roça sendo plantada
e em pouco tempo estava toda plantadinha. O índio ficou muito
feliz, agradeceu a ajuda novamente e foi embora.
Se passou um bom tempo e ele voltou na roça para ver se estava
boa pra capinar.
Quando chegou lá, as plantas estavam bem crescidas, bonitas.
Então começou a capinar e de repente ouviu a voz lhe
perguntado novamente:
- O que está fazendo aí?
- Estou capinando a minha roça.
De repente viu batidas de gente lhe ajudando em poucos instantes
a sua roça estava toda capinada. E assim agradeceu a ajuda
mais uma vez e foi embora.
Se passou um bom tempo e o índio ficou esperando a mandioca
amadurecer.
Um dia ele chamou sua mulher para ir arrancar mandioca para fazer
beiju.
Quando estavam arrancando mandioca, apareceu uma mutuca, mordeu
a mulher e ela deu um xingo ruim.
O homem não gostando da atitude da sua mulher, lhe falou
com a voz baixinha.
- Mulher, quando a gente estiver cuidando das plantas ou tirando
o alimento da terra, não se pode ficar com o coração
angustiado.
Depois que arrancaram a mandioca foram embora pra casa.
No outro dia, o índio voltou na roça para buscar o
resto da mandioca, viu as plantas com as folhas amareladas e murchas.
Daquele dia para frente, as plantas foram morrendo...morrendo...Até
que todas as plantas que tinham na roça morreram.
-Por esta razão meu filho, lhe digo:
-Que homem e natureza devem viver sempre em equilíbrio, mas
para que isso aconteça tem que aprender a amá-la.
- O amor nos deixa em equilíbrio e harmonia com a natureza.
A harmonia representa o silêncio da sabedoria e o grande saber
de ouvir a voz que vem sem fazer barulho.