Estratégias para
matar um leitor em formação:
autocrítica e sugestão
Jairo Rodrigues
Jairo Rodrigues é Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da UFMG
e coordenador do Setor de Bibliotecas Comunitárias do Programa de Ensino,
Pesquisa e Extensão A tela e o texto.
NERES, José. Estratégias para matar um leitor em formação. São Luís: Carajás, 2005, 81 p.
Estratégias para matar um leitor em formação, sexto livro do professor
e poeta maranhense José Neres (1)
, é o primeiro no qual o autor aborda temas relacionados ao cotidiano do ensino de
leitura nas escolas brasileiras. Fruto da preocupação com a situação calamitosa que
vive a educação no país, o livro, irônico desde o título, possibilita uma série de
reflexões relevantes aos profissionais que trabalham com o ensino Língua Portuguesa
e com a Literatura Brasileira.
Durante cerca de vinte anos atuando como professor, Neres pode verificar a imperícia
de alguns “educadores” que agiam e agem, em relação ao incentivo à leitura, de maneira
descompromissada e até mesmo leviana para com seus alunos. Estas experiências compõem o
mote principal dos textos desenvolvidos na primeira parte do livro, intitulada “As estratégias”.
Dividida em sete textos, “As estratégias” são iniciadas sempre com um diálogo criado pelo
autor. Estes diálogos servem como introdução para uma reflexão subseqüente e, entre
os assuntos ali abordados, encontramos uma série de contra-exemplos por meio dos quais
os “educadores” desestimulam seus alunos a lerem — fatos que infelizmente acontecem
com freqüência em escolas espalhadas por todo o país. Como se portasse uma lupa, o
autor amplia tais ocorrências denunciando o desinteresse com a promoção da leitura
daqueles que deveriam ser seus maiores estimuladores. A exigência imposta por certos
professores de que seus alunos leiam apenas os clássicos da literatura, o descaso para
com as bibliotecas nas escolas e a desqualificação da leitura feita pelos alunos são
alguns dos tópicos trabalhados nessa primeira parte da obra.
“Artigos diversos”, segundo momento do livro, é composto por textos que foram publicados
nos jornais O Estado do Maranhão e O Imparcial. Neles, José Neres
reafirma a importância da leitura na formação do cidadão e reflete, dentre outros
assuntos, sobre a falta que faz o hábito da leitura durante o processo da escrita como
é o caso descrito em “O fantasma da redação” no qual o autor afirma: “Sem leitura crítica e
sem um trabalho consistente com as idéias acerca do que foi lido fica muito mais difícil
defender os próprios pensamentos através da exposição escrita” (NERES, 2005, p.70).
Em “Sobre o ato de escrever” o autor desmistifica a idéia de que escrever é tarefa
para os “iluminados”, define a leitura como “mãe da escrita” e argumenta que a prática
constante e sistematizada da escrita conjugada com a leitura é que possibilita a uma
pessoa escrever cada vez melhor. O poder de mudança do comportamento humano adquirido
por meio do conhecimento que a leitura pode despertar aparece no artigo “Livro – uma arma
poderosa”. Nele, Neres evoca o conto “Um general na biblioteca”, de Ítalo Calvino,
os personagens Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, Policarpo Quaresma, de Lima
Barreto e Mário, do livro O carteiro e o poeta, de Antônio Skármeta, para demonstrar
a potência transformadora que a leitura pode proporcionar às pessoas.
As reflexões sugeridas pelo autor podem ser ampliadas com as indicações
bibliográficas que são relacionadas ao final do livro. Curta, porém bastante
rica, a bibliografia aparece como um apoio relevante para professores e pesquisadores
que se interessem pelos temas leitura e formação de leitores.
Estratégias para matar um leitor em formação surge em uma época na
qual alguns setores da sociedade brasileira parecem realmente se preocupar com
a educação no país. O livro responde a este momento de maneira bastante inteligente
pois, utilizando-se de uma escrita generosa, seu autor convida a nós, profissionais
da educação, a refletirmos sobre nosso papel na formação de leitores que sejam cada
vez mais capacitados e que consigam perceber a leitura não apenas como um meio de
se adquirir conhecimentos, mas também como uma atividade que envolve prazer, alegria
e crescimento pessoal, pela descoberta de si e do outro.