Leituras da arte =
leituras do mundo
Maria Zélia Castilho de Souza Rogedo
por Maria Antonieta Pereira
Maria Zélia Castilho de Souza Rogedo é formada em Sociologia/UFMG.
Ex-professora de Sociologia (PUC-MINAS, UFMG, Faculdade de Filosofia
de Pedro Leopoldo e Governador Valadares). Ex-pesquisadora de 3P —
Pesquisas, Planejamentos e Projetos. Militou na JEC
(Juventude Estudantil Católica) e na AP (Ação Popular), nos anos 60.
Militou nos movimentos negro e de mulheres. Fundadora e secretária do
Movimento Feminino pela Anistia. Atua na área social como voluntária
desde os anos 70. Atua junto à população de vilas do Aglomerado da Serra.
Membro da Ordem Franciscana Secular e do SINFRAJUPE
(Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia).
Escreve para o
Jornal de Opinião, da Arquidiocese de Belo Horizonte.
Maria Antonieta Pereira é professora de Teoria da Literatura e
Literatura Comparada na Faculdade de Letras/UFMG. Pós-doutora pela
Universidad de Buenos Aires. Autora de vários livros e artigos sobre telas,
textos e educação. Pesquisa atual: Tecnologias intelectuais da leitura.
Coordenadora do Programa de Ensino, Pesquisa e Extensão
A tela e o texto.
Maria Antonieta Pereira - Você desenvolve o projeto de educação musical,
na Vila Nossa Senhora Aparecida, há quanto tempo? Qual é o objetivo principal
desse projeto?
Maria Zélia Castilho - Acho bom dar uma brevíssima história do trabalho.
Comecei a atuar na Vila Nossa Senhora Aparecida, situada no Aglomerado da Serra,
na Igreja São Lucas e na Obra Social da Igreja. Isso foi por volta de julho de 1993.
Encerrei minhas atividades nesse local em outubro de 2005. Atualmente, estou
cooperando numa outra entidade, o Centro Comunitário, situada na mesma Vila.
O projeto na Obra Social S. Lucas como um todo, não tem nome definido.
Comecei a trabalhar (sempre como voluntária, como membro da Igreja)
com crianças e adolescentes. As atividades eram feitas através de jogos,
oficinas de desenho, pintura, trabalho com sucata de madeira, leitura de
livros que eu levava (depois formei uma biblioteca). Fazíamos, também,
trabalhos de criação coletiva de histórias, incluindo ilustrações.
Aos poucos fui convidando pessoas de diferentes áreas para participar:
artes plásticas, música, teatro, dança, acompanhamento escolar, artesanato etc.
Uma das mais significativas constatações que tivemos foi a de que havia uma enorme
dificuldade, por parte de crianças, adolescentes e também adultos, com relação
à leitura e à compreensão de textos. Aliás, a dificuldade não se referia só à
compreensão de textos, mas também da realidade, do mundo. Havia um domínio bem
tosco das ferramentas que permitissem manobrar, mapear e nomear a realidade.
A escola era uma instituição que inspirava pouco, que motivava pouco, que
excluía muito... Sempre pensei que a experiência artística fosse transformadora.
Acho que ela salva, literalmente, o ser humano. Nosso objetivo, então, nem
sempre foi muito "teorizado" — buscávamos criar condições para que crianças,
adolescentes e adultos pudessem ter acesso à cultura, vista como um direito.
Esse objetivo leva em conta que as condições de acesso à experimentação e
ao conhecimento de manifestações artísticas de alta qualidade são absolutamente
necessárias para o desenvolvimento de uma visão de mundo mais profunda e mais crítica.
Quais têm sido, ao longo dos anos, as principais dificuldades para a implantação do projeto?
Como elas foram interpretadas (lidas) e superadas pelos participantes?
Diariamente, são oferecidos para a maioria de nosso povo
(especialmente, mas não exclusivamente, para as classes mais pobres)
músicas e textos que considero verdadeiras excrescências.
"Boquinhas da garrafa", músicas que colocam a mulher "no seu lugar” (!),
ou seja, como objeto de cama e mesa, para ser comida, lambuzada e descartada
e algumas letras dos movimentos funk e hip-hop tidas como críticas
(no meu entendimento são pseudo-críticas...) coisas tais que massacram
nossa inteligência. Constatei inúmeras vezes como essas manifestações
conformavam uma certa visão do mundo, especialmente entre os jovens.
E também entre as mulheres que as aceitavam, internalizavam e enalteciam
muitas vezes. Elas tomavam um susto quando eu dizia que não eram só bunda!
Onde estava o resto de seus corpos, sua inteligência, sua sensibilidade?
Certa vez, numa atividade em que as crianças desenhavam o corpo, um menino
de mais ou menos 10 anos desenhou uma mulher, bem cheia de curvas, de biquíni.
No final, pedi a ele que descrevesse a mulher e só então ele notou que não tinha
desenhado sua cabeça! Foi legal a conversa que tivemos no grupo sobre isso.
O acesso às artes possibilita uma leitura mais acurada do mundo, sem dúvida.
Os adolescentes que já fazem há anos aulas de artes plásticas, de papel artesanal
ou grafite com os ótimos professores da Guignard já mudaram muito.
É impressionante como são capazes de "ler" uma obra de arte quando vão aos museus,
às exposições. Isso determinou uma mudança até mesmo na postura física de cada um:
descobriram o direito de freqüentar espaços que nem imaginavam existir.
A partir daí, a leitura que fazem de um grafite no muro mudou. A apreciação é outra.
A coragem de produzir outras formas artísticas não-estereotipadas é visível.
Quanto à música, já tínhamos cursos de flauta, de violão e, eventualmente, de teclado.
Depois convidei minha grande amiga Berenice Menegale para um trabalho na Vila.
Berenice (pessoa maravilhosa, generosa, a quem amo muito) elaborou um projeto de
profissionalização de músicos que tem o nome de Centro Leopold La Fosse de Formação
de Instrumentistas. Atualmente, várias crianças e adolescentes têm aulas com
professores da Fundação de Educação Artística nas áreas de violino, viola, violoncelo,
flauta transversal, saxofone e clarineta. É maravilhoso ver o desenvolvimento delas...
É lindo constatar que quando há possibilidade as pessoas vão longe. Há, também, o
objetivo de criar uma orquestra experimental, pois vários alunos talentosos já estão
se apresentando em eventos e prometem muito. Um deles está aprendendo a profissão de Luthier.
Quais têm sido os principais resultados obtidos pelo projeto?
O desenvolvimento da aprendizagem e do amor à música e ao instrumento escolhido,
a consciência de um sentido de disciplina intelectual e as modificações na
postura em geral, inclusive corporal. Esses resultados são sentidos também
nos alunos de artes plásticas, dança, teatro e outras atividades.
O projeto é, portanto, também uma forma de se ler o mundo?
Percebemos uma grande transformação na rede de contatos das pessoas
envolvidas nessas atividades: quando se encontram, o assunto é mais diversificado,
mais rico em trocas e informações; há respeito e atenção. Por meio da aprendizagem
do instrumento, as pessoas aprendem também a ouvir o outro, a tentar entender o
que ele fala. Aprendem que quando alguém está tocando seu instrumento é necessário
silêncio. Acho que tudo isso permite uma leitura muito, muito legal mesmo do mundo,
das relações entre as pessoas etc.
Os olhos se abrem diante de uma exposição, de uma apresentação de teatro ou dança.
As pessoas aprendem a ver melhor, de forma mais qualificada e mais carregada de
informação e emoção. A gente percebe que tudo é registrado, selecionado, escolhido
pessoalmente como o que mais agradou e o que não foi assimilado. Depois há troca de
informações, conversas... Muita coisa muda!
A leitura de mundo dos participantes do projeto tem sido ampliada, a partir do desenvolvimento do mesmo?
Os participantes do projeto acabam sendo referências na comunidade para suas famílias,
seus amigos e vizinhos: que aprendem a ir a museus, no caso das artes plásticas e do
artesanato, ou a concertos e a festivais nos quais os alunos se apresentam.
Já percebi que os jovens e as pessoas mais velhas descobrem que outra realidade
é possível. Que vale a pena o esforço para crescer. As crianças que têm acesso a
livros de arte (Giotto, Da Vinci, Van Gogh, Picasso, Portinari), que têm acesso
a Pixinguinha, Noel Rosa, Milton Nascimento, Beethoven, Bach ou Mozart tendem a
ver as coisas de forma diferente... Acho que tudo isso é uma bela forma de se ler o mundo!
Qual é a leitura que você faz do trabalho realizado na Vila por educadores culturais?
Acho importantíssimo registrar aqui a importância de tantas pessoas que participaram
dos diferentes projetos na Vila Nossa Senhora Aparecida. Costumo dizer que a palavra
“voluntário” expressa pouco, muito pouco mesmo, o trabalho que inúmeras pessoas
desenvolvem. A presença de professores de artes plásticas, música, dança, teatro,
artesanato, como também de psicólogos, orientadores educacionais e professores de
reforço é de tal forma enriquecedora que dificilmente poderemos apreendê-la na
sua profundidade. Não posso chamar de “voluntário”, simplesmente, alguém que
não entrega somente seu conhecimento, mas que se entrega por inteiro, com emoção,
amor, cuidado, respeito, capacidade de estar atento para ouvir e aprender com o outro.
Alguém que tem um real compromisso com a transformação do mundo... Que outra palavra
apreende tudo isso?