Clarice Lispector: o dito e o interdito da pintura à ficção
Marcos Antônio de Oliveira(1)
Edgar Cézar Nolasco(2)
Marcos Antônio de Oliveira é Graduando em Artes Visuais – DAC/CCHS/UFMS Bolsista
de Iniciação Científica – PIBIC/CNPq.
Prof. Dr. Edgar Cézar Nolasco – Orientador – DED/CPTL – DLE/CCHS
Sou fraca, dúbia, há uma charlatã dentro de mim embora eu fale a verdade.
E sinto-me culpada de tudo. Eu que tenho crises de cólera, “cóleras sagradas”.
E não encontro o recolhimento da paz. Por piedade, me deixem viver! eu peço pouco,
é quase nada mas é um tudo! paz, paz, paz!
Não, meu Deus, não quero ter paz com ponto de exclamação.
Quero apenas o mínimo seguinte: paz.
Assim, bem, bem devagarzinho ... assim ... quase dormindo ... isto... isto... está quase vindo...
Não me assustem, sou assustadíssima.
Clarice Lispector
Resumo
Este artigo propõe tão-somente fazer uma análise da produção pictural da escritora
Clarice Lispector, que se constitui em 16 quadros ao todo, encontrando-se alguns
na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Por tal produção resumir-se
a uma atividade “amadora” da intelectual, realizada no decorrer do ano de 1975 e
meados de 1976, a leitura toma como ponto de partida o livro Água viva, por o
mesmo apresentar uma narradora-pintora que se propõe a dialogar sobre seu processo
de criação pictural-verbal.
Palavras-chave: Clarice Lispector, literatura, pintura.
Clarice Lispector, como todos já sabemos, além de grande escritora,
arriscou-se a enveredar pelas artes. Pintou um total de 16 telas “abstratas”, cujos títulos são:
Raiva e [reunificação], Gruta, Explosão, Tentativa de ser alegre, Escuridão e luz:
centro da vida, Luta sangrenta pela paz, Ao amanhecer, Pássaro da liberdade, Cérebro
adormecido, Sem sentido, Medo, (todos de 1975), Eu te pergunto por quê?
e Sol da meia-noite, de 1976, e duas telas sem título (uma sem data e outra de 1975).
Dois desses quadros aparecem descritos em Um sopro de vida.(3)
Esses quadros de alguma forma amalgamam parte de sua vida, como a estada
fora do país (Berna, Nápoles, Washington) e no país, como o Rio de Janeiro,
onde residiu até o fim da vida. Lembramos, conforme atestam suas correspondências,
que foi em meio a essas tantas mudanças e viagens que a autora escreveu grande
parte de sua obra, visitou museus e teve contacto com grandes artistas, a exemplo
de Giorgio De Chirico que a retratou.
Em seu livro Água viva, Clarice Lispector também faz um relato narrativo de sua vida
como pintora, onde ela mesma se pergunta e responde sobre suas telas e as critica:
“quando estranho uma pintura é aí que é pintura".(4) Podemos entender tal fala
da narradora/pintora como uma autocrítica de sua obra como pintora, já que nesse
momento a escritora já era consagrada como tal, mesmo que sempre muito criticada,
e já se enveredara nas artes plásticas. Vejamos o que diz Lucia Helena Vianna,
em texto sobre Clarice Lispector e Frida Kahlo:
Clarice Lispector e Frida Kahlo construíram uma imagem identitária plenamente reconhecida
e legitimada socialmente. Atingiram o pódio da consagração nacional em seus países de origem
e também internacionalmente pelo mérito excepcional de suas obras, mas também pela
singularidade da personalidade rara, com marcas de exotismo, de ambigüidades e excentricidades,
pelas histórias de vida incomuns e, por que não, pela capacidade que tiveram de serem elas
próprias artífices da imagem que queriam perpetuar de si mesmas.(5)
Ilustração 1

Explosão
Há inúmeras passagens no livro Água viva, que exemplificam a
forma de pintar, sofrida e dolorida, que metaforiza o próprio escrever de Clarice,
sempre buscando dizer o indizível, ou seja, como a pintura era vista num primeiro olhar ou leitura.
Mesmo que Clarice só exercesse a pintura como distração pessoal, o fato é que tais
quadros acabaram atingindo a esfera pública, por vários motivos, inclusive porque ela mesma presenteava
seus amigos com eles. De fato, o que acaba despertando o interesse da crítica pelas telas
é o fato de serem pintadas por Clarice Lispector, o que vem a legitimar a “qualidade”
das obras. Quando Clarice depositava ali sua assinatura ela automaticamente dava um valor
aos quadros, legitimando-os, por que era a escritora brasileira
mais cercada de mistério, quer seja na vida ou na ficção, que os pintara.
O processo de inserção da assinatura do “autor” (não se trata de qualquer autor
mas de alguém que, em outro segmento das artes, já tinha
reconhecimento autoral) desvencilha a tela do simples prazer da criação,
ou seja, coloca a obra num hall de obra de arte, de algo que se torna comercialmente importante.
Nesse caso, Compagnon faz uma importante observação da associação entre assinatura e obra criada, quando comenta as relações Duchamp e Andy Warhol:
A obra repousa na sua assinatura, fazendo do artista o lugar da arte.
Um quadro é uma imagem, não importa qual, levando uma assinatura.
Esta é o equivalente de uma marca de fábrica para os objetos manufaturados:
Warhol ou Colgate, na indistinção do que leva uma etiqueta.(6)
Esta passagem de Água viva ilustra o que estamos dizendo, quando
Clarice Lispector explica seu ato de pintar, atravessado pela personagem/pintora,
entrelaçando-o com o ato criativo da escrita:
Tente entender o que pinto e o que escrevo agora. Vou explicar: na pintura como
na escritura procuro ver estritamente no momento em que vejo — e não ver através
da memória de ter visto num instante passado. O instante é este. O instante é de
uma iminência que me tira o fôlego. O instante é em si mesmo iminente. Ao mesmo
tempo que eu o vivo, lanço-me na sua passagem para outro instante.(7)
Em quase todos os seus quadros, Clarice Lispector, trabalha com elementos que
fazem uma alusão, direta ou indiretamente, à morte, à tristeza, ao mistério e ao
vazio, termos também recorrentes em sua ficção.
Segundo Lucia Helena Vianna, tal prática se deu por simples hobby:
"é dentro desse clima um tanto depressivo que a escritora
passa a se dedicar a experiências com a pintura, como passatempo relaxante e terapêutico".(8)
Com certeza Clarice não imaginava que suas telas seriam, posteriormente, tão admiradas
e valiosas, como sua escrita o foi. Na verdade, o texto-tela funciona como um
suplemento ao texto ficcional, ou seja, possibilita a esse um acréscimo de sentido.
O inverso, talvez, não seria menos possível de ser pensado.
Por mais que Vianna tenha razão com relação ao “simples hobby” não podemos descartar o
fato de que tal gesto está carregado de emoções, seleções e sensações pessoais de Clarice
que são correlatas ao ato de escrever. Exemplifica o que estamos querendo dizer o fato
de Clarice, primeiro, escolher o título do quadro e rubricá-lo no corpo da tela para, só
depois, pintá-lo, a partir do nome. Daí pensarmos que, escolhido o título, a pintura
seria, grosso modo, a cor, a representação, o desenho das emoções e sensações da mulher-artista.
Como exemplos da vida, da escrita e da pintura claricianas, Água viva, publicado em 1973, traz uma narradora-feiticeira
e pintora que relata sua vida (escrita/pintura) a um intelectual imaginário.
Ilustração 2

Luta Sangrenta pela Paz
Registre-se que tal escrita/pintura levada a cabo pela narradora-feiticeira Clarice
Lispector ocorreu num contexto histórico no qual as artes passam por mudanças significativas.
Nesse sentido, Maria Adélia Menegazzo, em A poética do recorte, lembra-nos que:
Desde meados dos anos 1960, há um reforço dessa prática. As obras então produzidas
desarticulam, rompem e corrompem os elementos baseados na lógica racional do discurso
realista, questionando sua função numa sociedade dominada pelos meios de comunicação
de massa e por sofisticadas técnicas de reprodução.(9)
Tal passagem nos remete à época da quebra de regras nos vários
segmentos artísticos, o que se dá com o boom do consumo, tornando a arte uma mercadoria
destinada também à comercialização. Andy Warhol, por exemplo,
usou elementos da mídia como Marilyn Monroe para expor a era consumista que se contrapunha a toda a sofisticação da arte européia,
abandonado as regras e os cânones acadêmicos, ou seja, assassinando a obra de arte clássica
para que a arte moderna se estabelecesse como tal. Nesse contexto, produtos de massa como a coca-cola expandiu-se para vários
países do mundo e houve o surgimento das grandes lojas de departamento, como as Lojas Americanas.
Ilustração 3

Medo
Clarice Lispector parece dialogar com esse contexto, apesar
de já haver alguns anos entre o início da discussão e seu período de criação.
Livre da obrigação de seguir algumas regras impostas
pela sociedade, Clarice se sentiu à vontade para pintar o que quisesse,
inserindo em suas telas a realidade de seu próprio dia-a-dia.
Era, contudo, uma fase cercada por dúvidas,
angústias e medos, já que a escritora se encontrava no auge da carreira literária.
Ilustração 4

Gruta
A necessidade de produção impecável leva Clarice Lispector a um estado de desordem
mental íntima, a um medo que surge imediatamente numa de suas telas, onde
ela se encontra num lugar de insegurança,
já que em toda a sua trajetória como escritora, ela experimentara tal situação,
na busca de afirmação como grande autora.
A pintura, como válvula de escape, libera Clarice dessa pressão psicológica,
já que tal trabalho assumido como prazer, como liberdade de expressão,
não a colocava na obrigação de ser a melhor das artistas, como seus contemporâneos.
Tal liberdade é mostrada por Maria Adélia: “a necessidade de experimentar
o novo provocava a urgência em “zerar”
experimentos anteriores e se posicionar em relação ao futuro.”(10) Esta sem dúvida era
a intenção de Clarice Lispector: zerar os experimentos anteriores, livrar-se
da experiência de ser uma das melhores, se não a melhor escritora de sua época.
A preocupação de Clarice com suas novas criações em literatura, é demonstrada na obra
Um sopro de vida, que é lançada após sua morte, pela amiga Olga Borelli: “Eu queria escrever um livro. Mas onde estão as palavras?
esgotaram os significados.”(11) Significados que Clarice passa imediatamente a
procurar na pintura, uma vez que ela não estaria trabalhando com a forma da palavra dita,
mas com a palavra abstrata, dependendo de cada espectador
a interpretação. Maria Adélia também mostra essa
independência do processo criador na pintura de Clarice:
A arte torna-se autônoma, isto é, livre e independente em relação aos cânones
estéticos tradicionais e à realidade do dia a dia, pois agora é capaz de gerar
sentido a partir dela mesma, não precisa necessariamente de um tema, e radicaliza
a todo o momento a experimentação, os materiais, a posição diante do leitor/espectador.(12)
Ilustração 5

Tentativa de ser alegre
Na tentativa de se ver livre de tais cânones, Clarice se sente mais à vontade
no processo de criação pictural que no literário.
A obra póstuma, Um sopro de vida, iniciada em 1974 e concluída em 1977,
traz ainda como tema uma escritora/personagem, criada por um suposto
escritor/narrador, que era uma artista plástica reconhecida pelo seu
trabalho e que tinha imensa vontade de escrever um livro,
como já mostramos antes. Lemos tal obra, como o oposto da verdadeira
escritora/pintora Clarice Lispector que, como é sabido, tinha total
consagração literária.
Lucia Helena Vianna, em "O figurativo do inominável", mostra o
quanto a escritora se sentia incomodada com a posição de grande
escritora que agora ocupava, já que àquela época passara a escrever crônicas
semanais para o Jornal do Brasil e atingira um público bem maior do que
o alcançado com suas obras literárias. Mas isso Clarice não considerava
a melhor das literaturas e sim uma paraliteratura. Sobre isso, Lucia Vianna declara:
"O reconhecimento público e a notoriedade, que para a maioria dos artistas traz
a feliz sensação de sucesso, nela abriu uma crise pessoal quanto aos rumos de sua escrita."(13)
Tal passagem no texto de Lucia Helena confirma a perturbação que a escritora
Clarice Lispector passava no momento de sua criação como pintora de quadros.
Mesmo a partir das afirmações dos estudiosos da escritora, podemos pensar que tal
insatisfação quanto a seu sucesso como escritora, não passava de uma
encenação da artista Clarice Lispector, já que ela buscara em sua
vida o tão sonhado êxito. Clarice não só
sabia, e muito bem, lidar com as palavras na escrita, mas também com as
palavras na pintura. Cercada de grandes artistas e conhecedora de
hábitos sofisticados, Clarice dominava as técnicas necessárias a
uma boa artista da época. Como ela mesma relata em seu livro póstumo, a
pintora/personagem Ângela Pralini, da obra Um sopro de vida, era uma
mulher de hábitos refinados, preocupada sempre em estar na moda, tendo senso
crítico e grande domínio de certas cores e materiais de pintura.
Uma vez sendo reconhecida
como artista, ela deveria dominar as técnicas de seu fazer, mas não podemos nos esquecer
que tal personagem passa pelo cunho autoral de Clarice Lispector, que sempre
disse que só pintava por hobby ou para se desligar do mundo exterior. Clarice
faz uso do ready-made, estratégia usada por Duchamp, quando deixa de pintar
e faz uso de objetos inusitados para
compor obras de arte, como a roda de bicicleta e o tamborete (1913),
que ele expôes valendo-se do principio de dar finalidades inusitadas
a objetos do uso cotidiano, transformando-os em obras de arte. Compagnon
descreve esse processo da seguinte forma:
O redy-made é evidentemente iconoclasta, ainda mais na época.
Descontextualizando o objeto e dotando-o de um título, ele leva ao
cúmulo o nominalismo pictural, quer dizer, a substituição do plástico
pelo lingüístico na arte, ou do discurso sobre a arte ao recuperável.
Duchamp insistia, por outro lado, na indiferença que presidia a sua
escolha de objeto. Ele escreve na Boîte Blanche (Caixa Branca):
“a exigência de objeto para com o criador-escolhedor não se fundamenta
no atrativo exercido sobre este em função de seu gosto, mas sobre a
indiferença, na neutralidade, quer dizer, sobre um absenteísmo estético
total, uma absoluta 'anestesia' ".(14)
Clarice Lispector valendo-se do redy-made, da re-adequação do material,
principia seu processo pictural, utilizando materiais inusitados
como suportes, a exemplo da pinho de riga, madeira que à sua época era usada
nas melhores construções e em mobiliários. Tais experimentos de leitura
estão nos trechos a seguir, quando Ângela/Clarice descreve "Gruta", um de
seus quadros, e a técnica de sua pintura ou quando ela brinca
com as cores de um suposto vestido que ela teria comprado.
Vivo tão atribulada que não aperfeiçoei mais o que inventei em matéria de pintura.
Ou pelo menos nunca ouvi falar desse modo de pintar: consiste em pegar uma tela
de madeira — pinho de riga é a melhor — e prestar atenção às nervuras. De súbito,
então vem do subconsciente uma onda de criatividade e a gente se joga nas nervuras
acompanhando-as um pouco — mas mantendo a liberdade. Fiz um quadro que saiu assim:
um vigoroso cavalo com longa e vasta cabeleira loura no meio de estalactites de
uma gruta. É um modo genérico de pintar, e, inclusive, não se precisa saber pintar:
qualquer pessoa, contanto que não seja inibida demais, pode seguir essa técnica de liberdade.(15)
Comprei hoje um vestido longo com tons de verde-esmeralda, vermelho-escarlate,
branco-gritante, preto-severo, azul-rei, amarelo-doido.(16)
Clarice ainda coloca dúvidas quanto à sua obra, quando em vários momentos de Um sopro de vida
justifica sua suposta ineficiência como escritora, como uma fracassada,
uma mulher que não sabe lidar com as palavras, quando é na verdade uma
suposta inversão de papéis. “Eu tenho vergonha de escrever. Ainda bem que
não publico.”(17) E ainda: “Dizer a verdade que se encobre de mentiras.
Quantas vezes eu minto, meu Deus. Mas é para me salvar. Mentira também
é uma verdade, só que sonsa e meio nervosa.”(18)
As atitudes tomadas por Clarice Lispector passam pela encenação
que ela viveu em quase toda a sua vida, cercada
por culpa, medo e insegurança, enquanto escritora iniciante:
uma vida entranhada em seus personagens, onde já não existiam
limites entre o real e o ficcional. Por isso, Clarice Lispector
era e continua sendo um enigma.
Resumen
Este ensayo propone únicamente hacer un análisis de la obra pictórica de la autora Clarice
Lispector, que consiste en 16 cuadros en su totalidad, algunos de los cuales se encuentran
en la Fundação Casa Rui Barbosa, en Rio de Janeiro. Puesto que tal obra constituye una
actividade de “aficionada” de la intelectual, realizada durante el año 1975 y a mediados
de 1976, la lectura toma como punto de partida el libro Água viva, que, a su vez, presenta
una narradora-pintora, que se propone dialogar sobre su proceso de creación pictórica-verbal.
Keywords:
Clarice Lispector, literatura, pintura.