Bibliotecas Comunitárias:
a tradição renovada
do espaço de leitura
CACs Providência, Barreiro e São Paulo
por Jairo Rodrigues
Gislene Caldeira Brant e gerente do CAC Providência, Maria Aparecida
Moraes e gerente do CAC Barreiro e Marta Soares é diretora do Centro de Convivência do CAC São Paulo.
Jairo Rodrigues é coordenador do Projeto Bibliotecas Auto-geridas do Programa A tela e o texto
O acesso à leitura no Brasil é bastante prejudicado, seja pelos valores extremamente altos cobrados pelos livros,
seja pela inexistência de bibliotecas próximas das comunidades, ou mesmo pela falta de programas eficazes de
incentivo à leitura. No intuito de facilitar e promover o acesso à leitura nas regiões periféricas da Capital e
da Região Metropolitana, o Programa de Ensino, Pesquisa e Extensão A tela e o texto iniciou, em janeiro de 2005, o Projeto
Bibliotecas Comunitárias Auto-geridas, cujos objetivos são a criação e a manutenção de espaços de leitura que
envolvam as comunidades nas quais estão ou serão inseridas. Nos casos em que já exista a biblioteca, o Programa
atua de maneira a ampliar os números de visitação e empréstimos de livros. Em parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte,
através dos CACs – Centros de Apoio Comunitário - , o projeto inaugurou duas novas bibliotecas nas comunidades do
Barreiro (em 18/08) e do bairro São Paulo (em 20/08). Além dessas duas bibliotecas, o Programa também está presente na
biblioteca do CAC Providência, situado no bairro Minaslândia, onde são ministrados mensalmente cursos e oficinas
que envolvam as questões da leitura. Para falarem um pouco sobre a experiência dessa parceria e seus desdobramentos,
a Revista txt conversou com as Gerentes dos CACS Providência, Gislene Caldeira Brant, Barreiro, Maria Aparecida Moraes,
e a Diretora do Centro de Convivência do CAC São Paulo, Marta Soares.
Jairo Rodrigues - Revista txt –
Como se deu a parceria entre o CAC e A tela e o texto? Houve problemas na construção dessa parceria?
Gislene (CAC São Paulo) – A parceria deu-se inicialmente com o Centro de Convivência Saúde Mental,
sendo o CAC posteriormente convidado a participar. Em seguida, após reunião com a coordenação d’A tela e o texto,
o CAC assumiu o projeto. Com essa parceria, criamos o Projeto Lendo e Relendo que realiza atividades permanentes
como oficinas de leitura, poesia e exibição de vídeos e filmes comentados. Para o CAC, foi importante essa parceria,
pois conseguimos revitalizar a biblioteca através do Projeto Lendo e Relendo. Não tivemos problemas com a construção
dessa parceria. Temos tido acompanhamento da coordenação de A tela e o texto na elaboração da programação das atividades
do Projeto Lendo e Relendo.
Marta (CAC Providência) – A parceria entre o CAC São Paulo e A tela e o texto ocorre através do Centro de Convivência
que busca o contato na UFMG, na perspectiva de se ampliar o leque de opções para os usuários da saúde mental, com a oferta de
atividades que integrem diferentes grupos, facilitando assim a aproximação entre portadores de sofrimento psíquico e sociedade.
Maria Aparecida (CAC Barreiro) – A parceria entre o CAC Barreiro e o Projeto A tela e o texto se deu com a
mediação do Centro de Convivência Barreiro (Saúde Mental). À época, a gerente, Patrícia, participou de uma roda da
área de Saúde Mental, em que a professora Maria Antonieta, da UFMG e coordenadora do Projeto, colocou a experiência
com o Centro de Convivência do CAC Providência. Em seguida, a discussão foi aberta no CAC Barreiro, para viabilizar
a proposta com a nossa participação e a do Centro de Convivência Barreiro.
A partir da oficina “Leituras da tela e do texto”, no CAC ocorreram outros desdobramentos importantes: o planejamento
da Sala de Leitura (que inicialmente foi pensada como biblioteca) e que tem sido um projeto coletivo e bem partilhado,
com a assessoria da UFMG e referências da comunidade (apoiadores) importantes; a biblioteca (com sua concepção técnica)
será um próximo passo; a execução da proposta de alfabetização, com expectativa de inclusão digital, que está em curso;
o desenvolvimento da oficina “Tecendo o Livro da Vida”, com os grupos da terceira idade, foi outro importante momento
criativo e alternativo do projeto.
A construção da parceria foi bem debatida e bem acordada quanto aos papéis, às ações e aos acompanhamentos e apoio
da UFMG.
Txt – A criação ou a dinamização da biblioteca contribui
para elevar os níveis de leitura da comunidade que freqüenta o CAC?
CAC PROV – Sim. Hoje percebemos as pessoas passeando
entre as estantes da biblioteca, escolhendo novas opções de leitura, sugerindo títulos e querendo participar das
oficinas. É visível o aumento significativo do número de leitores e usuários.
CAC SP – A criação da Biblioteca Comunitária aumentou sim o nível de interesse pela leitura abrindo portas para o universo do
conhecimento, que é algo de extrema importância, não só para aquela comunidade...
CAC Barreiro – A Sala de Leitura está iniciando seu processo de acolhimento da comunidade. O acesso à leitura está disponibilizado.
Entretanto, por razões histórico-culturais a leitura ainda não seduz grande parcela da comunidade.
Percebo que a experiência escolar de leitura obrigatória não causa grande prazer. Além disso, o cotidiano das famílias é
preenchido pelo seu principal atrativo, a televisão (e para algumas outras, com maior poder aquisitivo, é o computador).
Esses são fatores que vêm dificultando a elevação dos níveis de leitura na comunidade.
Diante dessa preocupação, estamos pensando em projetos com usuários, com crianças, adolescentes
(como visitas do nosso núcleo Infanto-Juvenil à Sala de Leitura) e com a vizinhança, para elevar esses níveis. Pensamos
em atividades de Contação de Histórias, Mala de Leitura e leituras na sala de espera do CAC e do Centro de Saúde Mental;
além disso, o teatro e as artes plásticas motivados por novas oficinas de leitura, com a formação profissional
(tivemos essa experiência recentemente com o grupo de formação profissional construindo algumas idéias e a convivência
a partir do livro Nicolau teve uma idéia, de Ruth Rocha).
Txt – Como a comunidade tem recebido a idéia da biblioteca comunitária?
CAC SP – Para a comunidade que vive em torno, é a possibilidade de aproximação com o próprio CAC através da
biblioteca. Internamente, ainda está em processo o envolvimento efetivo de todos os usuários dos programas
ali existentes, com a idéia da biblioteca enquanto um lugar de todos, a ser construído por todos.
CAC Barreiro – A idéia tem sido recebida aos poucos, pelas razões já apontadas. O que precisamos é, então, criar soluções
diferentes e sedutoras, para estabelecer o vínculo entre a comunidade e o desejo de ler.
Txt – A comunidade envolveu-se com o projeto da biblioteca?
CAC PROV – Sim. A comunidade e os alunos das escolas em torno do CAC têm demonstrado interesse em participar das atividades,
percebe-se um envolvimento cada vez maior, com relação à leitura literária e à produção escrita. Em cada atividade a comunidade
exprime seus saberes, percepções, interesses e recriações com base na leitura literária.
CAC SP – A comunidade interna, isto é, aquela que já freqüenta o CAC, só se envolveu de fato com o processo de criação da
biblioteca num segundo momento, aliás, foi uma das experiências mais ricas ali vividas nos últimos tempos: a realização da Primeira
Gincana Integrada que foi organizada em função da biblioteca. O Centro de Convivência teve uma participação diferenciada desde o começo,
juntamente com o público externo.
CAC Barreiro – A comunidade tem se envolvido, principalmente com a doação de livros e com os apoiadores voluntários para a
organização e o funcionamento da Sala de Leitura.
O primeiro momento, articulado com a igreja local em dezembro de 2004, foi a entrega de livros literários no ritual do Ofertório.
Foi uma estratégia inédita, bem recebida, com o uso de oferenda diferenciada – e cerca de trinta livros foram doados.
Txt – Pensa-se em expandir a atuação da biblioteca? Como?
CAC PROV – Sim. Buscando novas parcerias e ampliando as atividades do Projeto Lendo e Relendo.
Nossa proposta é a promoção da leitura dentro e fora da biblioteca. Essa parceria é um meio eficaz de continuarmos fazendo
desabrochar leituras criativas e artísticas na comunidade. Queremos que o CAC seja um espaço novo e prazeroso de trabalho
literário, viabilizando a integração com textos, situando a leitura e a literatura como opção de lazer, conhecimento,
crescimento e questionamento.
CAC SP – Para o mês de outubro, já existe uma discussão sobre a criação de estratégias (como uma segunda gincana, por exemplo)
para o desenvolvimento de um maior número de pessoas em torno da Biblioteca Comunitária. O projeto de expansão passa pela
ampliação do espaço físico e pela aquisição de outros recursos como computador, DVD, mesas e cadeiras apropriadas.
A idéia é envolver toda a comunidade.
CAC Barreiro – Sim. Primeiro, é preciso expandir a Sala de Leitura, depois consolidá-la como biblioteca propriamente dita.
Esse passo tem que ser cuidadosamente planejado, começando pela visibilidade e pela identidade a serem conferidas à Sala
de Leitura, construindo a participação cotidiana da comunidade.